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Conheça o "Rei" de um ecossistema subterrâneo tóxico único no mundo.

Espeleólogo com capacete e lanterna examina um centopeia numa caverna com estalactites e material de estudo.

A gruta de Movile, no sudeste da Roménia, dificilmente apareceria no topo de uma lista de destinos de férias: lá em baixo não entra qualquer luz, o ar é denso e carregado de gases venenosos e o sistema permaneceu isolado do mundo exterior durante cerca de 5,5 milhões de anos - até ser descoberto por acaso, em 1986.

Gruta de Movile e Cryptops speleorex: o maior habitante identificado até agora

Apesar do cenário extremo, existe vida na gruta de Movile - e os cientistas identificaram agora o maior animal encontrado no local até à data. Trata-se de uma centopeia troglóbia (isto é, adaptada a viver no subsolo) a que foi atribuído o nome Cryptops speleorex, capaz de atingir 52 mm (2 polegadas) de comprimento.

Com esta descoberta, o total de espécies endémicas exclusivas da gruta sobe para 35. E tudo indica que o número real poderá ser bem maior neste intrigante emaranhado subterrâneo - mesmo que, por motivos de segurança, cada incursão às galerias tenha de ficar limitada a cerca de 5–6 horas.

O “rei da gruta” observa o seu território. (Mihai Baciu, GESS LAB, Mangalia)

Os investigadores descrevem-no assim: “A centopeia que descrevemos é um predador venenoso, de longe o maior dos animais previamente descritos nesta gruta. Pensando no seu lugar de topo neste sistema subterrâneo, decidimos dar à espécie o nome Cryptops speleorex, que pode traduzir-se como ‘rei da gruta’.”

Um ecossistema alimentado por quimiossíntese

Nas profundezas da gruta de Movile já foram igualmente encontrados escorpiões-de-água, sanguessugas e pequenas aranhas. Todas estas formas de vida dependem de nutrientes gerados pela oxidação de gases - incluindo metano e enxofre - realizada por bactérias.

É o único ecossistema conhecido no mundo que assenta neste tipo de quimiossíntese, mas há mais particularidades. Tendo permanecido em escuridão total durante milhões de anos, muitos dos organismos que ali vivem são cegos e completamente desprovidos de cor.

Algumas das espécies presentes na gruta também existem para lá das suas fronteiras, mas C. speleorex não é uma delas. Para o confirmar, a equipa internacional recorreu a análises de ADN, verificando que a centopeia era, de facto, uma espécie nunca antes observada.

Segundo os investigadores: “Os nossos resultados confirmaram as nossas dúvidas e revelaram que a centopeia de Movile é morfológica e geneticamente diferente, sugerindo que tem vindo a evoluir, ao longo de milhões de anos, a partir do seu parente mais próximo que vive à superfície, transformando-se num táxon totalmente novo, melhor adaptado à vida na escuridão interminável.”

Exploração da gruta. (Mihai Baciu, GESS LAB, Mangalia)

Porque é tão difícil explorar a gruta de Movile

As expedições têm de ser curtas: o ar contém cerca de metade do nível normal de oxigénio e há abundância de sulfureto de hidrogénio, metano, amónia e dióxido de carbono. Além disso, a humidade na gruta é extremamente elevada.

Pouquíssimos investigadores chegam a visitar este labirinto subterrâneo. O acesso implica uma descida por corda de 20 metros (66 pés) e, depois, bastante progressão por passagens apertadas para atingir a câmara central, bem como nadar por canais submersos para observar o que existe mais além.

Do ponto de vista científico, o esforço compensa. Os organismos que habitam a gruta podem ensinar-nos muito sobre como a vida resiste nas condições mais hostis, como evolui quando está isolada e até sobre como poderá ter começado na Terra.

Por agora, C. speleorex ocupa o trono de “rei da gruta” - mas talvez não demore muito até surgir, nas profundezas da escuridão, uma criatura ainda maior.

Afinal, há sempre uma centopeia maior.

A investigação foi publicada na ZooKeys.

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