Interdependência económica entre Estados Unidos e China
A ligação entre os Estados Unidos da América e a China não pode ser tratada como uma simples reedição da Guerra Fria, e há várias razões para isso. A mais determinante é a interdependência económica que une as duas potências.
Visto por esse prisma, talvez o dado mais relevante da deslocação de Trump à China não tenha sido um gesto protocolar ou uma frase de circunstância, mas sim a composição da comitiva que o Presidente norte-americano decidiu levar consigo. À vista de todos ficou uma declaração de prioridades dos Estados Unidos: comércio e dependências.
Não existe nada de extraordinário - nem censurável - no facto de um presidente viajar acompanhado pelos grandes interesses económicos do seu país. Pelo contrário: chefes de Estado e de Governo fazem, inevitavelmente, diplomacia económica; faz parte do cargo. Ainda assim, quem é escolhido para estar ao lado do líder diz muito sobre aquilo que um país coloca no topo da agenda.
(O facto de Trump incluir a família no conjunto de interesses económicos que se deslocam com ele é um assunto diferente. A mistura entre a presidência e os interesses privados da família Trump é uma conversa que os americanos deveriam ter entre si. No ambiente de polarização política em que o país vive, por mais evidentes que sejam os factos, não parece que esse debate venha a acontecer tão cedo. Sigamos.)
A comitiva de Trump e as dependências tecnológicas
Trump levou a Pequim gestores de activos, um fabricante de aviões, Elon Musk (que junta carros eléctricos e inteligência artificial) e figuras de algumas das principais empresas tecnológicas. Aquilo que foram fazer à China faz parte do essencial do que ocorreu em Pequim na semana passada.
Tesla, SpaceX e Grok, bem como Apple, Nvidia e Qualcomm, não têm exactamente os mesmos problemas, interesses ou objectivos quando lidam com a China. Mesmo assim, partilham três elementos centrais: procuram acesso ao mercado chinês; dependem de matérias-primas críticas que a China possui e que usa como instrumento de pressão comercial; e ficariam em colapso se uma intervenção chinesa em Taiwan colocasse em risco o acesso aos semicondutores produzidos pela TSMC.
Da defesa à mobilidade eléctrica, da inteligência às energias renováveis, há uma interdependência económica real entre Estados Unidos e China - mas a dependência daquilo que, neste momento, só Taiwan consegue produzir em quantidade e com qualidade é um problema ainda maior. Quando comparado com um bloqueio da TSMC (seja deliberado, seja como dano colateral de uma guerra), o Estreito de Ormuz pareceria uma ligeira arrelia.
É muito improvável que esta dependência - sendo que a China também compra semicondutores a Taiwan - não tenha entrado nas conversas. Em que moldes, não sabemos. Não aparece nas várias e diferentes versões apresentadas por cada lado. Ainda assim, os factos estão expostos.
Mensagens políticas de Xi Jinping, prioridades de Trump e o problema europeu
Com razão, grande parte da cobertura mediática da cimeira concentrou-se no que os dois líderes disseram. E, no meio do ruído, houve alguma nitidez nas mensagens de Xi e de Trump.
No essencial, Xi Jinping colocou a China em pé de igualdade com os Estados Unidos. Referiu-se a ambos como “dois grandes países” e, ao aconselhar a América a “não cair na armadilha de Tucídides”, estava a afirmar que a China é a potência em ascensão e que os Estados Unidos não devem responder ao desafio desencadeando um conflito antes de serem ultrapassados.
O Presidente chinês defendeu a possibilidade de uma “estabilidade construtiva estratégica” que, segundo Pequim, significa “estabilidade positiva com a cooperação como pilar, estabilidade saudável com competição dentro dos limites adequados, estabilidade constante com diferenças geríveis e estabilidade duradoura com paz expectável”. Em termos práticos, trata-se de competição controlada com estabilidade - algo que dificilmente se compatibiliza com, por exemplo, guerras tarifárias e retaliações através do bloqueio de exportações de matérias-primas críticas. E, reforçou Pequim, nada de reacções inopinadas a propósito de Taiwan.
Do lado norte-americano, o eixo foi sobretudo comercial. E terá sido também o Irão. Isto revela duas preocupações: que, afinal, esta administração não está a procurar um afastamento económico de Pequim; e que a potência estabelecida precisa da potência emergente para enfrentar um problema que ela própria criou. Mantém-se, portanto, a interdependência - e expõe-se uma fragilidade americana desnecessária. Tanto mais que não é evidente que Pequim queira assumir, pelo menos de forma visível, o papel internacional que lhe está a ser proposto.
O facto de a China não se apresentar como concorrente ideológico - apesar de o ser - é mais uma razão para esta relação ser diferente da que existia entre as potências da Guerra Fria. E isto deixa os europeus com um problema adicional.
A Europa classifica a China como rival sistémico porque parte do pressuposto de que Pequim pretende exportar o seu modelo político. Essa não é a preocupação desta América.
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