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Via Verde e Registo para o cancro ginecológico: recomendações do Oncogyn PT

Duas médicas em consulta discutem exames mostrados num tablet num ambiente hospitalar moderno.

A criação de uma Via Verde dedicada ao cancro ginecológico e a implementação de um registo que permita localizar, com rigor, os atrasos ao longo do percurso assistencial estão entre as recomendações avançadas por especialistas, que lembram que tratar a doença numa fase avançada pode ficar até três vezes mais caro.

Recomendações do projeto Oncogyn PT para o cancro ginecológico

As propostas do projeto Oncogyn PT - Diagnóstico, Tratamento e Acesso no Cancro Ginecológico, da Nova Medical School, a apresentar esta quarta-feira, apontam para a centralização dos cuidados em centros de referência acreditados pela Sociedade Europeia de Oncologia Ginecológica (ESGO), de forma a que a sobrevivência das mulheres não dependa da zona do país onde vivem.

Via Verde OncoGyn PT: referenciação, exames e circuitos prioritários

Em declarações à Lusa, Mariana Zagalo, gestora de Projetos da Nova Medical School Scientific Services, explicou que a Via Verde OncoGyn permitiria fazer a estratificação precoce do risco, garantir referenciação prioritária, acelerar o acesso a exames e assegurar uma comunicação estruturada entre médicos de família e hospitais.

A responsável recordou que, apesar de os médicos de Medicina Geral e Familiar já terem hoje mecanismos de referenciação hospitalar, “Embora os médicos de Medicina Geral e Familiar já disponham atualmente de mecanismos de referenciação hospitalar, a ausência de um circuito estruturado, diferenciado e prioritário para oncologia ginecológica faz com que muitas mulheres entrem num percurso assistencial indiferenciado, sujeito a múltiplos tempos de espera administrativos e clínicos”.

Com a Via Verde Oncogyn PT, pretende-se igualmente diminuir recusas administrativas, reduzir duplicação de processos e evitar o “reinício desnecessário de circuitos assistenciais”. Nas palavras de Mariana Zagalo, mais do que atribuir prioridade de forma meramente formal, trata-se de “um modelo integrado de referenciação rápida, alinhado com boas práticas internacionais”.

A especialista considerou ainda essencial reforçar a interoperabilidade dos sistemas de informação, harmonizar os circuitos de diagnóstico entre regiões e aumentar a capacidade instalada em áreas críticas, como Anatomia Patológica, Radiologia e Ginecologia Oncológica.

"Neste contexto, a implementação de uma rede nacional de telediagnóstico em Anatomia Patológica poderá reduzir desigualdades regionais e acelerar a confirmação diagnóstica através da partilha digital de lâminas e da avaliação por subespecialistas", explicou.

O Oncogyn PT propõe também modernizar o acesso à Genética Médica e à "testagem em cascata", permitindo um seguimento estruturado de mulheres com risco hereditário e um acesso atempado, em todo o território nacional, a estratégias de prevenção primária e a vigilância personalizada.

"A evidência internacional demonstra que os melhores resultados em oncologia ginecológica dependem do acesso atempado a equipas diferenciadas, cirurgia especializada e centros com elevado volume assistencial", disse Mariana Zagalo.

A responsável sublinhou que, em Portugal, persistem "assimetrias regionais relevantes" no acesso a Ginecologia Oncológica, cirurgia minimamente invasiva e robótica, ensaios clínicos e capacidade cirúrgica diferenciada.

Segundo acrescentou, é por isso que o código postal "continue a influenciar prognóstico, acesso à inovação e probabilidade de sobrevivência das doentes". Defendeu, por isso, ser determinante "proteger a janela terapêutica" através do aumento da capacidade cirúrgica e da redução de estrangulamentos no bloco operatório, anestesia, imagiologia e anatomia patológica.

Registo Oncológico Interoperável e reforço da literacia em saúde

Mariana Zagalo lembrou também que "os sistemas atualmente existentes não foram concebidos para acompanhar de forma integrada a jornada assistencial completa da doente", apontando outra recomendação central: a criação de um Registo Oncológico Interoperável.

De acordo com a responsável, "Continua a existir uma limitação estrutural na capacidade de identificar com precisão onde ocorrem os principais atrasos ao longo do percurso assistencial". Explicou que muitos indicadores disponíveis “avaliam apenas momentos isolados do processo assistencial”, frequentemente já em contexto hospitalar, sem captar atrasos pré-diagnóstico, repetição de procedimentos, tempos de espera intermédios ou desigualdades regionais no acesso aos cuidados.

Questionada pela Lusa, reconheceu que a falta de recursos humanos especializados é um dos maiores bloqueios estruturais para concretizar as recomendações do Oncogyn PT, uma limitação que considerou "particularmente crítica" em áreas como Medicina Geral e Familiar, Ginecologia Oncológica, Anatomia Patológica, Radiologia e Genética Médica.

Por fim, os especialistas defendem o reforço da literacia em saúde, através de campanhas diferenciadas para o cancro do ovário e do endométrio, e a integração da saúde feminina nos currículos escolares. Entre os temas sugeridos incluem-se a autoconsciência corporal, a saúde pélvica, os ciclos menstruais e o risco ginecológico.

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