Orientações da DGS para contactos do cruzeiro MV Hondius
A Direção-Geral da Saúde (DGS) divulgou, na segunda-feira, um conjunto de orientações dirigidas aos profissionais de saúde, para o caso de entrarem em Portugal pessoas que tenham estado em contacto com passageiros do cruzeiro MV Hondius.
No âmbito do surto a bordo, estima-se que tenham sido registados dez casos positivos de hantavírus. O investigador do Instituto Gulbenkian de Medicina Molecular (GIMM), Miguel Castanho, sublinha que "não há indicação de que esteja a acontecer" algo comparável à pandemia de covid-19.
De acordo com a DGS, não existe no país "qualquer alteração da avaliação do risco". A autoridade de saúde refere, no seu sítio oficial, que o nível de risco se mantém "muito baixo, pelo que não há medidas preventivas a implementar a nível nacional para a população". Ainda assim, para a "gestão de eventuais" casos suspeitos relacionados com o surto de hantavírus no cruzeiro MV Hondius, foram publicadas várias "medidas a adotar" pelos profissionais.
Transporte, triagem e hospitais de referência
Entre os exemplos apresentados, está a indicação de que o INEM deve ser acionado para "garantir o transporte do caso suspeito desde o local onde estiver até ao hospital de referência". As unidades de referência apontadas para a vigilância são a Unidade Local de Saúde (ULS) São José, em Lisboa - hospital Curry Cabral (adultos) e Dona Estefânia (crianças) - e a ULS São João, no Porto.
Longe do descontrolo
A infeciologista Margarida Tavares considera que o procedimento definido pela DGS está alinhado com o que é recomendado pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC, na sigla em inglês). "Não pode ser interpretado como alarmismo", afirma a médica ao JN, explicando que estas orientações passam, agora, por estabelecer o que constitui um caso suspeito de hantavírus e por apoiar os profissionais de saúde na exclusão de outros diagnósticos.
Miguel Castanho volta a frisar "não haver indicações de que esteja a acontecer algo" semelhante ao vírus SARS-CoV-2, responsável pela covid-19, defendendo que as autoridades estão apenas a "precaver-se". Para o investigador do GIMM, está-se muito longe do "descontrolo" vivido durante a pandemia, quando o crescimento "galopante" de casos de covid-19 esteve ligado à adaptação do SARS-CoV-2 aos humanos, através de mutações.
Em contraste com esse cenário, acrescenta, o número de infeções por hantavírus é, neste momento, reduzido, sendo a transmissão habitualmente associada a roedores infetados.
Quanto à covid-19, a origem provável terá sido um morcego que passou o vírus a um humano, embora a Organização Mundial da Saúde admita que tenha existido outro animal intermediário na transmissão para pessoas, no mercado de Wuhan, na China, em 2019.
Maior desconfiança
Perante o surto de hantavírus no cruzeiro MV Hondius, Margarida Tavares observa que existe hoje uma "maior desconfiança" da população relativamente ao que é comunicado pelas autoridades de saúde. Por isso, entende que cabe à DGS e ao Ministério da Saúde detalharem, passo a passo, as decisões tomadas. "Não se explica devidamente o que se faz", sustenta ao JN.
Miguel Castanho assinala que a "maior mobilidade" de pessoas e mercadorias - quer por via aérea, quer por via marítima - tornará a disseminação de vírus cada vez mais frequente. "São os desafios de cada época", afirma. Já Margarida Tavares defende que será um "sinal de maturidade" dos países quando "a sociedade não reagir com tanto alarme" a surtos de vírus.
Casos positivos
Foram detetados em passageiros do cruzeiro MV Hondius dez casos positivos de hantavírus Andes, a estirpe identificada a bordo. O caso mais recente confirmado é o de um cidadão espanhol.
Incubação
O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde disse, ontem, que é provável que surjam mais casos de hantavírus nas próximas semanas entre passageiros e tripulantes do navio, tendo em conta o longo período de incubação do vírus.
Repatriamento
Os dois últimos voos de repatriamento de passageiros e tripulantes do cruzeiro MV Hondius chegaram na noite de segunda-feira aos Países Baixos.
França
A cidadã francesa, de 65 anos, infetada com hantavírus, necessita de ventilação mecânica para respirar. Três pessoas morreram com o vírus.
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