HAMBURGO - KAVALA - NOVA IORQUE
A morte, talvez, apanha-nos quase sempre desprevenidos, como se nos encontrasse de súbito e sem compostura. Por muito que a víssemos aproximar-se, não parecia que tivesse de acontecer já - agora, nesta manhã. Mesmo sabendo que a pessoa de quem gostávamos já não estava verdadeiramente entre nós. Mesmo com todos os sinais clínicos a apontarem nessa direcção. Mesmo com tempos recentes difíceis, que nos obrigavam a ir buscar força aos dias bons e, sobretudo, aos dias muito bons. Às vezes são imagens guardadas há décadas; outras vezes, é apenas uma frase que ficou a ecoar.
Da minha tia Maria do Carmo, o que me volta com frequência são umas palavras que me disse de passagem, como quem entrega coragem a alguém. É possível que a memória as tenha baralhado e recomposto. Ainda assim, regressam quando lhes apetece, sem pedir autorização.
Até 11 de abril de 2027, o Hamburger Kunsthalle, na Alemanha, expõe uma moeda cunhada na antiga cidade grega de Neapolis, a actual Kavala. A peça parece fazer pouco caso da morte, como se lhe mostrasse a língua. Trata-se de um Estáter de prata, cunhado entre 525 e 450 antes de Cristo. Em tempos, foi um objecto de uso. Hoje integra uma vasta exposição dedicada à escultura, com milhares de obras que, além de moedas, reúne trabalhos de artistas como Marina Abramović, Hans Arp, Alberto Giacometti, Mona Hatoum, Käthe Kollwitz, Degas, Matisse, Picasso, Rodin e Constantin Brancusi.
Por volta de 1913, Brancusi realizou a escultura “Danaïde”, inspirando-se num mito grego e na beleza moderna da pintora Margit Pogany (1879-1964). Até 18 de maio, a obra pode ser vista em Nova Iorque, no Rockefeller Center, na Christie’s. Depois disso, irá a leilão e poderá, talvez, alcançar um valor recorde.
Mais preciosa do que qualquer propriedade ou objecto, é a memória que, acima de tudo, nos mantém vivos. Dir-vos-ão que não - por causa da inteligência, da saúde, do amor, da paz... Sim, tudo isso tem peso. Mas sem memória, estamos perdidos: já fomos, e nem damos por isso. Da minha tia, fica-me aquela frase que era para mim, mas que também parecia dirigida a ela própria. E, por causa dessas palavras íntimas, ouço agora - e hei-de ouvir sempre - a voz do meu poeta canadiano preferido, que também era grego, Leonard Cohen: “There is a crack in everything/ That’s how the light gets in”. Em português, podemos guardá-lo assim:
“Há uma falha em tudo/ É por aí que a luz entra”.
Erotismo sobre rodas
COMO
Desde pequenos, repetem-nos a ideia de que a curiosidade matou o gato. E avisam-nos, com ameaça de brincadeira, que ao almoço haverá “Sopa de Línguas de Perguntador”. Só que, quanto mais se tapa, mais apetece espreitar.
Em 1999, o fotógrafo Helmut Newton apresentou um novo automóvel da Volkswagen coberto por um tecido preto acetinado, a evocar lingerie feminina. Havia ali um golpe publicitário, sim, mas o essencial era outra coisa: erotismo em movimento, erotismo sobre rodas.
Ao longo de décadas, Helmut Newton combinou a beleza do corpo humano com a linguagem visual do automóvel em produções de moda. Entre 15 de maio e 30 de junho, essas imagens do fotógrafo de origem alemã estão expostas em Itália, na Villa Olmo, em Como. Em algumas fotografias há ironia e notas de banco. Noutras, o corpo feminino surge sobretudo como objecto - algo posto ao serviço do adorno dos carros e do estímulo ao consumo.
Vê-se também Nicolas Cage a preto e branco, com ar de matador, ao volante de um Lamborghini Miura. E Isabella Rossellini, em pose solene, no banco traseiro de um carro preto. E a princesa Carolina do Mónaco, pouco à vontade, dentro de um Mercedes-Benz 280 SL branco. Há um Alfa Romeo Spider 2.0, um Fiat 1200 vermelho, um Mercedes-Benz 190c. E um Porsche 356 fotografado em Roma, em 1956.
Existe aquilo que a imagem mostra. E existe, ainda mais, aquilo que ela nos obriga a imaginar.
PHOTO MATON
Em 1959, a fotógrafa norte-americana Lillian Bassman fixou assim um mergulho, dando-lhe o título “As Maravilhas da Água”, em inglês. Até 26 de julho, a obra de Bassman está exposta no Met, em Nova Iorque. E os mergulhos ficam onde pudermos - e quisermos - colocá-los, sempre.
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