Roubar, no ecrã, como forma de arte
Será o roubo uma espécie de arte? E o talento de sair impune das malhas da justiça depois de um golpe de milhões? Se olharmos para a quantidade de séries e filmes lançados desde que a televisão e o cinema perceberam que o público adora um bom ladrão, a resposta parece óbvia: sim. Pelo menos, dá lucro - sobretudo numa época de baixo risco criativo, em que a nostalgia costuma vencer a originalidade. “The Killing”, “Heat”, “Prison Break”, a saga “Ocean’s Eleven”: um filão que sempre agradou a todos.
De “La Casa de Papel” (Netflix) a Berlim
Acontece que a série espanhola “La Casa de Papel” (Netflix) pegou nesse género e virou-o do avesso. Encheu-o de adrenalina, de gente atraente, de ação sem descanso e de um subtexto político colocado bem à esquerda, embalado por ‘Bella Ciao’. Em 2017, provou-se que o audiovisual de grande público também podia ter morada na Europa - mais concretamente na Península Ibérica.
Mas já não estamos em 2017. A inteligência artificial instalou-se para ficar. As plataformas de transmissão em contínuo estão num impasse, cautelosas. Perante isso, talvez seja mais seguro apostar em galãs que não comprometem: como Berlim, a figura hipermasculina e hipersexualizada saída do fenómeno “La Casa de Papel”, feita à medida desta vontade de seguir um homem impecavelmente vestido que, com a arte de seduzir a cada frase, pisca o olho a quem o vê do outro lado do ecrã enquanto desenha um plano para roubar artefactos.
Berlim funcionou como um dos protagonistas de “La Casa de Papel” - que agora parece prestes a voltar - e, numa etapa anterior, a narrativa levou-nos até Paris, anos antes, para acompanharmos o seu período mais rentável. Agora, em “Berlim e a Dama de Arminho”, a rota regressa a Espanha, mais precisamente a Sevilha, com um objetivo claro: roubar um quadro de Leonardo da Vinci. Pedro Alonso volta a vestir a pele do lobo charmoso, como seria de esperar. É uma aposta segura, um pouco rígida, mas que nos puxa de volta, como se fôssemos reféns apaixonados pelo próprio raptor. Sim: continua a dar prazer ver ricos enganados.
A personagem flerta com o perigo, desenha golpes com ambição estética e perde-se nas mulheres, mesmo deixando transparecer bissexualidade. Foi um dos rostos mais entusiasmantes da série original - sobretudo por causa do modo como a sua história terminou. Só que, quando um sucesso é grande, o fim raramente é fim. Nestes novos episódios não falta risco, mas Pedro Alonso terá de se superar para aldrabar um duque ibérico - nem que seja apenas para provar o doce sabor da vingança.
Sabemos que Berlim vai mostrar um lado mais humano, que há vida e morte e que, no meio da revolução contra o capitalismo, há sempre espaço para uma ostra ou duas
Por que razão haveríamos de querer ver isto outra vez? Depende do grau de devoção a Berlim - e se já o seguiria até à Casa da Moeda. Sabemos que ele vai revelar uma faceta mais humana; sabemos que há vida e morte; e sabemos também que, no meio da revolução contra o capitalismo, continua a haver sempre lugar para uma ostra ou duas.
De San Sebastián a Marbelha: mafiosos com outro rosto
A história arranca em San Sebastián - “Donostia é o novo Mónaco” - na companhia de Damian Vázquez, outro solitário a preparar-se para roubar caixas de Marbelha. Só que os mafiosos já não são os mesmos: menos dentes de ouro e capangas, mais chinelo no pé com lugar marcado na Casa Branca. “Os milionários estão mais próximos do povo”, diz Berlim. A acidez do comentário é bem-vinda e soa menos artificial do que quase tudo o resto.
Apesar de ser uma prequela relativamente básica nos seus ingredientes narrativos, o elenco não deslumbra. Ainda assim, as mulheres surgem com menos caricatura: chegam, por exemplo, a pegar fogo à roulotte do ex-namorado depois de rumores de traição com a prima.
As séries tornaram-se previsíveis, o mundo está menos disponível para revolucionários de ar alternativo, com vontade de destruir bancos, e mais inclinado para homens brancos de fato branco como Berlim - que se recusa a usar camisolas. Para as plataformas de transmissão em contínuo, assim é mais confortável. Vale-nos, então, o engano dentro do engano, quando uma duquesa de Málaga troca as voltas ao protagonista. Está tudo diferente, até o próprio golpe. Venha de lá esse Da Vinci.
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