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Miguel Cardoso, Mamelodi Sundowns: rotação e repouso num calendário sobrecarregado

Treinador analisa esquema tático enquanto jogadores descansam e aquecem no campo ao entardecer.

Miguel Cardoso e o desafio de não sobrecarregar no Mamelodi Sundowns

Depois de passagens por França, Espanha, Grécia e Tunísia, Miguel Cardoso encontrou na África do Sul - ao serviço do Mamelodi Sundowns - um dilema pouco intuitivo para quem vive do treino: por vezes, o melhor é não puxar mais. O próprio admite a contradição: “O treinador quer sempre mais e mais, mas nestas fases treinamos menos e damos mais descanso. Temos de nos controlar para não sobrecarregar mais”.

Na última temporada, o Sundowns foi campeão nacional e perdeu a final da Liga dos Campeões africana. Ainda assim, a equipa voltou a fazer as malas para o Mundial de Clubes e, depois de uma participação muito positiva, regressou a Pretória com a dinâmica vencedora intacta - e com o calendário ainda mais cheio. Entre a liderança na liga sul-africana e nova presença na final da Champions, a equipa encaixou sete encontros em 21 dias, um cenário que Cardoso descreve como “aterrador”.

A exaustão que se sente em Pretória tem eco noutras latitudes. A FIFPro, que reúne sindicatos de futebolistas, tem insistido no alerta sobre o excesso de jogos. Um estudo aponta que, para proteger a saúde, no pós-época deveria existir um mínimo de 28 dias de repouso e 28 de pré-temporada. No último Europeu, apenas 15% dos participantes cumpriram uma destas condições. A tensão é resumida num desabafo claro de Rodri, do Manchester City: “Ou paramos ou não chego aos 32 anos”.

Rotação: um privilégio?

Mesmo entre equipas que atingem o topo da Liga dos Campeões europeia, as ferramentas para responder ao desgaste não são iguais. Há diferenças grandes entre o Arsenal - forçado a viver numa Premier League de exigência constante - e clubes como Bayern de Munique e PSG, habituais dominadores internos. Também o Atlético de Madrid, sem pressão real de título em Espanha e afastado do risco de cair da zona de qualificação para a Champions, chegou às decisões com menos ruído competitivo semanal.

O desequilíbrio existente em França e na Alemanha permite que PSG e Bayern poupem a pensar na Champions

PSG e Bayern com margem, Arsenal sempre no limite

Nos números, a folga nota-se: em média, cada titular do PSG soma cerca de menos 300 minutos do que os do Arsenal. E o descanso não se mede apenas na contabilidade total, mas também na forma como se poupa em períodos de eliminatórias.

Antes do duelo de Paris frente ao Bayern, Luis Enrique utilizou apenas três titulares na Ligue 1. Na jornada seguinte ao 5-4, o PSG voltou a mexer e manteve apenas dois jogadores. A quebra de ligação ao jogo trouxe um empate com o Lorient, mas a vantagem de seis pontos para o Lens abriu espaço à gestão.

A mesma lógica foi aplicada pelo Bayern. Com o título nacional praticamente garantido, Kompany alterou oito titulares entre o onze do campeonato e a deslocação a França, voltando a mexer no mesmo número de jogadores no encontro seguinte de uma Bundesliga desequilibrada. O PSG-Bayern, além do perfil ofensivo e do talento criativo, acabou por ser também um confronto entre equipas invulgarmente frescas.


Em Inglaterra, a realidade é muito menos permissiva. Na luta direta com o Manchester City pela Premier League - uma competição que, segundo a Deloitte Football Money League, inclui 15 dos 30 clubes mais ricos do mundo - o Arsenal fez apenas duas alterações entre a vitória frente ao Newcastle e a ida a Madrid. Além disso, não existe a mesma margem para ajustar datas com o objetivo de favorecer o rendimento europeu, enquanto o PSG adiou jogos da Ligue 1 que deveria ter realizado a meio das eliminatórias com o Chelsea e o Liverpool.

Em Portugal, a tendência também se sentiu: quando o desgaste se torna uma variável central e a capacidade de lidar com a sobrecarga passa a contar como qualquer outra qualidade competitiva, gerir esforço é determinante. O FC Porto exemplificou-o de forma evidente, com rotação agressiva e substituições planeadas cedo, ao mesmo tempo que dava prioridade à I Liga. Froholdt, Pepê, Varela e Kiwior - quatro dos cinco jogadores de campo com mais minutos no campeonato - não foram titulares em qualquer jogo a eliminar da Liga Europa.

A gestão do cansaço faz-se da mistura entre profundidade de plantel, recuperação e comunicação

Miguel Cardoso enquadra a questão na realidade dos recursos: “É importante ter plantéis competitivos e extensos. Nós temos três laterais esquerdos, três direitos, seis centrais...”. A rotação não é apenas uma decisão técnica; depende também do músculo financeiro. Mesmo sem conseguir “desligar” como PSG ou Bayern, o Arsenal consegue ir ao banco e trocar Saka por Madueke, um reforço de €56 milhões, e rodar entre Havertz e Gyökeres, que juntos custaram €142 milhões.

As rotinas e o repouso

Paulo Correia, preparador físico do Estrasburgo - oitavo na Ligue 1 e com percursos longos na Taça de França e na Liga Conferência - relativiza o problema com uma ideia simples: “Ter tantos jogos é um bom problema, significa que a equipa está a ter sucesso.” Para o português, a resposta tem de ser sistémica e não isolada: a chave está numa “abordagem integrada”. E detalha o princípio orientador: “A vantagem competitiva vem da combinação entre profundidade do plantel, seleção de jogadores, treino, recuperação e comunicação. Não há uma solução única.”

PSG e Arsenal, finalistas da Liga dos Campeões, são projetos construídos ao longo de anos, sustentados por rotinas estáveis e mecanismos repetidos. Cardoso sublinha que ter “padrões de jogo facilita porque não há melhor treino do que o próprio jogo”, restando sobretudo ir afinando “correções”. Sob pressão de calendário, o técnico defende que “quanto menos variabilidade tático-estratégica, melhor”. Por isso, nesta época, manteve a “base tática” da anterior, criando um quadro de referência que o protege quando passa semanas sem grande margem para treinar - também devido ao peso das viagens. Só desde o fim de janeiro, houve deslocações longas ao Sudão, Congo, Mali e à Tunísia.


Recuperação imediata e fadiga mental

Para Paulo Correia, o processo de recuperação começa no instante em que termina o jogo. Existem “protocolos adaptados para cada jogador”, com “nutrição, sono, hidratação e outras ferramentas complementares de recuperação” ajustadas ao perfil individual. Os dados científicos são importantes, mas o preparador reforça que é essencial “conhecer o futebolista” e, acima de tudo, “ouvir” o que ele relata.

O custo surge no corpo, mas não se fica por aí. “Não é só físico”, recorda Correia, destacando “exigências mentais e cognitivas: a intensidade, a concentração, o tempo passado em viagem, longe de casa e da família, a sensação de que nunca há uma pausa real.” É precisamente por isso que Miguel Cardoso insiste em “dar o máximo descanso possível”, mesmo que isso signifique abdicar de tempo de trabalho. Após o Mundial de Clubes, escolheu conceder três semanas de férias, encurtando a pré-época para “privilegiar o repouso”. É a tal contenção contraintuitiva: o treinador que, quando é preciso, treina menos para não “estragar”.

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