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Após a tempestade “Kristin”, as casas pré-fabricadas em Leiria e na Marinha Grande acolhem 80 pessoas

Criança a jogar à apanhada às cegas com mulher junto a contentores residenciais brancos num acampamento.

Casas pré-fabricadas em Pousos, Leiria: o provisório que se arrasta

Há um vestido de batizado pendurado na janela. Numa casa minúscula, esse brilho quase destoa do dia a dia, que ali se encaixa por esforço. A avó trata do jantar e a neta faz os trabalhos de casa, praticamente ombro a ombro. Patrícia Bispo circula entre as duas; quando tudo fica pronto, os cadernos deixam a mesa para que possam entrar os pratos. É assim desde 6 de abril, data em que se instalaram numa das cinco estruturas iguais - brancas, alinhadas - num pequeno bairro em Pousos, Leiria, levantado de frente para o cemitério como resposta de emergência. Três meses passados, continuam no mesmo sítio, com o temporário a alongar-se.

Só a partir da última sexta‑feira é que as três mulheres passaram a ter duche. Patrícia Bispo fala disso com uma naturalidade treinada, mas com peso no olhar. Ficou viúva há quase quatro anos e perdeu o pai há um. É o seu ordenado de funcionária pública que suporta a casa e as despesas, incluindo a prestação ao banco da vivenda que perdeu a 28 de janeiro, na madrugada em que “grande parte do telhado foi à vida”. Mas, corrige, depois da “Kristin”, o pior não parou. “Choveu imenso. Chão, paredes, tetos, tudo se estragou com a chuva.” A vivenda deixou de ser habitável. Num espaço de um mês, acabaram por dormir em cinco sítios diferentes: casas de amigos, um apartamento emprestado por poucos dias.

Seguradora em silêncio e obras em suspenso

Pediram orçamentos para a reconstrução, mas a seguradora mantém-se calada até hoje. “Vou pôr-me a fazer obras que depois não tenho dinheiro para pagar?” A dúvida não a larga, enquanto a vida segue sem esperar. Foi nesse intervalo que apareceu o bairro de casas pré-fabricadas, interrompendo uma rotina humilde, mas certinha, que Patrícia diz que tinha. “Nunca imaginei descer tão baixo.” Para por instantes. “É muito difícil para uma pessoa como eu, discreta, estar a expor-me. Faço-o apenas porque há muita gente que ainda está a viver com muitas dificuldades e isto não pode cair no esquecimento só porque a grande maioria retomou a vida normal.”

À volta, o bairro pequeno fica em silêncio, como quem tenta arrumar uma normalidade possível. Já houve um bolo de aniversário partilhado. E, ao fim da tarde, uma criança com idade próxima da filha de Patrícia - tem 9 anos - brinca com ela.

Na primeira das cinco casas modulares vive também um trio de filha, mãe e avó, e há vasos com flores. Na segunda, mora um casal com um filho; têm um estendal com roupa a secar. Na última está Ana Comenda, de 37 anos, com dois filhos e três gatos, que espreitam pela porta de vidro até os donos regressarem. A bicicleta do mais novo encosta-se à escada de paletes pintada de vermelho. Em frente ao cubículo de Patrícia, há dois T1 - as casas mais pequenas e mais quentes - onde quase não cabem dois passos. Em cada uma vive um casal de imigrantes com um bebé. Um tem quatro meses, o outro apenas 15 dias, já ali nascido. “Nunca os ouvi chorar”, diz Patrícia.

O novo lar de 80 pessoas

Depois da tempestade “Kristin”, começaram a aparecer bairros como este: pequenos conjuntos montados à pressa para acolher quem chegou ao fim da linha, sem alternativa. A solução foi pensada como emergência mas, 100 dias depois, ainda dá sinais de se prolongar. Em Leiria, existem 21 núcleos distribuídos por sete pontos do território. Há também dois na Marinha Grande, num total de seis casas. No conjunto, serão perto de 80 pessoas com uma nova vizinhança, imposta pela tempestade. Não pagam renda, nem água ou luz. A resposta custou 198 mil euros na Marinha Grande e cerca de 400 mil em Leiria, acrescendo despesas assumidas pelas juntas de freguesia.

Quando o Presidente da República visitou o bairro, puseram-se flores. Que logo foram retiradas mal a comitiva partiu

Nos casos em que havia terreno disponível, a opção foi colocar as casas no local onde as pessoas já viviam. “Uma forma de não desenraizar as pessoas”, explica Ana Valentim, vereadora com o pelouro da ação social da Câmara Municipal de Leiria.

Foi o que aconteceu com Carlos Cruz e com o irmão, Jorge. Primeiro instalaram-lhes uma caravana no pátio; agora, vivem numa destas casas pré-fabricadas. Há dois quartos, duas casas de banho pequenas e uma cozinha asseada, que Carlos mantém impecável. “O problema é a água, tenho de tomar banho com um garrafão”, lamenta. A morada é a mesma, mas a sensação de estar em casa mudou. Naquela noite, o vento arrancou chapas do telhado e deixou outras arqueadas; a casa - já frágil - ficou completamente alagada. Já eram acompanhados pela ação social antes da tempestade e, agora, aguardam uma casa camarária definitiva.

A mesma espera pesa sobre Joaquim e Alexandra Monteiro, ambos com 19 anos e com um bebé de sete meses. Acabaram de chegar ao novo bairro de quatro casinhas, na Marinha Grande, depois de a barraca onde viviam ter ficado destruída, com três pinheiros em cima. Por pouco não morreram. Conseguiram fugir antes de o vento arrancar as árvores do pinhal; depois, passaram por pavilhões, chegaram a ir para um hostel, até conseguirem ali ficar. “Não tínhamos de momento frações disponíveis que fossem propriedade do município e este foi um recurso para não deixar as pessoas na rua”, justifica o vereador Armando Constâncio.

A visita do Presidente

Há ainda quem não dependa da câmara e, apesar de trabalhar, não consiga encontrar alternativa para a vida que a tempestade lhes virou do avesso. Na aldeia de Colmeias, perto do campo de futebol e junto a um descampado onde se acumulam telhas, quatro adultos passaram a viver num T2 pequeno, que à hora do jantar cheira a peixe frito. Lurdes Cerejo surge à janela com uma gata ao colo - acabou de parir cinco gatinhos. Desliga o fogão por uns minutos para explicar que, quando chega a hora de comer, “é uma confusão, mas tem de ser”.

Arrendamento impossível e o apelo ao Estado

Na casinha, Lurdes vive com a filha grávida de oito meses, o genro e o filho adulto. E, além disso, partilha também o quarto com esse filho, juntamente com sete gatos e um cão. “A gente não pode ir para a rua, a minha filha não tarda tem a bebé.” O nascimento da neta é a maior inquietação da matriarca. A gravidez avança, mas o espaço não aumenta. E, diz, o nó está no arrendamento: entre casas destruídas e as restantes com preços elevados, não encontra uma solução para a família, mesmo com dois salários.

Ana Comenda, que ocupa a última das casas do bairro de Pousos, relata um impasse semelhante. Também arrendava um apartamento onde vivia com os dois filhos, de 10 e 13 anos, até que a tempestade lhe arrancou as varandas e lhe atirou uma chaminé para cima do carro. Desde que se instalou na casa pré-fabricada, quase só tem feito uma coisa: procurar novo arrendamento, sempre travada pelo preço. “Não posso arrendar uma casa por 500 euros. Sozinha, com os meninos, não consigo.” Por isso, insiste: “O Estado tem de vir ao terreno, sem julgamentos. Verá que transparece lá para fora uma ideia errada. Nós, região centro, temos a consciência de que nada está resolvido.”

A visita de António José Seguro ao bairro, no início de abril, gerou reações diferentes. Houve quem o abraçasse e lhe oferecesse um retrato; houve quem preferisse não aparecer. “Não me parece que o senhor Presidente vir aqui com uma comitiva, com tantos jornalistas, dar um beijinho e ouvir as histórias, seja suficiente para despertar consciências. Pelo menos junto das seguradoras não despertou”, afirma Patrícia. Naquela manhã, eram 8h quando saiu para pôr roupa a lavar e viu uma equipa a compor o bairro com vasos de flores. Assim que a visita acabou e as câmaras deixaram de ocupar o espaço, as flores foram retiradas - e o bairro voltou a ficar à espera.

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