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Tempestade “Kristin”: limpeza prossegue em 60 mil hectares na região Centro

Trabalhadores a limpar estrada rural com troncos e motosserra, vistos campos agrícolas e casas ao fundo.

Três meses após a tempestade “Kristin” ter provocado elevados estragos na região Centro - com casas e outras infraestruturas a ruírem e com mais de oito milhões de árvores derrubadas - os trabalhos de remoção e limpeza mantêm-se ao longo de cerca de 60 mil hectares atingidos, incluindo zonas definidas como prioritárias por estarem próximas de áreas habitadas. Até ao momento, foram já desimpedidos mais de 3000 km de caminhos e estradas, num esforço para assegurar condições mínimas de circulação e, ao mesmo tempo, apoiar a resposta a incêndios, apurou o Expresso.

Nos concelhos de Leiria e da Marinha Grande, apontados como os pontos mais críticos, ainda decorrem operações intensivas de desobstrução e a expectativa é que se prolonguem pelos próximos meses. Embora a generalidade das principais vias rodoviárias esteja já limpa, continuam a verificar-se limitações importantes no interior das manchas florestais, com impacto em acessos considerados estratégicos para o combate a incêndios.

Operações de limpeza e desobstrução na região Centro

Em Leiria, foi instalado o Comando Integrado de Prevenção e Operações (CIPO), uma estrutura criada pelo Governo para dar resposta aos efeitos do “comboio” de depressões deste inverno, que atingiu de forma mais severa 68 municípios da região Centro, com 22 classificados como estando na situação mais grave. Coordenado pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC), o CIPO integra entidades como o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), a GNR e as Forças Armadas, contando ainda com o envolvimento dos Ministérios da Administração Interna, do Ambiente, da Agricultura e da Defesa, além da mobilização de autarquias e Juntas de Freguesia.

A sede está em Leiria e é também nesta cidade que, esta sexta-feira, é apresentado o balanço das intervenções no terreno, incluindo o que foi e está a ser feito para reduzir o risco de incêndios, as principais dificuldades detetadas e o que permanece por executar quando falta uma semana para o arranque da chamada “Fase Bravo” do dispositivo especial de combate a incêndios, marcada para 15 de maio. Esta fase traduz-se num reforço de meios humanos e operacionais, com mais equipas no terreno e maior disponibilidade de meios aéreos, assinalando o início do período de maior prontidão perante o risco de incêndio.

As árvores caídas vão secar e “aumentar significativamente a carga combustível”

Recuperação do território e lições para populações e infraestruturas

“Do ponto de vista da proteção civil, continuamos a fazer uma avaliação contínua do que aconteceu, até porque ainda estamos muito empenhados na recuperação do território”, afirma ao Expresso Mário Silvestre, comandante nacional de Emergência e Proteção Civil, realçando que “fenómenos extremos e extremamente complexos, tanto pelo impacto como pela imprevisibilidade - como a ‘Kristin’ - são difíceis de mitigar”. Para este responsável, uma das aprendizagens deixadas por este episódio é clara: “é preciso reforçar a resiliência das populações e das infraestruturas, e isso passa por mudanças ao nível da construção”, apontando como exemplo o reforço dos telhados, a melhoria da fixação das telhas e a proteção de portas e janelas.

Mário Silvestre acrescenta ainda que é necessário “investir muito mais na sensibilização, e é essencial que as pessoas percebam o risco e saibam como agir perante os alertas”, sustentando que este “é um trabalho contínuo de educação e consciencialização”.

Resposta operacional e preparação para a “Fase Bravo”

No balanço da resposta operacional ao fim de 100 dias, o comandante nacional admite que “há oportunidades de melhoria”, mas sublinha que foi possível “responder às necessidades mais urgentes, restabelecer grande parte das vias principais nas primeiras 48 horas e foi feito um esforço para disponibilizar os materiais necessários às populações”.

Risco de incêndio e prioridade em reduzir ignições

Com a época de incêndios a aproximar-se, o comandante nacional mostra-se preocupado com “o risco elevado de incêndio, devido às árvores caídas, que vão secar e aumentar significativamente a carga combustível disponível”. Por essa razão, está a ser dada centralidade à abertura e desimpedimento de acessos, “que é a prioridade, para permitir o acesso das forças de socorro”, mantendo “a proteção de vidas humanas sempre em primeiro lugar”. Admitindo que “não é possível fazer tudo no tempo ideal”, recorda também que “é essencial também a colaboração das populações na prevenção”.

Reduzir o número de ignições é a prioridade” destacada pelo comandante nacional, linha que tem sido igualmente referida por outros responsáveis, incluindo o ministro da Administração Interna, Luís Neves. Em seguida, surge a necessidade de reforçar a gestão de combustíveis junto das habitações e de melhorar a proteção das zonas de interface entre a floresta e as áreas habitadas.

Para já, as ações de limpeza prosseguem no terreno, envolvendo mais de 70 equipas de sapadores florestais e centenas de operacionais de outras entidades. Um dos maiores obstáculos apontados aos trabalhos é a fragmentação da propriedade florestal. Nas áreas mais penalizadas pelo comboio de tempestades, o prazo para a limpeza dos terrenos foi estendido até ao final de junho. Ainda assim, a remoção de madeira implica processos administrativos exigentes, que podem passar pela contratação de empresas especializadas ou pela publicação de editais que permitam a entrada em terrenos privados.

Nas zonas mais atingidas pela “Kristin”, onde a escala dos danos é especialmente significativa, “o número de ignições tem-se mantido relativamente baixo”, segundo fontes ligadas ao ICNF. As autoridades consideram que a experiência recente de perdas elevadas reforçou a vigilância social em torno de comportamentos de risco, como queimadas, num momento em que prevenir novos incêndios é visto como essencial para evitar o agravamento de um cenário já crítico.

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