Há registo de despesas de vários milhares de euros em tabaco, refeições em restaurantes, hotéis, compras de roupa de marca, perfumes e levantamentos sem critério aparente.
Quase 10 mil euros em tabaco, cerca de nove mil euros em restaurantes, 2500 euros no supermercado, além de gastos com roupa de marca, perfumes, uma massagem, 115 mil euros em levantamentos indiscriminados e transferências por MB Way para a mulher - tudo num período de ano e meio. Isaac Braga, presidente da Junta de Freguesia de Vila do Conde, é suspeito de ter utilizado dinheiro público em benefício próprio. Na assembleia de freguesia, o PS recusou viabilizar as contas da Junta relativas a 2025. Uma semana depois, a RTP denunciou, esta sexta-feira, suspeitas de peculato e, ainda antes da reportagem ir para o ar, a Federação Distrital do Porto do PS já assumia existir "uma quebra de confiança política". Isaac Braga afirma tratar-se de "suspeitas infundadas" e diz-se "tranquilo".
Contas de 2025 chumbadas após votação na assembleia
O caso ganhou forma na assembleia de freguesia de 29 de abril de 2026. Nove dos 12 eleitos do PS optaram pela abstenção na votação das contas da Junta de 2025, o que abriu caminho ao chumbo por parte do PSD/CDS e do Chega. Entre as exigências dos socialistas estava o acesso a extratos bancários e a outros documentos.
Isaac Braga - que, em 2020, saiu do movimento independente NAU, responsável pela sua eleição em 2017, e que nas Autárquicas de 2021 se aliou ao PS de Vítor Costa - garante que foi "apanhado de surpresa" com a posição do partido. Ficou politicamente isolado.
Extratos bancários divulgados pela RTP e os valores em causa
Uma semana depois, a RTP assegurou, esta sexta-feira, ter consultado extratos relativos aos movimentos da conta bancária da Junta de Freguesia, no período entre abril de 2024 e outubro de 2025. A estação denunciou o alegado uso de verbas públicas para fins pessoais, identificando, entre outros movimentos, 9967,83 euros gastos numa loja de cigarros eletrónicos e 8827,58 euros em restaurantes.
Segundo a mesma informação, há um pagamento de 117 euros num restaurante mexicano, precisamente no dia em que Isaac Braga publicou no Facebook uma fotografia com as duas filhas e a mulher nesse mesmo restaurante. A reportagem aponta ainda 1400 euros transferidos por MB Way para a mulher e, dois dias antes, 1500 euros enviados para o próprio. São também referidos levantamentos indiscriminados no valor total de 115 770 euros, descritos como "sem explicação".
Reações do PS e declarações de Isaac Braga
A reportagem foi emitida às 21 horas. Antes disso, às 17.10 horas, a concelhia socialista reagiu através de um comunicado: "O secretariado da concelhia do PS considera que o voto da abstenção constituiu um voto responsável e um aviso sério à Junta de Freguesia. O PS de Vila do Conde não pactua, nem aceita comportamentos dúbios ou pouco transparentes".
À mesma hora, Isaac Braga publicava um vídeo onde surgia a trabalhar. Ao JN, disse: "Estou tranquilo. Vamos analisar o teor da peça e estaremos cá para dar todas as explicações".
Pouco depois, a Distrital declarou "solidariedade política" com a concelhia e pediu um "esclarecimento célere e rigoroso".
"Perante os elementos tornados públicos, entende a Federação que existe, neste momento, uma quebra de confiança política relativamente ao presidente da Junta de Freguesia, Isaac Braga, situação que deverá ser devidamente avaliada à luz dos princípios de responsabilidade e transparência que norteiam o PS", refere, em comunicado, a distrital do PS. No mesmo texto, acrescenta que "a confirmarem-se como verdadeiros os factos, serão mobilizados todos os meios políticos e estatutários adequados para a tomada de decisões concretas relativamente ao sucedido".
Se vier a ser demonstrado, o crime de peculato poderá implicar a perda de mandato.
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