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Nova Ordem Mundial: a Europa no centro

Homem de fato a montar puzzle de mapa numa mesa com globo, portátil e documentos.

A Nova Ordem Mundial deixou de ser uma expressão vaga para passar a traduzir uma urgência política concreta. Aquilo que, há poucos anos, soava a linguagem de cimeira é hoje uma exigência estratégica num planeta polarizado, instável e crescentemente dominado por blocos de poder que não partilham os valores liberais que marcaram o período do pós-2.ª Guerra Mundial.

Nova Ordem Mundial: por que a Europa é chamada a liderar

Numa recente cimeira europeia realizada na Arménia, quando o primeiro-ministro do Canadá apontou a Europa como possível eixo dessa nova ordem, não se tratou apenas de um elogio de ocasião. Foi, na prática, um repto: ou a Europa assume um papel estruturante na política internacional, ou corre o risco de ficar encostada à irrelevância geopolítica perante potências mais afirmativas - algo que já se percebe no contexto do conflito no Médio Oriente.

Para que a Europa consiga desempenhar esse papel agregador, há um obstáculo de fundo que não pode continuar a ser ignorado: a sua fragmentação política.

O peso da União Europeia e o paradoxo da fragmentação

Mesmo com essa divisão interna, o bloco europeu continua a ser um dos espaços económicos mais ricos, integrados e influentes do mundo. A União Europeia reúne 27 países, soma cerca de 450 milhões de habitantes, apresenta um PIB conjunto superior a 17 biliões de euros e representa aproximadamente 15% da economia mundial. Acolhe mais de 30 milhões de empresas e constitui uma das maiores áreas de comércio livre do planeta, o que lhe confere, per se, um peso considerável à escala global.

Ainda assim, peso económico não equivale automaticamente a influência política - sobretudo quando falta unidade.

Médio Oriente: o custo de falar com 27 vozes

A crise no Médio Oriente voltou a expor uma realidade que muitos preferem empurrar para segundo plano: em vez de uma posição europeia nítida, coerente e capaz de produzir efeitos, assistiu-se a um conjunto disperso de respostas nacionais, frequentemente incompatíveis entre si. Cada Estado-membro reage em função das suas prioridades internas, das suas dependências energéticas e das pressões da política doméstica. O desfecho é, por isso, previsível: a perda de relevância do bloco europeu.

Uma Europa que se expressa com 27 vozes não se impõe - sussurra. E, na conjuntura geopolítica atual, sussurrar equivale a renunciar a influência.

De cooperação a bloco político: o que falta à Europa

Se a ambição é ter uma Europa com capacidade para moldar a Nova Ordem Mundial, torna-se necessário abandonar a ideia confortável de que a cooperação intergovernamental basta. Não basta. Nunca bastou. O modelo em vigor na União Europeia, demasiado dependente do consenso e de uma soberania repartida e fragmentada, não está ajustado a um mundo em que a competição estratégica se faz entre blocos.

Daí que se imponha uma reflexão mais exigente: a Europa precisa de evoluir para um verdadeiro bloco político integrado. Não tem de assumir a forma de um Estado federal clássico, mas deve, inevitavelmente, dispor de capacidade de decisão célere, de uma política externa consistente e de instrumentos comuns nas áreas da defesa, energia e economia.

Isto não corresponde a abdicar de soberania; é, pelo contrário, a forma de a manter. A alternativa é direta: Estados europeus isolados, cada vez mais dependentes de potências externas, com menor capacidade para proteger interesses e valores, num mundo em que o poder é medido em blocos, à escala continental.

Uma Europa integrada teria condições para ser mais do que um ator que reage aos acontecimentos. Poderia liderar, definir agendas, mediar conflitos, criar padrões globais e afirmar um modelo assente na liberdade individual, no Estado de direito e na economia aberta - precisamente o conjunto de princípios que hoje está sob pressão.

Essa transformação, porém, exige coragem política. Pressupõe líderes preparados para explicar aos cidadãos que, no século XXI, a soberania não se exerce no isolamento, mas em conjunto. Implica também uma mudança cultural: deixar de encarar a Europa como um compromisso permanente entre interesses nacionais e passar a vê-la como um projeto político partilhado.

Portugal e a integração europeia mais profunda

Portugal, pela sua história e pela sua vocação atlântica, tem aqui uma oportunidade evidente. Em vez de se limitar a acompanhar as dinâmicas europeias, pode - e deve - assumir-se como defensor ativo de uma integração mais profunda, alinhando-se com os países que entendem que o futuro da Europa depende da sua capacidade de agir como um bloco.

A Nova Ordem Mundial não vai esperar pela Europa. Ela já está a ser desenhada - muitas vezes sem participação europeia. Se a Europa pretende liderar, terá de demonstrar que o seu modelo liberal não é apenas legado histórico, mas uma opção consciente, ajustada às exigências do presente e às do futuro. Caso contrário, arrisca-se a ser ultrapassada, não por falta de capacidade, mas por falta de convicção e por inação.

A pergunta é simples: queremos ser atores ou apenas espectadores nesta Nova Ordem Mundial?

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