A investigação financiada pela UE está a acelerar soluções para impedir que o plástico siga pelos rios até ao mar - de drones e câmaras inteligentes a novas embalagens biodegradáveis.
Em Dendermonde, na Bélgica, Gert Everaert cresceu a olhar para o rio Escalda a partir da secretária do quarto. Via batelões e embarcações pequenas a cruzarem-se, e aves a alimentar-se. Mas, a par desse cenário, havia outra presença constante: lixo e resíduos de plástico a descer a corrente. "Os carros paravam e as pessoas atiravam lixo diretamente para a água", recorda. "Flutuava por ali lixo de todo o tipo e isso deixava-me sempre extremamente triste."
Hoje, Everaert já não é apenas um observador. Como diretor-adjunto de investigação do Instituto Marinho da Flandres, lidera a INSPIRE, uma grande iniciativa de investigação apoiada pela UE que junta cientistas e inovadores de 13 países da UE, além da Sérvia e da Tailândia. A ambição é clara e direta: travar o plástico nos rios antes de este alcançar o oceano - e, idealmente, evitar que chegue sequer às nossas vias aquáticas.
Para isso, a equipa INSPIRE está a desenvolver um vasto conjunto de ferramentas para ajudar a limpar os rios europeus: desde sistemas de deteção inteligente com drones e câmaras com IA, até processos de remoção capazes de capturar partículas de plástico extremamente pequenas. Em paralelo, o trabalho também se faz a montante, procurando cortar o problema na origem, antes de o plástico entrar nos cursos de água.
Porque os rios são importantes
Quando se fala em poluição por plásticos na água, é comum pensar-se em manchas gigantes de lixo a flutuar no oceano ou em praias cobertas de detritos. No entanto, uma parte significativa desse plástico começou a sua trajetória em terra firme.
"A maior parte da poluição por plásticos nos oceanos vem dos rios", explica Everaert. "Quanto mais tempo se demora para apanhar o plástico, mais este se decompõe em microplásticos e se espalha. Limpar os rios é a forma mais eficiente de combater a poluição, isto além de evitar poluir em primeiro lugar."
A INSPIRE integra um esforço europeu mais amplo para reduzir a poluição por plásticos. Até 2030, a UE quer cortar em 50 % o lixo de plástico no mar e reduzir em 30 % os microplásticos no ambiente. Para cumprir essas metas, a intervenção nos rios será determinante.
Ao contrário das operações no oceano - onde os resíduos já se encontram muito dispersos -, as soluções para rios permitem atuar mais perto da fonte, antes de o plástico se fragmentar em partículas ainda mais pequenas e difíceis de retirar.
Travar o plástico na fonte
Na luta contra a poluição, evitar continua a ser mais decisivo do que remediar. Depois de entrar num sistema fluvial, o plástico inicia um processo de degradação. Com o tempo, pode transformar-se em partículas microscópicas cuja recolha é extremamente difícil e, em alguns casos, impraticável. Everaert destaca as embalagens como uma área prioritária.
"Hoje em dia, os legumes são frequentemente embalados em plástico, para os manter frescos durante mais tempo. Estamos a fazer testes para ver se conseguimos substituir o plástico por quitosano, uma película biodegradável derivada dos crustáceos."
Outra frente passa pelo plástico utilizado na agricultura. É comum os agricultores recorrerem a películas plásticas para cobrir o solo, proteger as culturas e manter a humidade. O problema é que, muitas vezes, ficam fragmentos no terreno durante muito tempo após a utilização. No âmbito da INSPIRE, estão a ser testados polímeros de base biológica que possam substituir esses materiais e degradar-se naturalmente, em vez de se acumularem.
Estas alternativas estão a ser ensaiadas em áreas agrícolas por toda a Europa. O objetivo não é apenas criar materiais novos, mas confirmar que resultam em condições reais de uso.
Do Danúbio ao Douro
A INSPIRE está a desenvolver e a testar 20 tecnologias distintas em seis rios europeus, entre os quais o Escalda, na Bélgica, o Reno, nos Países Baixos, o Danúbio, na Roménia, e o Douro, em Portugal. Esta diversidade não é acidental.
"A poluição por plásticos contém muitos tipos de polímeros, que têm diferentes formas e tamanhos", afirma Everaert. "No Danúbio, a poluição é diferente da do Escalda. Não existe uma solução única para todos."
Há rios marcados por detritos grandes à superfície. Noutros, predominam resíduos mais fragmentados ou de origem industrial. Fatores como a meteorologia, o tráfego marítimo, o grau de urbanização e a forma como os resíduos são tratados localmente influenciam o que acaba por chegar à água.
Para mapear e acompanhar melhor essa poluição, os investigadores recorrem a drones e câmaras com IA, capazes de detetar e classificar automaticamente resíduos de plástico nas margens e à superfície. Estes sistemas permitem às autoridades reconhecer pontos críticos e intervir com maior rapidez.
Mais pequenos do que um cabelo humano
Além da deteção, a equipa está a desenvolver tecnologias para retirar plástico da água em múltiplas formas e dimensões. Entre as fontes mais complexas - e também mais difíceis de identificar - estão os microplásticos e os nanoplásticos.
Os microplásticos são partículas com menos de 5 milímetros. Os nanoplásticos são ainda menores - menos de um micrómetro de diâmetro. Para referência, um cabelo humano tem cerca de 70 micrómetros de espessura.
Hoje, estas partículas aparecem praticamente em todo o lado: na água, no solo, no ar e até no corpo humano. Os cientistas continuam a estudar todas as consequências para a saúde, mas os primeiros resultados apontam para possíveis ligações a inflamação e a outras preocupações de saúde, incluindo cancro, alergias e alterações do sistema imunitário.
A Delvec, uma empresa grega de nanomateriais que integra a INSPIRE, está a trabalhar numa forma de remover da água as partículas de plástico mais finas.
"Acho que os microplásticos e os nanoplásticos são para nós aquilo que o amianto era para a geração anterior", afirmou Jeorge Deligiannakis, diretor-executivo da Delvec. "Estamos apenas agora a começar a compreender os riscos, mas temos de aprender a eliminá-los."
A empresa desenvolveu um protótipo de filtro capaz de capturar nanoplásticos sem bloquear o fluxo de água. O filtro tem um revestimento de nanomateriais concebidos especificamente para se ligarem às partículas de plástico.
"É como um pó reativo na superfície do filtro", explica Deligiannakis. "Captura as nanopartículas de plástico à medida que a água corre."
O protótipo já foi testado na Eslovénia. Ainda assim, será necessário aumentar a escala para lidar com os volumes processados em estações de tratamento de águas residuais, que são muito superiores.
"O próximo passo é a industrialização", afirma Deligiannakis. "Temos de tornar o filtro suficientemente robusto para instalações de tratamento de grande escala."
Fechar a torneira do plástico
A colaboração no âmbito da INSPIRE vai manter-se até à primavera de 2027. Até lá, a equipa pretende apresentar não apenas tecnologias isoladas, mas um plano prático que possa ser aplicado em toda a Europa.
"Temos de fechar a torneira do plástico", afirma Everaert. "A maior parte dos resíduos de plástico acumula-se nos rios e pode acabar por ser despejada no oceano."
Everaert sublinha, ao mesmo tempo, que os rios não são apenas canais de passagem. São ecossistemas completos, com elevada biodiversidade e um papel essencial para as comunidades humanas.
Para ele, esta missão tem também uma dimensão pessoal. O rio que observava em jovem integra agora um esforço europeu para repensar a forma como o plástico é usado, gerido e evitado.
Se a INSPIRE atingir os seus objetivos, poderemos deixar de ver lixo a descer a corrente. E, em vez de conduzir plástico para o mar, os rios europeus poderão voltar a correr limpos.
Este artigo foi inicialmente publicado na Horizon, a revista de investigação e inovação da UE.
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