O historiador Andrew Lownie habituou-se a pôr em causa os alicerces da monarquia britânica a cada novo livro. O mais recente - “Privilegiados: A Ascensão e Queda da Casa de York”, lançado no verão passado - foi bem mais do que um abalo: teve impacto de terramoto. Ajudou a acelerar o colapso do que ainda sobrava das reputações do antigo príncipe André e da ex-mulher, Sarah Ferguson.
“André é um mentiroso compulsivo. Arrogante. Estúpido. Desinteressado. Obcecado por sexo. E ela é obcecada por dinheiro”, atira Lownie, sentado numa pequena divisão da sua casa em Westminster, no centro de Londres. À volta, caixas de arquivo e dezenas de livros empilham-se em montes instáveis.
Além de escritor, é também um dos agentes literários mais disputados da capital britânica. Com 64 anos, formou-se em Cambridge e doutorou-se em Edimburgo. Em 2019, em “Os Mountbatten: As Suas Vidas e Amores”, expôs a predileção doentia do lorde Mountbatten (tio-avô do rei Carlos III e último vice-rei da Índia) por rapazes. O livro seguinte, “O Rei Traidor - O escandaloso exílio do duque e da duquesa de Windsor” (publicado em Portugal pela Casa das Letras, em 2023), detalhou as simpatias nazis do ex-rei Eduardo VIII.
“De certa forma, todos os meus livros foram sobre o modo como a classe dirigente tentou sempre encobrir o mau comportamento de certas figuras desonestas e vigaristas”, afirma.
Ao longo das 456 páginas de “Privilegiados”, Lownie descreve múltiplos episódios de corrupção financeira e as ligações próximas de André e Sarah ao predador sexual Jeffrey Epstein. Em outubro, o rei Carlos III retirou o que ainda restava de títulos, estilos e honrarias do irmão, que passou a ser conhecido apenas como André Mountbatten-Windsor. O ex-príncipe foi também retirado da Royal Lodge, a mansão de 30 divisões onde vivia desde 2004. Por fim, a 19 de fevereiro, André foi detido e interrogado pela polícia durante 11 horas. Há mais de três séculos e meio que um membro sénior da família real britânica não se sentava num banco de esquadra.
“Privilegiados” e o muro de silêncio em torno do príncipe André e Sarah Ferguson
Foi difícil escrever “Privilegiados”? Bateu muitas vezes com o nariz na porta?
Comecei o livro em 2021 e passei quatro anos a analisar tudo o que tinha sido publicado sobre André e Sarah. Fiz uma lista com 3 mil pessoas que queria entrevistar. Procurei-as uma a uma. Só 300 aceitaram falar; e, dessas, apenas metade aceitou fazê-lo com identificação.
Mesmo depois de o livro sair, continuei a insistir junto de quem tinha recusado. Alguns acabaram por mudar de posição. Um exemplo: um embaixador diz agora estar disposto a falar comigo porque viu o que outros embaixadores disseram publicamente sobre André. E também fui contactado por muitas pessoas que eu não conhecia, que quiseram partilhar episódios antigos.
Acha que essas pessoas tinham recebido instruções para não falar?
No caso dos embaixadores, sei que receberam ordens explícitas para não me prestarem declarações. E sei igualmente que Sarah e André pediram aos amigos para não colaborarem no meu livro. Houve muita gente avisada.
Além disso, muito antes da publicação, recebi cartas dos advogados deles com ameaças. Coisas do género: “Estamos atentos ao que está a fazer e vai arrepender-se.” Por isso, o manuscrito foi escrutinado ao pormenor pelos advogados da editora. Foi exasperante: tive de excluir muita matéria porque, em alguns casos, me disseram que não havia sustentação suficiente.
Na primeira edição do livro publicada no Reino Unido, escreve que foi Jeffrey Epstein quem apresentou Melania a Donald Trump. E como, antes disso, Epstein e Melania tiveram uma aventura sexual dentro de um carro. Esse episódio desapareceu das edições britânicas posteriores. Porquê?
Essa história só aparece na primeira edição - cerca de 60 mil exemplares. Curiosamente, muita coisa relacionada com esse episódio foi agora confirmada pelos Arquivos Epstein.
O que aconteceu foi isto: a HarperCollins Publishers - a empresa-mãe, norte-americana - foi pressionada por Trump e, por sua vez, pressionou a subsidiária britânica, a William Collins. Para não correr riscos, acabei também por retirar esse trecho da edição que autopubliquei nos Estados Unidos.
Arquivos Epstein e a versão oficial da morte
Epstein aparentemente enforcou-se na unidade de segurança máxima da cadeia MCC de Nova Iorque, no verão de 2019. Acredita nesta versão oficial sobre o suicídio de Epstein?
O irmão dele, [Mark Epstein], vai publicar algo em breve. O médico patologista Michael Baden analisou o relatório da autópsia e diz que os indícios apontam para homicídio. Eu falei com muita gente e é também essa a minha opinião.
Houve demasiadas coisas estranhas: os guardas que adormeceram, o sistema de videovigilância que falhou precisamente naquele intervalo, e por aí fora. Estamos a falar de uma unidade prisional de segurança máxima.
Outro recluso dessa cadeia deu uma entrevista em que disse que o suicídio por enforcamento é, na prática, impossível, porque não existe altura suficiente nas celas. E Epstein não tinha qualquer laço à volta do pescoço quando foi encontrado - várias testemunhas dizem-no. O mais curioso é que, apesar de tudo, nada aconteceu ao diretor da prisão depois de um episódio que, à partida, seria profundamente embaraçoso.
Os Arquivos Epstein continuam a surpreender. Ainda vamos ter grandes revelações no futuro?
Sem dúvida. Há milhões de páginas por aparecer, porque ele guardava claramente tudo. Existem ainda depoimentos legais que podem vir a ser tornados públicos pela primeira vez. Vítimas de quem nunca ouvimos falar podem surgir com novos testemunhos.
Há material que nunca chegou ao Departamento de Justiça dos EUA. E depois existe toda a documentação que foi editada e censurada por esse departamento e que, talvez, possa ser divulgada na íntegra no futuro.
“A monarquia britânica sobreviverá se fizer algumas reformas. Têm de adaptar a instituição a um estilo menos secreto, mais europeu”
A monarquia britânica, o rei Carlos III e o caso de André
O antigo embaixador britânico em Washington D.C., Peter Mandelson, amigo e parceiro de Epstein, foi demitido do cargo na sequência da publicação de vários documentos dos Arquivos Epstein. Qual a ligação dele com André?
Mandelson é acusado de ter transmitido muita informação confidencial - sobretudo informação comercial sensível - a Epstein e a outros parceiros de negócio em vários países. Está a ser investigado e, em breve, será - penso eu - acusado de falta grave e conduta imprópria no exercício de cargo público.
Essa mesma acusação devia recair sobre André, porque fez exatamente o mesmo. Por isso, há grande expectativa sobre o que acontecerá com Mandelson, para se perceber se existe uma lei para a realeza e outra para todos os restantes.
Qual é a pena para esse tipo de crime?
A moldura máxima para o crime de conduta imprópria grave no exercício de cargo público é a prisão perpétua. Pessoas que cometeram atos muito menos graves do que estes dois - [Mandelson e André] - acabaram na cadeia.
Acho que há um sentimento público muito forte de que tem de haver justiça e de que estes homens devem ser obrigados a responder. Mas, por enquanto, ninguém parece querer levar por diante a investigação a uma figura da realeza que, na minha opinião, cometeu uma série de crimes financeiros e esteve envolvida em tráfico sexual.
Acha que a monarquia britânica - uma das mais antigas do mundo - está em risco? Os seus netos vão viver neste país como súbditos de um futuro rei Jorge?
É uma pergunta interessante. Há pouco tempo conversei com David Davies, que durante muitos anos chefiou os serviços especiais de proteção policial da rainha Isabel II e de outros membros da família real. E chegámos os dois à conclusão de que a monarquia pode, de facto, não aguentar isto.
Sente-se que o rei Carlos sabia o que se passava e que preferiu encobrir os crimes do irmão. Se isso se confirmar, estaríamos perante um caso grave de perturbação do curso da justiça. Ele teria de abdicar e William passaria a rei.
Nesse caso não seria o fim da monarquia.
Mas e se concluirmos que William também está comprometido? Ou que a instituição, no seu todo, é corrupta? E será que William quer, sequer, essa função? Há demasiadas incógnitas que podem, sim, conduzir ao fim da monarquia.
No essencial, penso que ela sobreviverá se avançar com reformas. Têm de ajustar a instituição ao século XXI, com um funcionamento mais aberto, menos secreto, mais europeu.
Acha que o rei Carlos estava a par de todas as manigâncias do irmão?
Estou 99% certo de que sabia tudo. E a mãe deles também sabia.
Houve vários casos que, infelizmente, não foram investigados pela polícia, pelo Governo ou pelo próprio palácio. Em 2010, por exemplo, Sarah Ferguson foi filmada pelo tabloide “News of the World” a vender acesso direto a André por 500 mil libras. Não houve consequências.
Noutro processo num tribunal superior, soube-se que, em 2022, os York receberam grandes quantias de Selman Turk (um empresário turco radicado em Londres) - cerca de 1,3 milhões - que ficaram sem explicação. Toda a gente ignorou.
Quando os jornalistas tentavam aprofundar, recebiam não só desmentidos como ameaças de ações judiciais. A ABC tinha um programa com Amy Robach sobre as ligações de Virginia Giuffre a André muito antes de o escândalo se tornar público. O palácio conseguiu cancelar o programa depois de ameaçar a ABC com a proibição de acesso aos príncipes de Gales e a outros membros da família. Tudo isto é profundamente perturbador.
Em fevereiro de 2022, André terá pago 12 milhões de libras a Virginia Giuffre num acordo extrajudicial que pôs termo a um processo cível de abuso sexual. E, no entanto, ninguém questionou a Casa Real sobre isto.
Tenho a certeza de que Carlos também ajudou a pagar.
Tantos milhões pagos a alguém que André diz nunca ter encontrado. E por algo que ele diz que nunca fez.
Exatamente. Foi uma soma enorme para não se estragar o jubileu de platina da rainha. Em fevereiro, a BBC fez uma série de perguntas sobre esse pagamento, mas o palácio nem sequer se deu ao trabalho de responder.
O rei, no entanto, foi muito rápido a reagir à detenção do irmão. Isso surpreendeu-o?
Acho que ele foi, em certa medida, obrigado a emitir aquele comunicado, de 19 de fevereiro. Começou a ser apupado na rua. As pessoas gritavam contra ele.
Hoje, a pressão é gigantesca por causa das redes sociais. Eles aprenderam que têm de reagir mais depressa às notícias. Ainda assim, o comunicado foi curto demais: basicamente limita-se a dizer que vão cooperar e que dão “apoio pleno e absoluto” à investigação policial.
É curioso como tudo muda em poucos meses. Eu tenho uma carta da polícia, de dezembro passado, enviada aos serviços especiais de proteção da família real, a relembrar os deveres de confidencialidade e a proibição de falar.
O que achou daquela detenção do antigo príncipe?
Foi uma jogada inteligente, porque a investigação pode arrastar-se durante anos. E, entretanto, fica tudo sujeito a segredo de justiça. Nada pode ser perguntado. Quando se quer encerrar uma história, esta é uma maneira simples de o fazer: fica controlada e, com o tempo, esquecida.
Acha que André vai alguma vez ser acusado de alguma coisa?
Olhei para a detenção com algum cinismo. Acho que não haverá acusação.
O palácio prefere que se fale apenas dos escândalos sexuais e que todo o resto caia no esquecimento. As revelações financeiras fariam danos muito maiores à instituição - e, além disso, seriam mais fáceis de investigar.
Já no campo dos abusos sexuais, a investigação é muito mais complexa: a polícia tem de identificar as mulheres, localizá-las, convencê-las a falar, demonstrar que foram traficadas para André e não para outra pessoa, e por aí adiante. No fim, a família real pode sempre alegar que não sabia de nada.
Nunca veremos André, então, num banco de tribunal?
Será difícil não encontrar matéria para o acusar e levar a tribunal, mas penso que ele nunca lá chegará.
A última coisa que a família real quer é ver a roupa suja discutida em público, sobretudo se outros membros também estiverem implicados. Vão tentar manter a história tapada.
E, no pior cenário, há sempre a hipótese de um amigo acolher André no Médio Oriente. Ele é muito próximo da família reinante do Bahrein, por exemplo - tratam-no como um filho. E o Bahrein não tem tratado de extradição com o Reino Unido. Isso resolveria o problema de vez.
Carlos aparentemente opôs-se à nomeação do irmão, em 2001, para o cargo de representante especial para o Comércio Internacional e Investimento. Ele terá dito que André era “um desastre à espera de acontecer”.
Mas a rainha insistiu para que André ficasse com essa função. E os receios de Carlos confirmaram-se.
Em teoria, André devia usar o poder brando da monarquia britânica para chefiar delegações comerciais e impulsionar o comércio britânico. Em vez disso, aproveitou o cargo para perseguir mulheres, jogar golfe e encher os bolsos.
Chegou a cancelar reuniões porque queria ir para o campo. Deixava homens numa sala VIP à espera enquanto ia falar com raparigas bonitas. A certa altura, as embaixadas britânicas preferiam não o receber.
Ele também optava por hotéis - pagos com dinheiro público - porque assim tinha mais liberdade para passar tempo com prostitutas e para receber empresários duvidosos que os embaixadores, certamente, lhe desaconselhariam. E era profundamente corrupto.
Trabalhou muito com Epstein, mas também com um homem chamado David Rowland. Numa viagem ao Cazaquistão, por exemplo, André recebeu uma comissão de 3,83 milhões de libras por intermediar a entrada no país da maior empresa grega de águas, que queria investir ali. Foi André quem lhes abriu as portas.
Mas André permanece, entretanto, no oitavo posto da linha de sucessão ao trono do Reino Unido. O Parlamento deveria afastá-lo definitivamente dessa lista?
Seria apenas um gesto político, simbólico. Inútil e irrelevante. Para quê gastar tempo com isso? Ele nunca será rei.
O essencial é exigir responsabilização à família real. E que se faça justiça relativamente às vítimas de André.
“Epstein pagava as dívidas de Sarah, e em troca André passava-lhe informação confidencial diplomática, militar, comercial”
As princesas, as finanças e as ligações internacionais
As filhas de André e Sarah têm mantido um perfil muito discreto nos últimos tempos. Uma delas, Eugenie, tem casa em Portugal.
Foram aconselhadas a manter-se longe das passadeiras vermelhas. Ainda assim, foram vistas na rua, ou em férias de esqui. A Eugenie esteve em Doha há poucas semanas.
Muita gente começou a escrutinar as finanças das princesas. André e Sarah tinham uma agenda de contactos muito extensa e abriram-lhes muitas portas pelo mundo fora. Mas as perguntas multiplicam-se.
As princesas estão mais ligadas ao escândalo do que parece. Beatrice continua a promover os seus negócios privados apoiando-se no título de “sua alteza real princesa Beatrice”, o que considero errado.
A organização The Anti-Slavery Collective, da princesa Eugenie, angariou grandes somas e paga salários muito elevados. Mas, quando tentamos perceber o que a instituição faz na prática, não encontramos nada. Não financiam ninguém - com exceção de uma pequena doação à Sarah’s Trust, a instituição de caridade da mãe (entretanto encerrada).
Tenho a impressão de que estas organizações serviam sobretudo como oportunidade para angariar dinheiro e circular com celebridades. Elas gostavam disso. Dava boa imagem. E as festas eram boas.
Sarah Ferguson, a antiga duquesa de York, aparentemente quebrou todos os laços com Epstein em março de 2011. Mas não terá sido bem assim.
Não. Pelo menos até ao verão e outono de 2014, ela passou vários dias em residências de Epstein.
Os e-mails revelados nos arquivos mostram contactos frequentes: pedidos de dinheiro, pedidos de aconselhamento financeiro. Sarah escrevia livros infantis e era patrona de várias instituições de caridade, incluindo uma que apoiava mulheres vítimas de tráfico. E, ainda assim, manteve contacto com um predador sexual, condenado e inscrito no registo nacional de delinquentes sexuais.
Havia uma espécie de troca. Epstein pagava as dívidas de Sarah, que chegaram a atingir os 5 milhões de libras. E, em contrapartida, André fornecia a Epstein informação confidencial - diplomática, militar e comercial (incluindo “informação privilegiada” sobre bancos) - a que teve acesso como enviado comercial.
Isto é um ato ilícito gravíssimo. Os e-mails são claros e não deixam margem para dúvidas. O meu livro saiu no verão passado e já continha muitos destes dados, mas ninguém lhes ligou. Há meses que peço investigações sérias sobre isto.
Sabe se Epstein usou essa informação privilegiada em negócios? Ele lucrou com essa informação?
Muito provavelmente. É difícil seguir o rasto.
Mas era assim que Jeffrey Epstein operava: negociava informação e material comprometedor de pessoas a quem fornecia coisas como segredos ou sexo com mulheres muito jovens. A relação com André dava-lhe respeitabilidade e acesso a figuras importantes que se cruzavam com André quando este era enviado comercial. Além do mais, André abriu-lhe portas dentro da família real.
Diz que Epstein tinha muitas ligações com os serviços secretos da Rússia, de Israel e até da Arábia Saudita. Tem provas concretas dessa ligação?
Já lhe mostro. (Levanta-se e vai buscar um documento noutra sala.) Leia este documento do FBI. É muito recente: tem data de 26 de janeiro passado.
Posso fotografar?
Não. Pode ler, rapidamente. Pode citar a existência do documento. Tenho de proteger as fontes.
Mas nesse documento, uma fonte do FBI, com o nome de código Raven (corvo), descreve ligações de Epstein com a Rússia e a China. Parece evidente que Epstein era, há muito, um caso bem-sucedido de infiltração por serviços secretos russos, usando redes sexuais e esquemas de branqueamento de capitais.
Corrupção, segurança nacional e o “efeito Watergate”
Disse anteriormente que a família real prefere que se fale apenas de André relativamente ao escândalo sexual. Porquê?
Porque há outros escândalos ainda mais sérios.
O meu livro incide sobretudo na corrupção financeira no centro da família real, com ilegalidades cometidas por uma figura de peso: André, filho e irmão de monarcas. E eu escrevo que essas ilegalidades contaram com a cumplicidade de membros seniores, como a rainha e - provavelmente - o atual rei, que escolheram ignorar.
Isto é enorme. E há ainda um escândalo de segurança nacional: tudo indica que os serviços secretos da Rússia e da China exploraram vulnerabilidades da família real para entrar na classe dirigente britânica. Isso foi facilitado pela ganância sem limites morais de figuras como André e Sarah e pela ausência de fiscalização às atividades da realeza.
Tem provas dessa penetração?
Vimos, por exemplo, o empresário de Hong Kong Johnny Hon pagar todos os anos somas muito elevadas a Sarah Ferguson. Ninguém percebe bem porquê.
Ou Yang Tengbo, o suposto espião chinês a quem o MI5 (serviço de informações interno britânico) proibiu a entrada no Reino Unido. Durante anos, Tengbo foi um parceiro de negócios muito próximo de André.
O professor Tim Reilly, da Universidade de Cambridge, revelou que os russos obtiveram material comprometedor sobre André. Os exemplos não acabam.
André ocupava uma posição sensível, lidava com segredos comerciais e até com matérias de defesa nacional. Era um funcionário público, pago com os nossos impostos para promover o comércio britânico. Mas também era membro da família real e, por isso, devia ter uma conduta exemplar.
A família real devia ser um exemplo em serviço público e boas ações. Em vez disso, ele preocupava-se apenas em enriquecer, a ele e aos seus parceiros. Partilhou segredos - e isso é um crime muito grave.
Por que razão não foi investigado antes?
Porque foi tudo abafado: pela polícia, pelo Governo e pela família real. No meu livro descrevo estes crimes. Entreguei todo o material à polícia, mas, como já lhe disse, não demonstraram interesse.
A única pessoa presa continua a ser Ghislaine Maxwell, antiga namorada, parceira, cúmplice de Epstein. Acha que Donald Trump vai conceder-lhe um indulto presidencial?
Ela sabe muito, mas quer claramente sair da prisão e, por isso, não tem falado abertamente. Conhece todos os segredos e tem sido extremamente cautelosa.
Disse que Trump não aparece nos Arquivos Epstein, embora as provas apontem para o contrário. Seria chocante se Trump a libertasse, tendo em conta o que hoje sabemos sobre o envolvimento dela no tráfico de jovens.
Não percebo como não foi chamada a depor no Reino Unido. Se existir mesmo uma investigação sobre André, ela é uma testemunha-chave, indispensável.
“A rainha sabia de tudo e atuou como cortina de fumo para os crimes de André. Bloqueou qualquer ação que pudesse afetar o filho favorito”
O que acha que lhe vai acontecer?
Tenho a sensação de que ela vai simplesmente desaparecer do mapa. Será levada depressa para um país estrangeiro e nunca mais voltaremos a saber dela.
Mas o cenário mais provável é que Trump lhe conceda um indulto no final do mandato.
Tem sido uma das pessoas que mais apelam à transparência e à prestação de contas por parte da família real. Mas não acha que algum secretismo, mistério e discrição fazem parte da magia e charme da monarquia britânica?
A monarquia tem um poder brando que pode ser muito útil - e isso é positivo. Mas esse poder brando assenta na autoridade moral.
E, quando se percebe que andam a encher os bolsos, essa autoridade moral enfraquece drasticamente. Se existisse transparência, não teríamos estes escândalos sexuais, financeiros ou de espionagem, porque teria havido mais supervisão.
Esta cultura de secretismo e de deferência excessiva; este círculo restrito que não partilha informação; a sensação de que quem manda acha que tudo lhe é permitido e que não tem de dar satisfações - tudo isto nasce da falta de escrutínio rigoroso e de responsabilização.
Se a rainha Isabel II ainda fosse viva tudo seria diferente?
Ela era pior. Tudo isto aconteceu durante a vida dela. Ela sabia de tudo, porque tinha informadores muito bons dentro do palácio, e serviu de cortina de fumo para os crimes de André. Criou entraves ou bloqueou diretamente qualquer iniciativa que pudesse afetar o filho favorito.
O público britânico está verdadeiramente chocado e zangado com estas revelações. As críticas hoje são mais abertas. Em fevereiro, numa sessão parlamentar, os deputados atacaram André com uma dureza sem precedentes.
Isso aconteceu porque ele deixou de ser oficialmente membro da família real. O regimento parlamentar continua a proibir qualquer discussão ou crítica ao monarca ou a membros da família real.
E isso é totalmente ridículo, não acha?
Mas as sondagens mais recentes continuam a demonstrar que uma maioria de britânicos (64%, segundo a YouGov) defende a manutenção da monarquia.
Sim, os restantes membros continuam a ser populares. Mas repare nas respostas dos jovens entre os 16-34 anos: a esmagadora maioria prefere abolir a monarquia.
Carlos tem pouco tempo. Tenho pena, porque acho que ele é um homem bom.
Acha que ele deveria abdicar?
Será, provavelmente, a única forma de salvar a monarquia e ultrapassar esta crise. Devia entregar o trono para que William tente a reforma de que a Coroa tanto precisa.
William terá uma última oportunidade. Quando for rei, não poderá cometer erros. Para já é popular, mas é vulnerável em vários pontos - sobretudo nas despesas enormes e na falta de transparência. Não sabemos que impostos são pagos pelo ducado da Cornualha.
Nas últimas décadas tivemos divórcios reais, mortes trágicas, a saída de Meghan e Harry, irmãos que não se falam. Mas será que a monarquia britânica atravessa, agora, a maior crise da sua história recente?
Sem dúvida. É uma espécie de Watergate.
E não é apenas a família real: todo o sistema é bastante corrupto. De certa forma, foram desmascarados. E as ramificações destes escândalos vão ser enormes. Vamos continuar a falar disto durante anos e anos.
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