A 8 de maio cumpre-se o primeiro ano do pontificado de Leão XIV, um Papa que colocou a paz não só como tema repetido, mas como linguagem de base do seu ministério. Logo no primeiro momento, ao surgir na varanda da Basílica de São Pedro, em Roma, a saudação inicial - "A paz esteja convosco" - marcou com nitidez o rumo da sua missão.
Leão XIV e a paz como gramática do pontificado
Eleito há quase um ano, Robert Francis Prevost tornou-se o primeiro Papa norte-americano da história e trouxe para Roma um percurso feito de fronteiras. Agostiniano, com experiência missionária no Peru e considerado figura de confiança na governação da Cúria romana, próximo de Francisco, o seu pontificado começou cedo a desenhar-se como continuidade: recentrar a Igreja em Cristo e, ao mesmo tempo, torná-la mais disponível para a escuta, a unidade e o diálogo.
Uma paz que começa no coração e se torna missão
Para Miguel Pedro Melo, jesuíta residente em Roma e vice-diretor internacional da Rede Mundial de Oração do Papa (RMOP), a paz proposta por este pontificado está longe de ser abstrata ou meramente estratégica. "Nasce no coração, torna-se comunhão e traduz-se em transformação do Mundo." Trata-se, explica, de uma paz que se inicia no interior de cada pessoa e só depois se projecta e ganha corpo no tecido social.
Na leitura de Miguel Pedro Melo, isso corresponde a uma Igreja "recentrada em Cristo, menos autorreferencial e mais orientada para a escuta, a unidade e a missão". Porque, acrescenta, "a Igreja não se reduz a instituição, mas é chamada a ser sinal de comunhão num mundo fragmentado".
Essa mesma lógica alarga-se à forma como Leão XIV lê a realidade. A fé, insiste, tem sempre efeitos concretos. "Traduz-se em responsabilidade política, económica e ética, sobretudo na defesa dos mais frágeis", sublinha o responsável da RMOP.
Estilo de governo: escuta, consulta e unidade como método
Esta visão nota-se também no modo como o pontífice conduz a Igreja. Nuno da Silva Gonçalves, padre jesuíta e director da mais antiga revista cultural italiana ainda em publicação, "La Civiltà Cattolica", caracteriza Leão XIV como alguém de "formalidade próxima". Desenvolve a ideia: "É formal mas, ao mesmo tempo, deixa-se tocar e comover com o que vê e ouve".
Aponta ainda um traço determinante na forma de governar: "Dá grande importância à consulta periódica de todos os cardeais". Chegou a defender consistórios mais frequentes e uma aposta assumida na escuta em grupos pequenos. A meta, diz, é directa, embora exigente: criar "um ambiente conciliador", no qual a unidade "não é slogan, mas método".
Essa proximidade, porém, não fica confinada a Roma. Nas deslocações à Turquia, ao Líbano, ao Mónaco e a África, o Papa tem regressado a preocupações muito concretas: as desigualdades, a corrupção, a exploração de recursos e a situação dos migrantes. Em todos esses cenários, repete que a fé não pode permanecer encerrada dentro da Igreja.
Ao longo deste ano, Leão XIV também trouxe para o centro assuntos difíceis. Esteve com vítimas de abusos sexuais e voltou a insistir na necessidade de responsabilização dentro da Igreja, tanto nesse domínio como noutros. E, no plano internacional, lidou com tensões políticas, incluindo divergências com Donald Trump em matérias de migração e direitos humanos.
Menos carismático ou mediático do que o seu antecessor, escolhe a escuta em vez do protagonismo. Ainda assim, essa reserva não o retirou do debate global - sobretudo quando entram em jogo guerra, migração e dignidade humana.
Fechado este primeiro ano, permanece a percepção de que a paz continua a ocupar o centro. E, ao mesmo tempo, mantém-se como aquilo que mais custa viver - dentro da Igreja e no Mundo.
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