Em outubro de 2023, André Villas-Boas ainda evitava comprometer-se de forma direta sobre uma candidatura à presidência do FC Porto. Porém, havia um assunto em que não deixava margem para cálculos: a inexistência de uma secção de futebol feminino no clube era “um ponto de vergonha”, quando, no seu entender, deveria ser “um ponto de orgulho”, disse ao Expresso.
Nessa altura, e ainda antes de avançar para a sucessão de Pinto da Costa, Villas-Boas traçava também o plano para mudar o cenário. Defendia uma “urgência absoluta” em criar “todos os escalões de formação”. E, ao contrário de uma entrada imediata no topo, a ideia passava por um crescimento faseado, com passos sustentados.
FC Porto no futebol feminino: da promessa à implementação
Depois das eleições de abril de 2024, a nova direção tratou de cumprir rapidamente o que tinha sido anunciado. Na temporada seguinte, o FC Porto entrou oficialmente no futebol feminino, começando na terceira divisão, o escalão mais baixo a nível nacional.
Durante algum tempo, chegou a especular-se que a entrada azul e branca seria feita por via de uma fusão com um clube da I Liga. No entanto, acabou por prevalecer a trajetória gradual - precisamente a via que Villas-Boas apontava como preferível.
O FC Porto garantiu duas subidas em duas épocas, mas o hexacampeão Benfica é favorito
Formação e simbolismo no arranque do projecto
O arranque foi sustentado numa aposta evidente na juventude: o plantel foi composto por um grupo jovem, com dez jogadoras de 18 anos ou menos, e, em paralelo, foram criadas equipas nos escalões etários inferiores.
A estreia pública do projecto ficou igualmente marcada por um forte simbolismo. O jogo de apresentação frente à União de Leiria, a 1 de setembro, levou 31.093 pessoas ao Estádio do Dragão - um número nunca antes registado no futebol feminino em Portugal. Inês Valente, que hoje representa o Leixões e esteve nesse encontro inaugural, lembra o “fascínio”, o “nervosismo bom” e a sensação de ainda não existir “a verdadeira dimensão do que se estava a viver”.
O primeiro encontro
A fechar apenas a sua segunda época de existência, a equipa feminina do FC Porto prepara-se para o maior desafio da sua curta história. No domingo (17h15, RTP1), disputa a final da Taça de Portugal diante do Benfica, recém-coroado hexacampeão nacional.
Do lado da estrutura, tem sido assumida uma postura prudente, evitando dar passos maiores do que a perna. A base do projecto é a formação; e, embora o Olival funcione como “casa” permanente, o grupo de trabalho ainda não é totalmente profissional - algo que só deverá acontecer na próxima temporada. Ainda assim, o peso do clube contrasta com a fragilidade do futebol feminino nacional, o que torna a subida de patamar quase inevitável.
Em 2024/25, na época de estreia no terceiro nível, a equipa foi demolidora: 26 vitórias em 26 encontros, 221 golos marcados e nove golos sofridos. Já nesta campanha, o domínio na II Liga não foi tão pornográfico, mas manteve-se inequívoco, com 18 triunfos em 21 encontros. Chegar à final da Taça revela “capacidade para ser competitiva nas outras competições, mesmo contra equipas de escalões superiores”, observa Inês Valente. Ainda assim, o Benfica surge como favorito, até porque a equipa B das águias conseguiu empatar por duas vezes com o FC Porto na fase de apuramento de campeão.
O valor do scouting
Com um plantel que combina jogadoras com experiência na I Liga (Angelina da Costa, Mariana Azevedo, Cristina Ferreira) e jovens internacionais portuguesas (Maria Ferreira, Maria Negrão, Alice Reto, Lara Perruca), há um traço que distingue o projecto: o peso atribuído à prospeção. Em comparação com Sporting e Benfica, os azuis e brancos têm canalizado mais recursos para o scouting, contando com três pessoas dedicadas a essa função apenas no feminino.
O FC Porto foi, de resto, o único clube português com olheiros presentes no recente Mundial de sub-17, em Marrocos, e no Europeu do mesmo escalão, na Irlanda. A utilidade desse olhar internacional percebe-se no impacto de Lily Briant, Eliza Turner e Cora Brendle, norte-americanas de 23 anos, que assumem relevância no grupo. No mercado de inverno, juntaram-se ainda Laerke Tingleff, internacional jovem dinamarquesa, e Lenka Mazúchová, eslovaca.
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