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Madalena Aragão entre Paris e Lisboa: João Neves, saúde mental, redes sociais e o sonho do Oscar

Jovem com cabelo ondulado segura telemóvel e papéis numa varanda com vista para telhados ao pôr do sol.

Em criança, já comandava os teatros improvisados em casa e, na cabeça, não havia um caminho possível que não passasse por aí. Aos dez anos, entrou para o ecrã e, desde então, ficou: telenovelas, filmes, séries - dos projetos nacionais às plataformas, da Netflix à Disney+. Vista como uma das grandes promessas da sua geração, somou distinções cedo: um prémio no Festival de Cannes, um Globo de Ouro e um lugar na lista da Forbes. Aos 20 anos, reparte a vida entre Paris e Lisboa, está a aprender francês e equaciona uma carreira internacional, sem abdicar de Portugal. Pelo meio, fala do amor, de João Neves, de saúde mental e da força (para o bem e para o mal) das redes sociais. E, sim, continua a ser sonhadora - quem sabe se um dia não chega mesmo a um Oscar.

O céu está pesado e cinzento quando Madalena aparece à porta do Cinema Nimas, em Lisboa - a mesma sala onde, há semanas, veio com a família inteira ver a estreia de "O Barqueiro". Nos últimos tempos, tem estado mais por cá: está a gravar uma série para a RTP. Se não estivesse em trabalho, estaria em Paris, com o namorado, João Neves, futebolista do Paris Saint-Germain. Vive neste vaivém constante, a tentar, como diz, "fazer o exercício de andar com as horas para a frente e para trás". Por lá, também a esperam Bala e Bonnie, os cães que, há dias, lhe sujaram "uns ténis novos". A meio da conversa, conta ainda que joga teqball com João - "é tipo pingue-pongue, mas com os pés" - e que, juntos, já viram a última temporada de "Rabo de Peixe".

A rapariga que cresceu sob holofotes está hoje numa outra fase. Nota-se na forma como se coloca: quer ser tratada com seriedade e não ficar presa, para sempre, à ideia de "catraia" - à imagem das saias e tops coloridos de que agora se envergonha. Ainda hesita antes de soltar "asneiras" numa entrevista, mas sente-se adulta e quer que o mundo a veja como tal.

Madalena Aragão: começar cedo e ganhar disciplina

Foi aqui, no Cinema Nimas, que estreou "O Barqueiro".
Sim, e fazer parte deste filme foi um enorme privilégio. Para mim, foi um desafio mesmo muito, muito grande. O Simão [Cayatte], o realizador, pediu-me que tocasse seis minutos de uma peça de Beethoven ao piano. Fiquei a pensar que aquilo ia ser a minha sentença de morte: que não ia conseguir acabar o filme, que ia desmaiar em cima do piano.

E conseguiu.
Consegui, sim - e com a ajuda do Francisco Simões, que me deu aulas de piano. Foi duríssimo, mas, ao mesmo tempo, trouxe-me imenso.

Disse que é muito observadora quando constrói personagens. Sempre foi assim?
Gosto mesmo de observar as pessoas e reparar no que fazem em certos momentos. Em miúda, já era muito atenta e também muito sonhadora. Só mais tarde é que percebi que isso podia ser uma ferramenta útil, tanto profissionalmente como a nível pessoal - e que podia ser ótimo para dar corpo a uma personagem.

Em criança, gostava de brincar ao faz de conta, mascarar-se e montar peças.
Sim. Não consigo apontar o momento exato em que comecei a querer ser atriz, porque sinto que isto esteve sempre cá. A minha mãe conta-me que eu queria entrar nos teatros de Natal que as minhas irmãs faziam e que insistia em ser a estrela, o menino Jesus. Depois, quando as minhas irmãs ficaram "velhas" para isso - teriam uns 16 anos - comecei a querer ser eu a escrever e a tratar de tudo. Acho mesmo que isto nasceu comigo.

Há alguém na família ligado a esta área?
Não, não. As minhas irmãs são médicas e os meus pais trabalham na banca. Não sei bem de onde é que isto veio. A minha avó adorava cantar fado, tinha esse lado mais artístico...

Ela morreu durante a pandemia...
Sim. Até partilhei um vídeo sobre isso. A minha avó faleceu da doença. E morreu sozinha, sem a família. Passámos meses sem a abraçar e ela sem o nosso carinho, sem o nosso toque. Não é fácil - e nunca vai ser. Acho que esta questão não se ultrapassa por completo. Dizem que eu sou parecida com ela. Ela amava cinema e teatro. Em pequena, chegou a entrar em algumas peças. Adorava escrever canções e cantar fado. E cantava tão bem! Tenho tantas, tantas saudades dela.

Mesmo com essa referência artística, os seus pais não viam isto como "talento" a levar muito a sério.
Não. A minha mãe diz que eu não sou atriz, que sou sonhadora. Sempre quis ser tudo na vida: princesa, veterinária, astronauta. Acho que, quando lhes disse que queria ser atriz - quando me virei para a televisão e disse "um dia vou estar lá" - não deram grande importância. Até que uma tia falou à minha mãe de um casting para uma novela e disse que podia ser divertido eu tentar. A minha mãe aceitou, mas avisou-me logo: "mete na cabeça que não vais ficar, vamos só experimentar o que é uma audição". Por acaso, correu bem e fiquei.

Estreou-se aos dez anos, na novela "Rainha das Flores", na SIC. A família juntou-se toda para ver o primeiro episódio?
Não me recordo, mas acredito que sim, porque lá em casa somos assim. Aliás, o meu pai guarda tudo: tem um disco rígido com todos os episódios, todas as entrevistas que já dei, até páginas de revista. Se um dia eu quiser fazer um documentário sobre a minha vida, é pedir ao meu pai. Na altura da primeira novela, lembro-me de ter havido ante-estreia e de os meus pais terem ido comigo. Eu estava mesmo, mesmo feliz.

Depois disso, foi uma novela atrás da outra, sempre com a escola pelo meio. Exigiu muita disciplina.
Sem dúvida. Até acho que tirava melhores notas quando estava a gravar. Quando não estava, pensava: "tenho tempo, estudo amanhã, faço amanhã". E quando estava a gravar, era tudo cronometrado ao minuto. A minha mãe não era rígida, mas apoiava-me imenso e estava muito atenta para eu estudar e ter boas notas. Naquela altura, ninguém - nem eu - via ser atriz como profissão; era algo que eu fazia porque me divertia. Mas a minha mãe queria que, acontecesse o que acontecesse, eu tivesse boas notas. Acabei por continuar neste caminho, e sinto que toda essa logística me deu disciplina desde muito cedo.

Como funcionava essa logística, na prática?
De manhã ia para a escola e depois a TVI ou a SIC iam buscar-me lá. Seguíamos para o estúdio, eu gravava até à hora que fosse e, no fim, levavam-me a casa. Em casa, estudava. Em regra, durante a semana preparava as matérias da escola. Ao sábado fazia trabalhos e, ao domingo, estudava todas as cenas para a novela.

Ao começar tão nova, o que é que se perde da infância?
Se calhar não ia tanto à praia com amigos, mas, como não vivi isso, também não sei exatamente o que perdi. Olhando para trás, percebo que foi uma infância diferente, mas que eu gostei muito de viver. Até por causa da disciplina. Hoje sinto que tenho uma ética de trabalho que considero boa, porque aprendi essa estrutura em pequena. E, sinceramente, não acho que tenha perdido grande coisa: ia brincar ao parque com a minha mãe como qualquer criança, estava com as minhas irmãs, tinha amigos na escola, passava os intervalos com eles. Não sinto que tenha ficado cheia de coisas por fazer. Talvez tenha chorado em algum momento - sempre fui muito dramática - mas sinto que fui muito feliz, até porque também podia fazer aquilo de que gostava.

Na escola, professores e colegas nem sempre gostavam de a ver na televisão. Criou-se uma barreira?
De certa forma, sim. Na minha cabeça, eu era uma pessoa normal: saía da escola e ia gravar; na altura era um hobby, eu só ia fazer aquilo que me dava prazer. Mas lembro-me de situações com professores e colegas - e eu também não tinha muitos amigos nessa fase - que não foram muito agradáveis. E claro, quando um professor sente que uma aluna tem a cabeça noutro sítio, tende a apertar mais.

Não tinha muitos amigos?
Sempre gostei mais de poucos, mas bons. Desde pequena que tenho um grupo muito fechado. Continua a ser assim. Gosto mesmo muito dos amigos que tenho - são os amigos da vida. São poucos, mas são muito, muito bons.

Cresceu em televisão e parte da sua vida foi vivida lá. O seu primeiro beijo aconteceu em cena...
Sim. As minhas memórias eram estar num estúdio a gravar e, naquele dia fatídico, ter de dar um beijinho para a novela - isso fez parte (ri). A minha vida aconteceu, em parte, em televisão.

Isso não lhe roubou vivências pessoais?
Não sinto isso.

Crescer sob os holofotes não tornou mais difícil separar a pessoa da figura pública?
Eu não faço muito essa divisão. Não há a Madalena Aragão e a Madalena persona. Não separo quem sou de quem sou quando há luzes. Acho que sempre foi simples precisamente porque nunca criei essa distinção. Esta, agora, sou eu.

A exposição pública nunca a limitou?
Acho que não me limitou; acho que até me ajudou. A aprender a estar em diferentes contextos. Em casa estás de uma maneira, num espaço público estás de outra - isso é saber estar. E eu também não fui uma adolescente muito rebelde. Eu adoro regras. A minha irmã era a rebelde e hoje é super certinha, mas teve uma fase rebelde. E eu também aprendi com isso: se os pais se chateiam quando a Mafalda faz isto, então eu não vou fazer (ri).

Quando começou, nem sabia quanto é que ganhava. Foi escolha dos seus pais?
Acho que eles quiseram proteger-me da sensação de estar a trabalhar com dez anos, porque isso pode criar pressão. Eu só fazia aquilo de que gostava. Ia feliz para o estúdio gravar. Foi uma decisão deles - e eu também não tinha grande curiosidade. Nunca perguntei aos meus pais quanto é que ganho. Até porque eu nem tinha noção de que era possível ganhar dinheiro ali; não via aquilo como trabalho, via como diversão.

Na adolescência, teve um blogue e um canal do YouTube. Fica envergonhada quando isso vem à conversa...
Claro. Eu tinha 12 anos e não fazia ideia do que era uma pegada digital. Era uma miúda que foi ao YouTube, viu toda a gente a criar canais e quis fazer o mesmo. Já tentei apagar o canal do YouTube sete vezes, mas não me lembro da password. Não sei porquê, não consigo recuperar aquela password. E os dois continuam na internet. Eu gostava de os eliminar - ou, pelo menos, arquivar - para não estarem abertos ao mundo. Queria que existissem só para mim, para eu poder ir lá quando me apetecesse rir de mim própria e das coisas rídiculas que fiz na internet.

Ser atriz era mesmo o sonho - ao ponto de, com 15 anos, dizer que não tinha plano B.
Eu gosto mesmo do que faço - gostava e continuo a gostar. Para mim, nunca fez sentido ter plano B. Era insistir no plano A outra vez.

Ainda assim, entrou em Design de Comunicação. Foi para responder à pressão social?
A minha mãe queria muito que eu fosse para a faculdade. Eu inscrevi-me e disse-lhe: "sabes que nunca vou". E ela sabia. Ainda paguei propinas durante algum tempo e depois acabei por desistir. Felizmente, tenho tido trabalho.

Projetos, castings e saúde mental

Além das novelas, fez cinema, streaming e teatro. É vista como uma das grandes promessas da geração. Como se vive com as expectativas alheias?
Com muito trabalho em psicologia. Houve uma altura, na adolescência, em que eu já não sabia se queria fazer uma novela porque me apetecia ou se avançava porque toda a gente dizia "faz, vai ser bom para ti". Comecei acompanhamento psicológico para perceber, de forma clara, o que é que eu queria.

A terapia tem ajudado?
Sim, há três ou quatro anos. Na verdade, eu acho que toda a gente devia ir ao psicólogo. Há coisas em que eu nem tinha percebido que tinha bloqueios até começar a desfazê-los. Eu não estava perdida; eu só não tinha a certeza se eram as expectativas dos outros a falar mais alto ou se eram as minhas. Na adolescência, isso mistura-se muito e é difícil perceber o que queremos mesmo. Nessa idade, toda a gente se interroga: o que é que quero fazer da vida, para onde é que vou? No meu caso, era: que projetos é que eu quero fazer e quais é que eu não quero. Era perceber o que é que eu, Madalena - tirando o que os outros esperam e o que os outros querem - tinha vontade de fazer naquele momento.

Ainda nas expectativas: em 2023, a Forbes incluiu-a numa lista 30 Under 30, na primeira edição em Portugal.
Na altura, eu nem tive bem a noção do que era. Foi tudo um bocadinho avassalador. Hoje olho para trás e penso: "o que é que aconteceu desde que tinha dez anos?" Senti síndrome de impostor, não vou mentir.

Acontece-lhe com frequência?
Um bocadinho. Acho que toda a gente tem aquele pensamento de "será que me escolheram só por pena?". Todos passamos por isso. Eu também.

E 2023 foi particularmente forte: ganhou um prémio no Festival de Cannes com uma curta para TikTok e foi Globo de Ouro Revelação.
É verdade. Eu tinha uma disciplina na escola, Multimédia, e um dos trabalhos era fazermos uma curta-metragem. Eu tive uma ideia; o meu grupo não achou grande coisa, mas eu consegui convencê-los. Acabámos por filmar com a ajuda de mais pessoas. Era sobre uma rapariga que acredita ter uma relação que, na realidade, não tem. Falava de amores não correspondidos na adolescência e também de saúde mental. Depois publicámos no TikTok para o concurso do Festival de Cannes. Mas eu não estava a acreditar que tínhamos ganho. Para mim, aquilo não parecia real.

Como foi viver esse ano?
Já tive anos melhores, a nível pessoal já tive anos melhores. Profissionalmente, foi um ano muito bom, mas eu nunca quis ser autora. Nunca tive o objetivo de ter ideias de filmes. O que eu queria era ser atriz. Por isso, não foi algo que mudasse muito a minha direção.

Tanto que, pouco depois, foi protagonista no regresso de "Morangos com Açúcar", com uma geração inteira a olhar para si.
Sim, e foi difícil, porque eu não sou dessa geração. Eu era muito pequena quando os Morangos acabaram. Quando começaram, eu ainda nem existia. Então, fui perguntar às minhas irmãs, que apanharam mais essa fase. A minha irmã mais velha era obcecada pelos Morangos. Sabíamos que a pressão era grande. Tínhamos consciência de que íamos fazer algo muito diferente e que podia acontecer que muita gente não aderisse. Ao mesmo tempo, eram dez anos depois - tinha de haver evolução. E acho que o público aderiu.

Viviam todos juntos durante as gravações?
Na terceira temporada gravámos em [Vila Nova de] Milfontes. Ou seja, passávamos a semana inteira em Milfontes e ao fim de semana voltávamos a Lisboa. Ficávamos todos no mesmo hotel, que tinha vários apartamentos. Eu partilhava casa com a Catarina de Carvalho, que é minha irmã para a vida. E, muitas vezes, o Gonçalo Braga ia dormir ao nosso sofá, que é como um irmão. Estávamos sempre juntos: almoços, jantares. Até resgatámos um gato da rua e juntámo-nos para lhe arranjar uma casa.

Depois de uma década de carreira, ainda fica nervosa em audições? No casting para "Rabo de Peixe" achou que tinha corrido mal...
Na minha cabeça, tinha sido péssimo. Eu estava super ansiosa. Enviei a primeira gravação e, na segunda fase, eu estava no Havai. A minha agente ligou-me a dizer que eu ia falar com o Augusto, o realizador e criador da série. Eu nem sabia bem como é que ia dizer que adorava a série e que queria muito entrar naquele universo. Quando chegou o momento da conversa, alguém se esqueceu de me avisar de que eu tinha de fazer a cena - e eu não a preparei. Já tinha passado imenso tempo desde a gravação. Eram seis da manhã no Havai, eu tinha acordado às cinco e, quando o Augusto me diz para fazer a cena, eu pensei que aquele tinha sido o pior casting da minha vida: que ele ia contar a toda a gente que eu era péssima e que nunca mais me iam contratar. Depois voltei para Portugal e a minha agente ligou-me a dizer que eu tinha ficado. Eu achei que ele só podia ter-se enganado. Portanto, sim: para mim, aquele casting correu mesmo muito mal.

E como foi entrar num universo de que era fã?
Eu sei o que são bastidores, mas é diferente quando se trata de uma série que eu adoro e cuja primeira temporada eu já tinha visto. Eu olhava para toda a gente e só pensava: "meu Deus". Lembro-me de estar a ensaiar com a Maria João [Bastos] e, entretanto, chegar o Salvador Martinha. Levantei-me super nervosa e disse: "olá, eu sou a Madalena" - e ele respondeu: "eu sei". Senti que fazia sentido eu estar ali. Toda a gente me recebeu super bem; não senti que estava a entrar a meio, senti braços abertos. Foi mesmo muito giro.

Disse, recentemente, que recebia 500 euros por dia de gravação. Faz falta falar mais sobre valores nesta área?
Acho que sim. É um tema de que se fala pouco e eu defendo que se fale mais. Porque nada é tabelado e, neste meio, é muito difícil percebermos quanto é que devíamos receber por isto ou por aquilo e se estamos a receber o que é justo. Acho importante que não seja só falado, mas também tabelado, para termos noção do que é justo.

Refere muitas vezes que a família a mantém com os pés no chão.
A minha família é muito simples e muito unida. E não há deslumbres - nem sequer há espaço para isso. Acho que eu nunca tive a oportunidade de me deslumbrar no meio disto tudo. Celebramos todas as conquistas uns com os outros. Se eu vou fazer um filme novo, festejamos da mesma maneira que festejamos quando a minha irmã Maria, que é oftalmologista, faz a primeira cirurgia a uma catarata.

Entre Lisboa e Paris com João Neves: redes sociais e futuro

Tem mais de 700 mil seguidores no Instagram, sobretudo raparigas novas. Sente o peso dessa responsabilidade?
Sim, claro. Mais uma vez, tento ser o mais fiel possível a mim própria. Mas existe responsabilidade: nós temos uma voz ativa no mundo e, pelo menos para mim, há a necessidade de estar o mais informada possível para que essa voz seja ativa, mas boa. Porque há muitas vozes ativas que não são boas. Sinto essa obrigação de me manter informada e educada.

Porque o impacto pode ser real na vida de quem a segue.
O lado negativo das redes sociais está super debatido hoje em dia: as pessoas mostram um mundo cor-de-rosa que muitas vezes não existe. E isso cria expectativas nos outros - inclusive em mim, que às vezes vejo pessoas com corpos lindos, caras lindas e vidas incríveis e penso que, se calhar, não é bem assim. Como a comparação é algo inerente ao ser humano, as redes podem ser muito prejudiciais. Ao mesmo tempo, se soubermos usá-las bem, também podem ser muito positivas.

Ainda revê mil vezes uma story depois de publicar?
Às vezes. Se eu publicar um vídeo com a minha sobrinha, fico a ver, porque acho querido. Já não é tanto naquela lógica de "não devia ter publicado". Hoje, quando publico, é porque tenho a certeza.

Já toma conta da sua sobrinha?
Já. A Teresa vai fazer agora dois anos. Acho que ainda não sou suficientemente competente para ficar com ela sozinha, só durante umas horas. Mas claro que tomo conta. Ela ensinou-me o que é o amor verdadeiro. Amo aquela criança desde o dia em que nasceu e nem sei bem como. É um amor muito diferente e muito incondicional.

Está a viver entre Lisboa e Paris. Para quem tem medo de voar, não deve ser fácil andar sempre de avião.
Acho que, no fundo, até é inteligente: vou perdendo o medo - quanto mais voo, menos medo tenho. E, neste momento, seria impossível não estar entre as duas cidades. Tenho a minha família cá: as minhas irmãs, a minha sobrinha, os meus pais, o meu trabalho. E depois tenho os meus cães e o João [Neves] lá. Para mim, não dá para desistir de um dos lados.

Como surgiu essa decisão?
Não foi logo de início que eu disse: "vou viver na TAP agora, vou estar sempre a ir e a voltar". Aconteceu de forma gradual. E eu tive de encontrar estabilidade e equilíbrio nisso. No princípio, pensava: "estou sempre a ir e a vir, parece que não pertenço a lado nenhum". Isso transtornava-me, mas estou a aprender a aceitar que também há beleza em ter o privilégio de poder fazer o que faço.

Como é que organiza as semanas?
Vai-se ajustando. Agora estou a gravar cá uma série; vou recebendo os planos e, se percebo que não tenho ensaio na sexta, posso ir na quinta à noite e ficar lá o fim de semana. Tento ir sempre aos fins de semana - se não der, não deu. A minha relação com o João é muito estável e saudável e conseguimos organizar-nos. E a minha relação com o trabalho também é muito saudável: tenho agentes com muita paciência, que me ajudam a gerir tudo para, outra vez, eu ter o privilégio de estar nos dois sítios e sentir-me presente.

Anda sempre com a vida em malas?
No início, sim, vivia com malas. Agora, já dividi os armários. Tenho mais roupa de verão cá e a de inverno mais lá, porque lá está sempre frio. E agora levo só uma mala pequena. Mas dividir armários tem uma parte muito irritante: quando eu quero mesmo aquele top ou aqueles ténis e eles estão em França. Por isso, quando gosto mesmo muito de uma coisa, compro duas. Tinha umas botas de que gosto imenso e esquecia-me delas constantemente, ora em Portugal ora em França; então comprei outras exatamente iguais. Tenho umas cá e outras lá. E, quando compro t-shirts básicas, compro sempre duas, para ter uma em cada lado.

Já disse que o João Neves é o seu primeiro grande amor.
O João é a melhor pessoa que conheci na vida - é tão bonito por fora como por dentro. E acho que eu só percebi o que era amar alguém quando o conheci. Porque é tudo certo. É tudo muito, muito certo. Não há dúvidas, não há jogos, não há nada: é tudo simples.

É a estabilidade emocional?
É, é, é. E eu estava a precisar bastante.

Estava?
Acho que os adolescentes passam sempre por uma fase de se conhecerem a si e ao mundo, e isso é muito difícil para muita gente. Naquela altura, eu tinha muitas dúvidas e castigava-me muito: com trabalho, com escola, e também a nível pessoal. Quando o João apareceu, foi uma lufada de ar fresco. Também por isso: porque era certo. A primeira vez que olhei para ele, pensei: "vou casar contigo, vou ter filhos contigo, vamos viver a vida toda juntos". O João é a calma, é aquela sensação de que está tudo bem. E isso ajudou-me muito. Eu não estava numa fase boa e ele ajudou-me a sair de lá.

Conheceram-se no Instagram...
Sim. Eu gostava de ter uma história mais romântica. Nós temos muitas histórias românticas depois de nos conhecermos pessoalmente, mas essa fase do Instagram também existiu. Só que hoje em dia isso já é normal. E acho que a nossa relação é a melhor do mundo. Sinto que, se um dia eu tiver Alzheimer e não me lembrar dele, vou voltar a apaixonar-me por ele outra vez até termos 120 anos.

Levava a sua irmã aos primeiros encontros.
Sim. Quando nos estávamos a conhecer, eu ficava sempre um bocado ansiosa. Então levava a minha irmã, para irmos com calma e para não haver aquela pressão de estarmos só os dois. E, claro, também para a minha irmã aprovar.

Precisava dessa aprovação?
Houve uma altura em que eu não ouvia muito a minha família e sinto que isso não me levou a sítios muito bons. Então, comecei a ouvir mais.

Sendo tão novos, como lidam com a exposição pública e com a pressão de serem dos melhores nas vossas áreas?
Falo por mim e por ele: não existe muito essa pressão. Não há uma pressão de termos de fazer tudo bem. Porque as pessoas dão-nos muito amor. Felizmente, gostam bastante de nós, e isso aquece muito o coração. O que tentamos fazer é proteger um bocadinho a nossa privacidade e, ao mesmo tempo, partilhar aquilo com que nos sentimos confortáveis.

Tem uma tatuagem, "1, 2, 3", feita em família. O João usa agora essa simbologia para lhe dedicar golos...
Quando era mais nova, fiz essa tatuagem com a minha família: com a minha mãe e com a minha irmã Mafalda. A minha irmã Maria não quis, porque tinha medo de tatuar. Foi ela que escreveu - é a letra dela. O meu pai fez mais tarde. No fundo, significa "amo-te". Eu não deixava ninguém usar [essa simbologia] até o João aparecer na minha vida. Houve um dia em que estávamos no quintal a pensar em celebrações de golo para ele, mas não chegámos a nenhuma conclusão. Uma semana depois, eu estava num jantar de família quando ele marcou o primeiro golo pelo Paris Saint-Germain. Eu comecei a chorar. A seguir já estava a minha irmã a chorar, a minha mãe a chorar, toda a gente a chorar. Quando olhámos para a televisão, ele celebrou com "1, 2, 3" - e chorámos ainda mais. Foi muito querido. Ele já é parte da família; não fazia sentido não entrar nisso também.

O que é que tem feito por Paris? Já se cruzou com Bradley Cooper...
E com a Gigi Hadid - foi um sonho. Mas, sim, faço imensa coisa. Fazemos turismo. Agora, como ando mais cansada - estou em ensaios intensivos para a série - quando vou lá ao fim de semana, acabamos por ficar mais por casa: passeamos os cães e vamos beber um café perto de casa. Mas também almoçamos, jantamos, vamos a eventos, a semanas da moda. E eu vou aos jogos, claro.

Tem ido a várias Fashion Weeks.
Sim. Eu nem sei bem como é que isto aconteceu, mas estou super contente. Adoro a Fashion Week, divirto-me imenso. E poder viajar para ver moda é mesmo muito giro. É um lado de que eu gosto muito.

Já fala francês?
Un peu, un peu. Eu percebo tudo, mas falar... falo um bocadinho. Estou a ter aulas três vezes por semana, porque quero conseguir pedir um café sem ter de usar o telemóvel e sem falar inglês. Já consigo falar mais ou menos no presente; portanto, só tenho problemas com o agora - o passado e o futuro ficam para outro dia (ri).

Já fez alguns projetos internacionais. Imagina o futuro numa carreira internacional, com passagem por França?
Eu não tenho um plano muito fechado; o que tiver de acontecer, acontece. Também deixo um bocadinho para o destino. Mas sim, existe esse sonho. A partir do momento em que estou lá e vou a semanas da moda, acabo por ter mais contactos e vou tentando, devagar, perceber o que é possível. Só que, sem falar francês, nesta fase, é difícil. Mas eu gosto de não me manter confortável. No momento em que um ator se senta num sofá confortável com o que está a fazer, já foi. Temos de nos manter no desconforto.

Ainda quer ganhar um Oscar?
Com dez anos eu achava que ganhar um Oscar era super fácil e que toda a gente podia ganhar. Mas continuo a querer - temos de sonhar. E, se um dia ganhar um Oscar, eu quero falar em português.

Quer manter sempre um pé em Portugal?
Sempre. Eu amo Portugal. Temos ótimos profissionais aqui. Adoro o clima, as praias. Houve uma fase em que eu não entendia a magia que os turistas diziam que Portugal tinha, mas agora, à medida que vou crescendo, percebo que o nosso país é incrível. Amo estar cá.

"Sou apenas uma miúda com sonhos", essa frase é sua. Ainda se reconhece nela?
Sim. Temos de manter sempre essa criança sonhadora dentro de nós. É muito saudável permitirmo-nos continuar a ser crianças. Eu continuo a ser aquela menina que tem muitos sonhos.

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