O Algarve destaca-se como a região onde, para quem lá vive e trabalha, comprar casa se torna mais difícil. De forma direta e indireta, o turismo pode estar a contribuir para este cenário.
O Expresso cruzou informação sobre salários e o preço do metro quadrado (m²) por região e fez as contas. No Algarve, com um ganho médio mensal na ordem dos €1320 (o mais baixo do país) e com o segundo m² mais caro a nível nacional (€3139), uma pessoa a comprar sozinha só conseguiria chegar a 57 m² (o valor mais baixo em Portugal, bastante abaixo das duas regiões seguintes, Madeira e Grande Lisboa).
Como se fizeram os cálculos para comprar casa por região
Para obter estes valores, foram usados o ganho médio mensal de 2024 (os dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística), o valor mediano do m² de 2025, uma taxa de esforço de 50% face ao rendimento, uma taxa de juro de 2,81% (dados de março de 2026, os últimos divulgados pelo Banco de Portugal) e um prazo de 30,6 anos (o prazo médio de pagamento da casa em 2024).
A própria simulação parte de um cenário favorável: pressupõe que não há outros empréstimos no momento do pedido (o que permite aplicar uma taxa de esforço de 50%, ainda aceite por alguns bancos) e não inclui seguros nem comissões. Na prática, o resultado pode ser mais baixo.
Essa pressão sente-se no terreno. Gonçalo Horta, que acabou por conseguir comprar casa, descreve um processo “frustrante”, porque os imóveis saíam do mercado quase de imediato. “Ou fazes visita e proposta no dia ou não vale a pena ficar a pensar na casa”, afirma.
A culpa é do turismo?
João Cerejeira, economista, explica ao Expresso que o Algarve foge um pouco ao padrão habitual. Em regra, “há uma relação elevada entre o valor dos salários e o preço das casas” e as zonas com salários mais altos tendem a ser áreas urbanas que geram mais valor, como a Grande Lisboa.
No entanto, embora o Algarve pese muito no Produto Interno Bruto, os salários médios na região mantêm-se baixos. O professor aponta a sazonalidade associada ao turismo como um dos fatores, “e também pelo facto de os salários no sector do turismo serem mais baixos”. Acrescenta ainda que existe muita “informalidade” no sector - isto é, pagamentos “não declarados formalmente”.
No Algarve o preço do m2 é também influenciado pelas zonas de luxo, como a Quinta do Lago
Há, além disso, outro elemento determinante: no Algarve, “a maior parte da habitação não se destina ao alojamento habitual e, assim, a habitação está a concorrer com o turismo”. Uma pesquisa rápida nas redes sociais ilustra o fenómeno, com anúncios de arrendamento sazonal e até casas à venda onde os consultores destacam o potencial de investimento. O próprio Gonçalo Horta, apesar de trabalhar no sector do alojamento local, critica o facto de se terem voltado a facilitar os pedidos de licença após a pandemia.
Convém também notar que o Algarve não é homogéneo e que o preço do m² é fortemente puxado pelas zonas de luxo, sobretudo o Triângulo Dourado - a área da Quinta do Lago, Vale do Lobo e Vilamoura. As freguesias de Almancil e Quarteira, onde se concentram estes empreendimentos, apresentam dos m² mais caros do país (€5223 e €4400, respetivamente). O impacto estende-se ao conjunto da região: os dados indicam que apenas em nove municípios algarvios o preço fica abaixo de €3000 por m².
As limitações da Madeira
Tal como acontece no Algarve, a Madeira ultrapassa a Grande Lisboa, ainda que por uma margem muito pequena, quando se mede a dificuldade de acesso à habitação. Na Madeira, os salários são os segundos mais baixos do país (€1406), e uma pessoa solteira só consegue comprar 76,88 m² (76,89 na Grande Lisboa, apesar de aí o salário médio e o valor do m² serem muito superiores).
Miguel Poisson, presidente executivo da consultora imobiliária Sotheby’s Portugal, considera que na Madeira “existe uma disponibilidade limitada de habitação nova, sobretudo em zonas mais centrais, enquanto que a procura tem aumentado, de forma muito significativa, nos últimos anos”. A isso juntam-se as “limitações geográficas típicas de uma ilha que condicionam, naturalmente, a expansão urbanística” e o facto de o destino se estar a afirmar “como um destino internacional de excelência, não apenas do ponto de vista turístico, mas também residencial”. O resultado, conclui, é um cocktail que coloca “pressão sobre os preços e cria desafios ao nível da acessibilidade à habitação para a população local”.
A habitação no Algarve compete com o turismo e a Madeira vai pelo mesmo caminho
Alentejo e Grande Lisboa: contrastes no acesso à habitação
O Alentejo surge como a região onde o salário médio (€1409) permite comprar mais m². A comparação com a Grande Lisboa (a região com salários mais altos, com uma média de €1935) mostra um contraste expressivo: no Alentejo ganha-se menos 37%, mas consegue-se comprar uma casa 141% maior.
A disparidade aumenta ainda mais quando se confronta o concelho de Lisboa (o mais caro do país, com o preço do m² nos €4875) com Alter do Chão (o mais barato do Alentejo, com o m² nos €432): a diferença pode chegar aos 720%.
Dentro do próprio Alentejo, as diferenças também são marcantes. Não é igual comprar casa em Alter do Chão ou em Grândola (o município mais caro da região, onde se encontra a Comporta, um destino de luxo). Em Alter do Chão, com o salário médio alentejano, seria possível comprar 443 m²; em Grândola, apenas 79 m² - uma variação que pode atingir os 460%.
Raquel Copeto, jovem de Évora, está a procurar casa nessa área e diz que comprar “sozinha é impossível, só mesmo em casal” e, mesmo assim, muitas das opções disponíveis exigem obras e são poucas.
“Se for para uma aldeia até consigo encontrar casa, mas as condições não existem. Hospitais temos de nos deslocar para longe. Não compensa”, afirma. E acrescenta que se perdeu o gosto pela agricultura que existia antes, sobretudo entre os mais novos, que preferem a vida nas cidades.
Mariana Carvalho, de Sintra, admite que gostaria de uma vida “mais calma e sossegada” e com preços mais baixos do que aqueles que enfrenta na cidade, mas garante que, “pondo tudo na balança não sairia de Lisboa”. A única hipótese que considera, por agora, seria mudar-se para os Açores, mas apenas por ter lá família do companheiro.
No Alentejo recebe-se menos 37% que na Grande Lisboa, mas consegue-se comprar uma casa 141% maior
Ainda assim, pretende comprar casa no Continente para manter a possibilidade de visitar a família. Já alargaram a pesquisa aos arredores de Lisboa, que “também estão com os preços bastante altos”, refere. Lisboa, Oeiras e Cascais são os municípios mais caros do país. De acordo com os cálculos do Expresso, alguém com o salário médio da região conseguiria comprar apenas 54 m² na capital; em Sintra (o concelho mais barato da região), já seria possível chegar aos 96 m².
Apesar disso, repete-se a dinâmica de mercado rápido, semelhante ao Algarve, e nem sempre o financiamento acompanha. “Não vale a pena investir muito tempo a procurar porque as casas desaparecem rapidíssimo. Felizmente estamos a trabalhar com bancos que não exigem que tenhamos uma casa já em vista. Estamos à espera do crédito e vamos vendo, mas teremos mais atenção quando o crédito estiver aprovado”, explica Mariana Carvalho. Depois, têm apenas dois meses para manter as condições, porque não quer arriscar “que as taxas de juro subam após a aprovação, o que no contexto geopolítico pode acontecer”.
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