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Venda da N1 e do grupo Adria News por €30 milhões levanta dúvidas sobre independência editorial

Homem sentado em estúdio de gravação com microfone, computador e dois homens a apertar as mãos ao fundo.

Venda da N1 na Sérvia e do grupo Adria News por €30 milhões

A própria estação N1 confirmou na quinta-feira passada a operação que tinha sido tornada pública pelo portal de jornalismo de investigação Raskrikavanje. Em causa está a alienação do grupo Adria News - um conjunto de 12 empresas de comunicação social nos Balcãs, com várias cadeias de televisão e alguns jornais, incluindo a N1 na Sérvia - atualmente detido pela BC Partners, sociedade britânica de investimento de capital privado.

De acordo com a informação conhecida, a BC Partners prepara a venda por €30 milhões a um fundo com sede no Luxemburgo, o European Future Media Investments (EFMI). Apesar de o comprador formal estar registado no Luxemburgo, elementos do contrato - como moradas para notificações e contactos - remetem para a Alpac Capital, a sociedade de investimento de Pedro Vargas David (na foto) e Luís Santos.

A Alpac Capital ganhou notoriedade quando adquiriu a Euronews em 2022 com financiamento que, segundo uma investigação do Expresso em parceria com o portal húngaro Direkt36 e o diário francês Le Monde, foi parcialmente assegurado por fundos públicos húngaros e por empresas próximas de Viktor Orbán.

Contexto: gravação e pressão política sobre o United Group

A decisão de vender a N1 surge na sequência de revelações feitas em agosto de 2025 pelo consórcio OCCRP e pelo jornal de investigação sérvio Krik, que divulgaram uma gravação de uma conversa considerada comprometora entre o CEO do United Group - conglomerado através do qual a BC Partners controla a estação - e Vladimir Lučić, CEO da Telekom Srbija, a operadora de telecomunicações estatal sérvia.

Nesse telefonema, tornado público, Lučić relata que o Presidente da República da Sérvia, Aleksandar Vučić, terá contactado diretamente, em Londres, o presidente do conselho da BC Partners, Nikos Stathopoulos, para exigir a saída de Aleksandra Subotić, diretora-geral responsável pela gestão da N1 e de outros órgãos do grupo. Subotić era vista como a principal fiadora da independência editorial dessas redações.

A irritação do Presidente estaria ligada à forma como a N1 acompanhou os nove meses de protestos contra o seu Governo, após o desabamento de um alpendre na estação ferroviária de Novi Sad, em novembro de 2024, que provocou 16 mortos.

Na mesma conversa, o CEO do United Group, Stan Miller, reconhece que a pretensão de Vučić não podia ser executada de imediato. “Não posso despedir a Aleksandra hoje, como combinámos, ok? Tenho de tornar essa empresa muito pequena na Sérvia, se entendes o que quero dizer”, afirmou, segundo a transcrição divulgada pelo OCCRP.

Uma demissão concretizada

A demissão de Aleksandra Subotić acabaria por ocorrer mais tarde, já em fevereiro deste ano. No início de abril, também o diretor de informação da N1, Igor Božić, foi afastado.

Numa declaração conjunta, oito organizações sérvias de jornalistas interpretaram a saída de Božić como “um sinal grave de que as autoridades, em coordenação com novas estruturas de propriedade, entraram na fase final do estabelecimento de controlo sobre um dos últimos pilares de informação independente da Sérvia”.

Questionados pelo Expresso na sexta-feira, por correio eletrónico, com um conjunto de perguntas sobre o negócio, nem a Alpac Capital nem a BC Partners tinham prestado esclarecimentos até ao momento da publicação deste artigo.

Já em agosto de 2025, em resposta ao OCCRP, um porta-voz da BC Partners tinha garantido que o United Group nunca seria “indevidamente influenciado por pressão política em qualquer país onde invista ou opere”, acrescentando que a United Media - o braço histórico de media do grupo, liderado por Subotić até este ano - “sempre garantiu, e continuará a garantir, a independência editorial e jornalística da sua equipa”.

Em dezembro, ainda como diretor de informação da N1, Igor Božić explicou ao OCCRP que a BC Partners recusou uma proposta para comprar o United Group apresentada por um conjunto de diretores e editores, baseada numa aquisição pela própria equipa de gestão (compra pela gestão). Segundo Božić, o argumento então invocado para rejeitar a oferta foi o de que não queriam “vender os media a um terceiro”.

Contrato não assegura independência

Fontes ouvidas pelo Expresso indicam que a formalização da venda ao fundo ligado à Alpac Capital deverá ser aprovada esta segunda-feira numa reunião do conselho de administração da BC Partners, em Londres.

Na versão final do contrato de compra e venda consultada pelo Expresso, as disposições relativas à independência editorial surgem sem instrumentos concretos de execução. Ou seja, não existem sanções previstas para o caso de essas cláusulas serem incumpridas.

No plano formal, o documento impõe ao comprador um conjunto alargado de compromissos, incluindo o respeito pelo novo regulamento europeu sobre liberdade de imprensa, aprovado em 2024 - a Lei Europeia da Liberdade dos Media (EMFA) - e a criação de “salvaguardas que assegurem que as empresas-alvo são editorial e funcionalmente independentes e fornecem, de forma imparcial, uma pluralidade de informações e opiniões”. Também se prevê que os processos de nomeação e demissão dos órgãos de gestão sejam “transparentes, abertos, eficazes e não-discriminatórios”, bem como a manutenção de um “órgão consultivo externo independente, composto por profissionais internacionais de comunicação social”.

Contudo, na prática, essas obrigações podem ser desrespeitadas sem efeitos materiais. Além disso, o texto não define procedimentos a observar na nomeação ou afastamento de diretores de informação, editores ou jornalistas, nem atribui ao futuro órgão consultivo externo qualquer poder de veto sobre decisões da gestão que venha a assumir o controlo do grupo. O contrato delimita esse órgão a funções de “orientação e supervisão” e remete as respetivas regras de funcionamento para normas que não constam do próprio acordo.

Outro ponto relevante é o facto de o vendedor poder retirar fundos do grupo antes de a operação ser concluída, processo que poderá demorar até sete meses. Nesse intervalo, a BC Partners fica autorizada a extrair liquidez das empresas da Adria News, “seja por via de dividendo, distribuição, reembolso de capital, liquidação de saldos intragrupo ou de outra forma”, desde que permaneça em caixa €1 milhão.

Caso esses montantes sejam efetivamente retirados, terão de ser abatidos ao valor final, podendo fazer com que o preço efetivo fique abaixo dos €30 milhões. Em paralelo, tal poderá deixar estes órgãos de comunicação social descapitalizados, com menor capacidade para absorver quebras de receitas ou para realizar investimentos editoriais que, entretanto, venham a ser considerados necessários.

Financiamento e autorizações regulatórias da operação

Permanece por esclarecer a origem do dinheiro que suportará a compra. O contrato remete os detalhes do financiamento para um documento separado - uma Carta de Compromisso de Capital - que é referido como anexo, mas não foi divulgado. Esse documento identificaria a entidade ou entidades que se comprometem a assegurar o capital indispensável ao pagamento dos €30 milhões.

No caso da compra da Euronews pela Alpac Capital em 2022, a investigação do Expresso, do Direkt36 e do Le Monde concluiu que uma parte substancial do capital teve origem em fundos públicos húngaros e em empresas próximas do círculo de Viktor Orbán. Não foi possível determinar se, na operação atual, a estrutura de financiamento é ou não semelhante.

Depois de obter luz verde do conselho de administração da BC Partners, o negócio terá ainda de ser validado pelas autoridades da concorrência da Sérvia, do Montenegro e da Bósnia-Herzegovina. Além disso, terá de ser apreciado pelo Ministério dos Media, Telecomunicações e Política Digital do Luxemburgo, uma vez que é aí que está sediada não só a entidade compradora, como também a sociedade que está a ser vendida - a Adria News S.à r.l. - onde se encontra concentrado o controlo formal do grupo.

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