O encontro e a história de família
O homem aproximou-se de mim com um sorriso aberto.
- Olá! Quero contar-lhe uma história. Escolhi-a a si para a ouvir. É curta e rápida. Está disponível? Gostava que fosse sua fiel depositária. São só dez minutos.
Eu não só estava disponível como tenho verdadeiro apetite por uma boa história, dita ou escrita. Ser convidada a guardá-la e a passá-la adiante é, ao mesmo tempo, um privilégio e um peso.
Desta vez, o que me surpreendeu foi a simplicidade do enredo - tão recto, tão consistente. Era assim:
- A minha família vem da Marinha Grande. Trabalhavam com o vidro. O meu pai, a certa altura, veio para Lisboa, incluído numa obragem, ou seja, numa equipa de cinco pessoas cuja hierarquia só se alterava quando morria alguém. O meu pai era muito jovem. Teria uns 17 anos. Alugou um quarto numa casa que tinha de se atravessar completamente até alcançar umas escadas com acesso a um jardim sem saída para a rua. O quarto era aí. Quem lho alugou foi uma irmã da sua madrinha, que vivia perto da fábrica. Era casada, mas o marido era um sujeito esquisito que não fazia nada.
Enquanto ele falava, eu ia dando corpo àquele fio narrativo. Saboreava cada detalhe e, dentro da minha cabeça, desenhava a casa inteira, as escadas, o jardim fechado, a obragem de uniforme azul, a fábrica do vidro e o rapaz a regressar exausto do turno. Há uma magia nisto: quando ouvimos uma história, insuflamos vida no que nos é contado. Cada pessoa monta o seu cenário, inventa rostos, cria vozes. E esse trabalho criativo foge sempre ao controlo de quem conta.
A visita da PIDE e o jornal “Avante!”
- O meu pai guardou tudo isto como segredo e só mo contou quando eu já era adulto. Imagine que um dia o meu pai chega tarde do trabalho, que era por turnos, faz o caminho para o quarto, onde está a preparar-se para dormir, quando lhe bate à porta a senhoria, dizendo “estão ali dois polícias que querem falar consigo”. O meu pai mandou-os entrar e rapidamente começaram a procurar algo no seu quarto, como nos filmes. Levantaram o colchão, abriram gavetas, espreitaram debaixo de móveis. Para evitar que aquilo continuasse, o meu pai disse-lhes “eu sei o que os senhores querem, mas queimei-o e tenho testemunhas”. Os pides pararam de imediato. O que eles queriam era o jornal “Avante!”, que alguém tinha enviado para o meu pai a partir da fábrica. Ele não era metido na política, mas deram-lhe um golpe. Felizmente, tinha mesmo queimado o jornal. Não existia. O meu pai nunca soube quem lhe fez isto, mas imaginou alguém da obragem ou talvez o estranho senhorio. Ao longo da conversa que foi tendo com os pides eles embirraram com um quadro do rei inglês, pai de Isabel II, na parede do quarto. Porque é que não o substituía por uma imagem do Presidente do Conselho? O meu pai lá se justificou. O quadro não era dele. Mas lembrou-se de que tinha um espelho redondo, pequeno, que usava para se pentear, cuja face traseira vinha estampada com o rosto de Salazar. Alguém lho dera e servia bem o propósito. Rapidamente o exibiu. Podiam abalar satisfeitos. E assim foi. Se não tivesse o pequeno espelho redondo, teria ido parar à esquadra, e sabe Deus. A vida continuou, mas o meu pai ficou marcado por este incidente para toda a vida. Queria contar-lhe isto como um exemplo da banalidade do mal. A senhora é boa cronista e saberá que destino dar-lhe. Eu acho que esta história deve ser conhecida. Não podemos apagá-la. Confio em si.
Denunciantes do regime e a “banalidade do mal” de Hannah Arendt
Não era, de todo, uma história trágica - não acabava em desgraça - e, ainda assim, não me pareceu representar exactamente a banalidade do mal. Apesar disso, ficou comigo, sobretudo pela maneira como expõe a figura do denunciante do regime. Talvez de todos os regimes.
Trata-se, muitas vezes, de alguém próximo: preguiçoso, como tantos agressores; alguém que não vive nem na miséria nem na abundância, mas encontra prazer em arruinar a vida alheia. Um pequeno deus do mal, da imoralidade e da injustiça.
Não tive tempo de dizer ao senhor sorridente que não encaixo a denúncia - feiíssima - nem o comportamento da polícia política e de costumes na ideia de banalidade do mal. O denunciante sabe que existe imoralidade no seu comportamento, a polícia está ali para desviar possíveis fugas ao regime, porque aquela é a sua profissão e executa-a como um funcionário da EMEL ou da ECALMA, com uma frieza e indiferença defensivas, culposas.
O denunciante sabe que existe imoralidade no seu comportamento, a polícia está ali para desviar possíveis fugas ao regime, porque aquela é a sua profissão e executa-a como um funcionário da EMEL ou da ECALMA
A banalidade do mal - noção introduzida na História e na Sociologia por Hannah Arendt - pertence a outra ordem de coisas. Exige que o mal se torne normal, tão automático como lavar as mãos, aparar a barba e o bigode. Exige que a convivência com o mal o apague do pensamento. É o nível máximo de insensibilidade, porque elimina a distinção entre bem e mal.
E, sim, continua a existir.
Imagino que seja essa a realidade de quem vive no mundo do tráfico de drogas. É uma actividade de grande risco, mas, aos olhos de quem a exerce, reduz-se a um trabalho quotidiano - levantar cedo, aguentar sacrifícios. Uma vida aborrecida.
Foi isto que não cheguei a explicar, cara a cara, ao senhor sorridente.
Muito obrigada pela história. Nunca hesitem em contar-me uma história. O vosso mundo também é o meu.
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