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Fase Bravo do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais arranca com dúvidas sobre Black Hawk e bombeiros

Bombeiro com equipamento a segurar mangueira observa helicóptero em zona rural queimada, com camião de bombeiros ao fundo.

Fase Bravo do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais: ponto de situação antes do reforço

Com as exigências dos bombeiros, limitações operacionais associadas aos helicópteros Black Hawk da Força Aérea e uma subida acentuada do número de incêndios rurais e da área ardida já contabilizada, é neste enquadramento que, esta sexta-feira, começa a fase Bravo do Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Rurais.

O arranque do ano tem deixado sinais pouco tranquilizadores. Até 15 de abril, a GNR registou 1665 incêndios rurais, que consumiram 7675 hectares. No mesmo intervalo de 2025, tinham sido apurados 598 incêndios e 3418 hectares de área ardida.

A apreensão cresce, em particular, por causa da carga de combustível acumulada no terreno. “Há cerca de 40 mil hectares de floresta por limpar, sobretudo entre Coimbra e Leiria”, alerta Paulo Fernandes, investigador especializado em incêndios da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro. Sem cair em dramatismos, deixa ainda o aviso: “Praticamente só os caminhos foram limpos. O grande problema continua a estar nas ignições que precisam de ser diminuídas.”

A informação disponível aponta para que cerca de dois terços dos incêndios deste ano resultem de utilização negligente do fogo, sobretudo em queimas e queimadas que se descontrolam. Desde o início do ano, a GNR deteve 75 pessoas em flagrante delito por suspeitas relacionadas com fogo posto. Para Paulo Fernandes, “é fundamental que a primeira intervenção seja musculada, para evitar a propagação dos incêndios ou reativações”.

Black Hawk estão prontos?

A poucos dias do reforço do dispositivo, acumulam-se também interrogações operacionais sobre os novos helicópteros Black Hawk da Força Aérea, que vão ser usados pela primeira vez no combate direto aos incêndios rurais. À margem de um exercício em Viseu, Mário Silvestre, comandante nacional da Proteção Civil, admitiu “dificuldades na manobra de recolha de água” por parte dos helicópteros, equipados com depósitos capazes de largar cerca de 2950 litros.

Ao Expresso, o coronel Abel Oliveira, porta-voz da Força Aérea, desvaloriza o impacto dessas limitações. “Estamos num processo de treino exigente, mas saberemos cumprir a missão com padrões de segurança e eficiência”, garante.

No total, estão previstos 33 meios aéreos, embora persistam constrangimentos na base aérea de Vale de Cambra, que deveria entrar em funcionamento. A Autoridade Nacional da Aviação Civil não respondeu às questões do Expresso sobre esta infraestrutura, uma das 24 que, esta sexta-feira, deverão iniciar operações.

Governo e GNR já alertaram para a possibilidade de 2026 vir a ser “um ano muito difícil”

A fase Bravo avança com 21 helicópteros e 12 aviões que, de acordo com a diretiva operacional consultada pelo Expresso, deverão ser mobilizados até dois minutos depois do alerta. No terreno, estarão igualmente 2599 viaturas, integradas na constelação de unidades da Proteção Civil.

Bombeiros com pouca motivação

O ano de 2026 tem decorrido sob forte tensão social e negocial no sector da proteção civil. Bombeiros sapadores e voluntários mantêm um calendário de protestos focado na revisão de carreiras, salários e condições de trabalho.

“Há muita preocupação e bastante desmotivação nos quartéis”, reconhece João Marques, presidente da Associação Nacional de Bombeiros Voluntários, entidade representativa das corporações, que asseguram 8532 dos 11.955 operacionais mobilizados nesta fase.

Nas últimas semanas, o ambiente no sector voltou a deteriorar-se. “Dentro dos quartéis há desânimo e muitos problemas por resolver, mas os bombeiros têm cumprido o seu papel”, frisa João Marques. As conversações entre sindicatos, associações de bombeiros e o Ministério da Administração Interna - que não respondeu às perguntas do Expresso - retomam na próxima semana, apesar de deverem ter ficado concluídas em abril. Em paralelo, continuam em cima da mesa as dificuldades financeiras das corporações, pressionadas pela subida dos custos com combustível, equipamentos e manutenção.

O Governo aponta limitações orçamentais, mas sindicatos e associações avisam para o risco de abandono da profissão, numa altura em que o país se prepara para um verão que pode ser severo no combate a incêndios.

Ataque inicial e novas ferramentas operacionais

A diretiva operacional deste ano volta a insistir que o ataque inicial é determinante. “Os primeiros 90 minutos são considerados críticos para controlar os incêndios antes de ganharem dimensão”, refere o documento, que acrescenta que “o sucesso mede-se pela resolução do incêndio dentro desse período”.

O plano contempla o reforço de instrumentos tecnológicos e de procedimentos no terreno, incluindo análise de risco suportada por dados meteorológicos e pelo comportamento do fogo, utilização de drones e preparação antecipada de operações noturnas.

Do lado meteorológico, os cenários continuam a deixar margem para incerteza. Mário Marques, climatologista especializado em previsões de longo prazo, antecipa “um verão tropical, mas sem calor extremo persistente, com oscilações capazes de trazer precipitação e trovoadas”. Ainda assim, tanto o MAI como a GNR já alertaram para a possibilidade de 2026 vir a ser “um ano muito difícil” no combate aos incêndios rurais.

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