A doença de Alzheimer, uma perturbação neurodegenerativa progressiva que afecta milhões de pessoas em todo o mundo, tem uma fase pré-clínica longa. É possível que comece décadas antes de os sintomas clínicos se tornarem evidentes.
No entanto, como sugere a nossa investigação recente, biomarcadores no sangue, em conjunto com preocupações de memória relatadas pelas próprias pessoas, poderão dar uma pista precoce sobre a forma como a doença de Alzheimer se desenvolve ao longo da vida.
Isto indica que a meia-idade pode ser um período decisivo para promover a saúde do cérebro.
O que revelou o Estudo de Dunedin aos 45 anos sobre pTau181
Para este estudo, recorremos a dados do Estudo de Dunedin, referência mundial, da Universidade de Otago, que acompanha uma coorte de pessoas há mais de 50 anos.
Verificámos que uma determinada proteína, conhecida como pTau181, estava associada a preocupações auto-reportadas sobre memória e capacidades de pensamento.
É particularmente relevante que, no momento da avaliação, os participantes tinham apenas 45 anos. Em geral, as pessoas só recebem um diagnóstico de demência na casa dos 70 anos, ou mais tarde.
Nos últimos anos, assistimos a progressos nos tratamentos farmacêuticos para a doença de Alzheimer. Ainda assim, estes tratamentos não são curas. No melhor dos cenários, abrandam a progressão da doença, mas não preservam nem recuperam a função cognitiva perdida em fases mais avançadas.
É provável que estes tratamentos sejam mais eficazes quando iniciados cedo, o que torna ainda mais importante identificar os sinais mais precoces da doença de Alzheimer.
Prevenir a demência
Diferentes tipos de demência podem parecer semelhantes nas fases iniciais, mas o tratamento e a trajectória de progressão variam de forma significativa consoante o tipo.
No passado, a doença de Alzheimer só podia ser diagnosticada de forma definitiva após a morte, ou, mais recentemente, através de testes invasivos, como a punção lombar.
Actualmente, os investigadores estão a trabalhar na identificação de biomarcadores no sangue que possam oferecer uma forma minimamente invasiva de reconhecer pessoas com maior risco de virem a desenvolver doença de Alzheimer.
Detectar a doença de Alzheimer nas fases mais iniciais pode criar uma oportunidade de prevenção e trazer os maiores benefícios para a saúde cerebral e para o envelhecimento.
Isto pode passar por mudanças no estilo de vida, como apoiar as pessoas a manterem-se fisicamente activas e a continuarem envolvidas em actividades sociais, bem como por actuar sobre factores de risco modificáveis, como a hipertensão ou a perda auditiva.
As abordagens preventivas tendem a ser mais eficazes quanto mais cedo forem implementadas. Por isso, estudar populações de meia-idade é importante para identificar perfis de risco precoces para a doença de Alzheimer, muito antes de um diagnóstico ser feito.
Quando o esquecimento passa a ser um sinal de doença
À medida que envelhecem, muitas pessoas dão por si a notar que a memória já não é tão boa como era.
O esquecimento é frequente e, na maioria dos casos, é benigno com o avançar da idade. Porém, para algumas pessoas, estas dificuldades de memória podem indicar que existe algo mais a acontecer.
Investigação recente mostra que alterações subjectivas subtis na cognição ocorrem, muitas vezes, muito antes do diagnóstico e podem ser o primeiro momento em que a doença é sentida.
A avaliação de marcadores biológicos, em conjunto com relatos subjectivos sobre o funcionamento da memória, pode ajudar a distinguir os sinais iniciais da patologia da doença de Alzheimer do envelhecimento normal.
Proteínas como a pTau181 encontram-se em níveis muito mais elevados em pessoas com doença de Alzheimer, mas ainda não sabemos quando é que esta proteína começa a acumular-se.
Os nossos resultados juntam-se às evidências crescentes de que os primeiros sinais de demência podem surgir muito antes do diagnóstico. Mostram também que preocupações cognitivas auto-reportadas podem constituir um aviso precoce para a doença de Alzheimer, mesmo na meia-idade.
De forma interessante, não observámos uma associação entre o biomarcador pTau181 e medidas obtidas por ressonância magnética (RM) cerebral, nem com o desempenho em testes cognitivos aos 45 anos.
Há, pelo menos, duas explicações possíveis para isto.
Talvez a pTau181 aumente durante as fases mais iniciais da doença de Alzheimer, quando as pessoas começam a notar pela primeira vez um agravamento da memória, mas ainda sem alterações visíveis em exames de RM.
Em alternativa, pode acontecer que valores elevados de pTau181 não estejam relacionados com o risco de doença de Alzheimer na meia-idade e que esta proteína apenas seja útil para detectar a doença de Alzheimer em adultos mais velhos.
Ainda não sabemos o suficiente, mas iremos continuar a acompanhar o mesmo grupo de pessoas à medida que envelhecem, para dar continuidade a esta investigação.
Ashleigh Barrett-Young, investigadora de pós-doutoramento em Saúde Cerebral, Universidade de Otago
Este artigo é republicado de The Conversation ao abrigo de uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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