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Crónica: Humilhação, Geringonça, Cunhados e Energia

Homem de fato a discursar num púlpito perante uma audiência que aplaude e grava com telemóveis.

HUMILHAÇÃO

José Luís Carneiro e o líder parlamentar, Eurico Brilhante Dias, carregaram no tom ao classificarem a actuação do Governo em matéria da Base das Lajes como uma humilhação "à escala planetária". Admito que Carneiro possa ter um Cordeiro a morder-lhe os calcanhares, como certa imprensa insinua; ainda assim, se a moderação e a seriedade têm sido o activo desta direcção socialista, convinha não cair na “retórica infantil e extemista”, na formulação de Assis. Desde logo porque este Governo não tem, ele próprio, escala planetária; depois porque, se estivessem no poder, fariam precisamente o mesmo; e, por fim, porque o tão invocado exemplo espanhol - para os nostálgicos da 'geringonça' - consiste em falar alto enquanto deixa atravessar o seu território mais aviões dos EUA do que os que passam pelo reabastecimento nas Lajes. Isto sem perder de vista o peso económico, para a Região, da cedência de facilidades aos americanos naquela base... e como nos assustámos quando achámos que os americanos iam abandonar aquilo.

COISA DE ESQUERDA

Estas investidas socialistas - em especial vindas da ala infetada pelo vírus da 'geringonça' (palavras de outro dirigente socialista, aqui o meu amigo Álvaro Beleza) - fazem-me recordar certos cronistas que, na linha de Nanni Moretti no filme "Abril", se empenhavam em que António José Seguro “dissesse qualquer coisa de esquerda”. São, no fundo, os mesmos que confundem a defesa de que nenhum ser humano deve ser discriminado pela sua orientação ou preferência sexual (como, aliás, determina a Constituição) com a ideia de que isso transforma alguém num militante LGBTQI+ (não sei se falta alguma letra). Não transforma. É importante perceber que não discriminação não é o mesmo que promoção.

CONGRESSO DO CDS

Com todo o respeito, dedicar atenção ao Congresso do CDS-PP é um pouco como fazer a crónica da minha Assembleia de Condóminos. É tudo gente séria e, seja quem for a presidir, o desfecho acabará por ser o mesmo.

CUNHADOS

“Não se explora a relação familiar ou de amizade de pessoas com suspeitos, acusados ou condenados”. É isto que se lê no Código de Conduta dos jornalistas do Expresso, cuja versão inicial foi redigida pelo meu camarada e amigo José Pedro Castanheira, com a aprovação do director - que nessa altura era eu -, do Conselho de Redacção e ainda com o aplauso de Francisco Pinto Balsemão, que apoiava todas as iniciativas de autorregulação. Naquele tempo, atravessámos uma saga em torno do cunhado de Guterres, acusado de tudo e de mais alguma coisa, um homem cuja designação mediática era, basicamente, 'cunhado de Guterres'. Agora temos o cunhado de Leitão Amaro, sem que se saiba se o ministro tem sequer o mínimo de ligação ao que imputam ao cunhado.

A VÍTIMA

No julgamento - com advogados e tudo - em que José Sócrates processa o Estado por atrasos no processo do seu julgamento, um magistrado do MP afirmou que o senhor José Sócrates foi destruído, em termos de carácter, pela comunicação social. Sugiro, portanto, que a culpa seja mesmo da Comunicação Social. Tal como a falsificação de habilitações, ou a mania de pagar tudo em dinheiro vivo. Pensando melhor, é uma boa solução...

ACUMULAÇÕES

O alvo mais recente é Aguiar-Branco: não apenas porque acumula a pensão (da CPAS) com o salário de Presidente da Assembleia da República (e ganha bem), mas também porque não divulga 31 'cargos' que, ainda assim, constam da declaração de rendimentos. Quanto ao primeiro ponto, o advogado sublinhou que a pensão vem de uma caixa privada (Advogados e Solicitadores) e, por isso, não se enquadra no regime de incompatibilidades aplicável a pensões pagas por organismos do Estado; quanto ao segundo, diz Aguiar-Branco, trata-se de segredo profissional a que os advogados estão obrigados pelo seu estatuto. Sendo assim, a notícia é... não sei bem qual, mas acabarei por descobrir.

FESTIVAL

É inacreditável Israel participar no Festival da Canção (lá estou eu a dizer uma coisa de esquerda - alerta de ironia). Com a mesma curiosidade, não vejo ninguém - tirando uns extremistas do lado oposto - a afirmar que é inacreditável o Irão participar no Campeonato do Mundo de futebol. Talvez fizesse sentido que ambos os extremos aprendessem um provérbio antigo: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Então que raio tem a ver um cantor e compositor (Noam Betan, com 28 anos de idade) com a política de Netanyahu? E que raio têm 11 futebolistas (mais treinadores e técnicos de apoio) a ver com o regime dos Ayatollahs? Quando Portugal estava metido na guerra colonial (outra de esquerda), condenado pela maioria dos países, nunca ninguém se lembrou de excluir Simone de Oliveira, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo ou Ary dos Santos... nem de impedir a selecção de futebol (com Eusébio) de competir internacionalmente. Convém separar o que não está relacionado.

NA CHINA

Trump foi à China e regressou sem grandes trunfos. Está bem: vendeu Boeings e mais umas quantas coisas, e saiu convencido de que Xi Jinping não vai fornecer armas ao Irão. Eu também acho que não vai ser Xi Jinping; alguém o fará por ele. De resto, foi - claro - uma enorme vitória para o Presidente dos EUA, até porque, com este, nem poderia ser de outra maneira.

LARGUEM-ME!

Posso estar enganado (acontece-me muitas vezes), mas o inquilino da Casa Branca vai empurrando com a barriga a decisão de destruir, reduzir a pó, acabar com a civilização, exterminar e dar cabo de Teerão. Há um dito - 'Larguem-me que eu vou-me a ele! Mas ninguém te está a agarrar! Então agarrem-me senão eu mato-o!" - que encaixa bem neste estilo: uma espécie de valentão sem grande coragem.

ENERGIA

A Agência Internacional de Energia recomendou a Portugal um apoio mais decidido à compra de carros eléctricos usados. Não me candidato a isso, porque já tenho (desde 2018 que só tenho carros totalmente eléctricos). Ainda assim, subscrevendo a recomendação - que é melhor para todos, com excepção dos mecânicos automóveis - deixo um pedido adicional: dupliquem o número de carregadores, sobretudo nas estradas e autoestradas. Reconheço que muito foi feito nos últimos oito anos. Mas, em 2018, éramos 'meia-dúzia' a precisar de carregar carros e hoje já são muitos milhares. As vendas de VE cresceram mais depressa do que a oferta disponível.

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