O Mazda MX-5 ND é a prova de que, mesmo em 2026, ainda há lugar para um carro simples, leve e feito para quem gosta mesmo de conduzir.
Quando o MX-5 ND apareceu em 2015, não veio tentar ganhar a corrida dos números - veio lembrar o que torna um roadster especial. Numa altura em que quase tudo estava a crescer em tamanho, peso e potência, a Mazda fez o caminho inverso: um carro mais pequeno, mais leve e com uma condução focada no essencial.
Esta quarta geração recuperou parte do espírito e da simplicidade dos NA e NB, mas sem abdicar da segurança e da tecnologia que hoje se exige. O resultado foi imediato: elogios da imprensa, prémios e, quase uma década depois, uma procura constante no mercado de usados. No Pisca Pisca encontramos unidades a partir de 17 500 euros, mas, consoante a idade e o estado, os valores podem passar os 30 mil euros.
Apesar da receita minimalista, o MX-5 ND continuou a evoluir ao longo de uma carreira longa - e ainda em curso. Por trás do mesmo desenho geral, há diferenças relevantes entre ND1, ND2 e ND3, as designações usadas para separar as atualizações recebidas.
É precisamente nessas diferenças, nos problemas mais comuns e no que deve verificar antes de comprar um usado que este guia se centra. Aqui o foco é o MX-5 com motor 1.5, já que os 2,0 litros, por causa da nossa fiscalidade, são relativamente raros.
ND1, ND2 e ND3. O que mudou?
O primeiro MX-5 ND, hoje chamado ND1, esteve no mercado entre 2015 e 2018. Trazia o 1.5 Skyactiv-G com 131 cv, caixa manual de seis velocidades e cerca de 1000 kg (sem condutor). Existia também um 2,0 litros com 160 cv e, em 2016, chegou o RF, a versão targa com teto metálico retrátil.
Em 2018 apareceu o ND2, por fora quase indistinguível, mas com melhorias bem mais profundas. A Mazda mexeu no isolamento acústico, suspensão, ergonomia e nos equipamentos de segurança. O grande destaque está no habitáculo: finalmente passou a haver ajuste do volante em profundidade (30 mm), o que melhora bastante a posição de condução. Foi também nesta fase que entraram os faróis LED adaptativos e o Apple CarPlay sem fios.
Nos anos seguintes, as atualizações continuaram, com especial atenção para o sistema KPC (Kinematic Posture Control), introduzido em 2022. Este sistema trava ligeiramente a roda traseira interior em curva para reduzir o rolamento da carroçaria e tornar o comportamento mais preciso. O motor 2,0 litros também foi revisto a fundo, passando de 160 cv para 184 cv às 7000 rpm.
Já o ND3, lançado em 2023 e ainda em comercialização, trouxe um novo sistema de infoentretenimento, mais assistentes à condução, novos faróis LED e pequenas revisões de afinação. A direção elétrica foi recalibrada e o controlo de estabilidade passou a dar mais margem antes de intervir.
Exterior e interior
O Mazda MX-5 ND envelheceu muito bem e, a cada ano que passa, contrasta ainda mais com um mercado dominado pelos SUV - e onde até os carros “pequenos” deixaram de o ser.
A boa notícia é que esta geração já não sofre dos clássicos problemas de corrosão dos antecessores, mas isso não significa relaxar. Existem casos de corrosão superficial nos braços de suspensão, sobretudo em carros usados com frequência junto ao mar. Vale também a pena estar atento a entradas de água causadas por drenos da capota entupidos. Quando não são limpos com regularidade, podem gerar humidade no interior e infiltrações na zona dos bancos.
Em qualquer descapotável, a capota merece atenção extra, porque reparar ou substituir raramente é barato. Nos MX-5 com capota de lona, procure sinais de desgaste ou mesmo perfuração, provocados pelo roçar do tecido nas proteções plásticas dos arcos de segurança.
No interior, a filosofia do modelo percebe-se depressa. É compacto, simples e sem grandes concessões à praticidade. Há pouco espaço para arrumação e o porta-bagagens também não impressiona, mas ao volante isso acaba por perder importância. O infoentretenimento não é o ponto forte, embora o ND3 tenha recebido um sistema novo, alinhado com o de outros Mazda, mais rápido e intuitivo.
Os materiais estão dentro do aceitável para o segmento e idade, ainda que alguns plásticos do túnel central e dos painéis inferiores possam riscar e mostrar desgaste cedo. Em muitos usados também se notam marcas nos reforços laterais dos bancos, sobretudo do lado do condutor.
Altura do MX-5 brilhar
Se a vertente prática do MX-5 sabe a pouco, bastam alguns quilómetros para isso deixar de importar. É um prazer de conduzir - e muito começa no 1.5 Skyactiv-G.
Num mercado cada vez mais tomado por pequenos turbos com respostas artificiais, o quatro cilindros atmosférico da Mazda destaca-se pela linearidade, pela resposta imediata e pela vontade de subir de rotação, até certo ponto. Admito que em altas - acima das 5000 rpm - gostava que tivesse mais fôlego, mas para o dia a dia dificilmente se sente falta.
Os 131 cv (ND1) ou 132 cv (ND2, ND3) não impressionam na ficha técnica, mas com cerca de 1000 kg (capota de lona) na estrada contam uma história bem diferente. O MX-5 nunca viveu de acelerações brutais. Vive da ligação entre condutor, chassis, direção e caixa manual. E a caixa merece capítulo próprio: continua a ser das melhores da indústria, com curso curto, precisa e com sensação mecânica.
O comportamento também merece destaque. A tração traseira, o diferencial bem afinado e o baixo peso fazem com que uma estrada secundária se transforme numa experiência especial, sem precisar de velocidades absurdas.
Os ND1 tinham tendência a adornar mais, mas os ND2 com o sistema KPC passaram a controlar melhor os movimentos da carroçaria. E isso faz com que qualquer viagem seja sempre mais especial do que seria com grande parte dos carros da nossa praça.
Os consumos também ajudam a tornar a compra racional. Em utilização normal é relativamente fácil manter médias nos seis litros. No Spritmonitor, com dados reais, os consumos médios dos MX-5 1.5 ficam nos 6,18 l/100 km.
Mecânica robusta
Historicamente, os MX-5 são conhecidos por serem fiáveis e o ND não foge à regra. Ainda assim, há pontos importantes a confirmar antes de avançar.
Nos ND1 houve relatos de problemas na caixa manual, sobretudo desgaste prematuro de sincronizadores e falhas internas em uso mais agressivo ou em carros que viram pista com frequência. A Mazda fez várias revisões internas na transmissão ao longo dos anos, pelo que os ND2 são, em geral, considerados mais resistentes neste ponto.
Alguns proprietários referem também desgaste precoce da bateria e ruídos parasitas vindos da capota em pisos mais degradados.
A boa notícia é que testes de fiabilidade de várias entidades e a experiência em fóruns especializados apontam para o mesmo padrão: o MX-5 ND tende a envelhecer melhor do que muitos desportivos equivalentes, sobretudo quando é mantido dentro da filosofia para que foi criado. Ou seja, leve, simples e sem modificações excessivas - os MX-5 raramente ficam totalmente originais, mas isso não tem de ser motivo para abandonar um bom negócio.
Quanto tenho de pagar por um Mazda MX-5 1.5 ND?
Os preços do MX-5 ND mantiveram-se surpreendentemente firmes nos últimos anos. A procura continua alta e a oferta não é vasta, em especial em versões 1,5 com caixa manual e histórico conhecido.
Os primeiros ND1 começam, normalmente, nos 18 000 euros, embora unidades com muitos quilómetros por vezes apareçam abaixo desse valor. Já os ND2 tendem a ficar entre os 23 000 e os 28 000 euros, dependendo do estado, quilometragem e equipamento - veja os exemplares disponíveis no Pisca Pisca.
Os ND3 ainda são demasiado recentes para serem verdadeiras oportunidades no mercado de usados, mantendo valores muito próximos dos modelos novos.
Curiosamente, o MX-5 é um dos poucos desportivos modernos que parece aguentar bem a desvalorização, em grande parte porque a indústria deixou de oferecer alternativas realmente semelhantes.
Os custos não são elevados
A manutenção do MX-5 ND é relativamente acessível para um desportivo. O 1.5 Skyactiv-G evita soluções complicadas e os consumíveis não são, em regra, caros.
As revisões periódicas ficam em valores próximos dos de um utilitário e os pneus também ajudam: as medidas comuns (195/50 R16 ou 205/45 R17) tendem a custar menos do que o habitual neste tipo de carro.
Em termos de operações de recolha (recalls), houve campanhas ligadas a módulos eletrónicos, sistemas de assistência à travagem e problemas no mecanismo da capota em alguns mercados. Consulte o relatório da MotorCV para mais detalhes sobre as operações de recolha:
Onde os custos podem escalar é na carroçaria. Alguns painéis exteriores são específicos e relativamente caros, seja pelas formas complexas, seja por serem em alumínio (capô e guarda-lamas dianteiros). Capotas danificadas ou mecanismos elétricos também podem significar despesas elevadas.
Por isso, mais do que procurar poucos quilómetros, costuma compensar escolher um exemplar original, sem alterações e com manutenção bem documentada.
Este seria o MX-5 que escolheríamos
Se tivéssemos de escolher uma versão concreta desta geração do Mazda MX-5, apontávamos para o 1.5 ND2. Mantém o caráter leve e comunicativo, mas beneficia das melhorias que a Mazda foi introduzindo.
A caixa manual mostrou-se mais robusta, o refinamento geral é um pouco superior e há um detalhe pequeno que muda tudo: o volante passou finalmente a ajustar em profundidade. Para condutores mais altos, pode ser o fator decisivo.
Existem muitas versões com diferentes níveis de equipamento - MX-5 com bancos aquecidos costumam ser mais valorizados, por exemplo -, além de edições especiais e limitadas, como as Anniversary, que geram interesse adicional se estiver a olhar para o MX-5 também como um possível investimento.
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