A passagem mais recente de Yerai Cortés por Portugal foi estranhamente recatada para a dimensão do seu talento - aquele tipo de talento que, noutro contexto, pediria bem mais ruído. Ainda assim, a apresentação no Coliseu Micaelense, na noite de abertura do Tremor, nos Açores, acabou por ser recebida com entusiasmo. Quem ali estava, sobretudo o público mais “moderno”, pareceu captar sem esforço a ambição do guitarrista nascido em Alicante: tirar o flamenco da redoma do purismo e pô-lo a conversar com o presente de uma forma radicalmente renovadora.
Yerai Cortés: tradição flamenca sem vitrines
Essa renovação não passa por soluções fáceis, como batidas eletrónicas ou Auto-Tune nas vozes. O gesto é outro: mexer na própria hierarquia do palco e no modo como a tradição se distribui. Um exemplo claro é o desafio que lança a mulheres bailarinas e marcadoras de palmas, chamando-as a assumir as suas próprias vozes e a ocuparem o centro do espetáculo.
Ao “El País”, Cortés explicou por que razão escolheu esse caminho, mesmo tendo, com o estatuto entretanto conquistado - sobretudo depois de vencer um Prémio Goya com uma canção integrada no documentário também premiado “La Guitarra Flamenca de Yerai Cortés”, realizado pela superestrela C. Tangana -, acesso garantido às vozes mais consagradas do género: “O que eu achava fixe era que elas não cantassem de forma totalmente perfeita, que se notasse a imperfeição, a desordem, que soasse mais a povo, a praça.”
“Guitarra Coral” e as novas vozes em palco
Essa intenção pode ter nascido como provocação, mas o que se viu em Ponta Delgada confirmou uma evolução evidente. O espetáculo “Guitarra Coral”, que funciona como uma síntese entre o material do álbum de estreia - também intitulado “La Guitarra Flamenca de Yerai Cortés” - e o recém-chegado “POPULAR”, mostrou que as marcadoras de palmas Lucia Pedros López, Paula Moreno Outon, Esperanza Macarena Campos Pérez, Salomé Ramírez Almagro, María Fátima Caravé Reyes, Elena Ollero Crespo, Nerea Pérez Domínguez e Marina Perea Medina ganharam exigência e precisão interpretativa. Hoje, com legitimidade plena, podem acrescentar aos seus créditos a palavra cantante.
“POPULAR”: vida exposta, ferida e improviso
A canção que deu a Yerai o Goya, ‘Los Almendros’, contava com a voz de La Tania - figura central do novo flamenco e, então, sua companheira. Esse detalhe é decisivo para compreender “POPULAR”, disco que o próprio músico tem descrito, em entrevistas à imprensa espanhola, como “uma carta para o coração de Tania”, na sequência da infidelidade assumida do guitarrista, tema que a cantante abordou no seu álbum de 2025, “Amoríos: La verdad de mi coplilla”.
A maneira como Cortés transforma matéria biográfica em criação atravessa os dois registos. No primeiro, foi a relação traumática entre os pais que alimentou muito do lado sombrio que a sua música também convoca. Agora, o motor é uma autocrítica funda - porque, embora não cante, é ele quem escreve as letras -, fazendo do arrependimento, do perdão e da reconciliação os pilares emocionais das canções do novo trabalho. Em ‘Roto x Ti’, faixa de encerramento, ouve-se: “Aunque parezca que no me duele tanto/ Eso no quita que tengo el corazón roto por ti”.
Outra influência, igualmente decisiva, foi ao mesmo tempo física e artística. Em 2024, Yerai rompeu um tendão da mão esquerda quando uma taça de vinho se partiu na sua mão - episódio que, pela sua carga quase teatral, parece saído do próprio universo flamenco. Sem poder tocar durante meses, começou a desenhar o disco “com a guitarra na cabeça”, em vez de a ter nas mãos. Essa limitação abriu espaço para uma abordagem menos fechada: as palavras e a vulnerabilidade passaram a ocupar uma área maior, e o seu trabalho tornou-se mais panorâmico - não só centrado na execução e no virtuosismo técnico, mas também no plano afetivo, no arco narrativo que foi construindo e até na forma visual de apresentar a música.
O título, “POPULAR”, ganha assim dois sentidos: aquilo que é reconhecido e aplaudido pelo público e, em simultâneo, o que é autêntico, vindo mesmo do povo. Yerai sente que a sua vida - feita também de falhas, emoções e relações familiares - se tornou pública depois do documentário “La guitarra flamenca de Yerai Cortés”; e, ao mesmo tempo, a sua arte aponta para o folclore, para as ruas e para os bares e tablaos, sem filtros nem concessões. É daí que nasce a ideia trabalhada por Tangana no filme: Yerai consegue ser moderno entre os flamencos e flamenco para os modernos.
Yerai rompeu um tendão da mão com uma taça de vinho. Por isso, imaginou o disco “com a guitarra na cabeça”
Há ainda uma camada na sua música que, curiosamente, a aproxima do jazz. Em conversa com o “El País”, Cortés fala do tempo e do improviso, do silêncio como elemento ativo e da aceitação do erro enquanto marca humana moldada pela experiência; reforça, também, como prefere a verdade do palco - sem rede - ao gesto mais laboratorial do estúdio. E essa franqueza percorre uma obra que o próprio entende como um conjunto de retratos de instantes muito concretos, tal como sucede no jazz.
Isso percebe-se com nitidez no díptico de alegrías “Ni En Los Puertos Italianos” e “Ni En Los cafés Parisinos”, onde soam as palavras, ditas sem artifício: “Ni en los puertos italianos, ni en los cafés parisinos/ Vas a encontrar un querer, más que de este alicantino”. Como é que não se acredita?
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