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Júri internacional demite-se a poucos dias da abertura da 61ª edição da Bienal de Veneza

Mesa de reunião com pastas e cadeiras elegantes junto a janelas com vista para o mar e pessoas ao fundo.

A poucos dias de arrancar a 61ª edição da Bienal de Veneza - um dos marcos mais relevantes do calendário artístico internacional - o júri internacional encarregado de atribuir os prémios principais apresentou a demissão, na sequência de uma decisão controversa que desencadeou forte contestação no meio artístico e também no plano político.

Critérios anunciados pelo júri internacional da Bienal de Veneza

No centro da polémica esteve uma posição tornada pública pelo próprio júri a 23 de abril, através da plataforma e-flux (um site internacional de referência na arte contemporânea). Nessa tomada de posição, os cinco membros anunciaram que não atribuiriam distinções como o Leão de Ouro ou o Leão de Prata a artistas oriundos de países cujos líderes estejam “acusados de crimes contra a humanidade pelo Tribunal Penal Internacional”. Na prática, esses artistas poderiam integrar a exposição, mas ficariam automaticamente fora da corrida aos principais galardões.

Na altura, o júri enquadrou esta opção como uma tentativa de fazer a Bienal responder às “urgências do seu tempo” e de afirmar a defesa dos direitos humanos. “Temos também uma responsabilidade para com o papel histórico da Bienal como plataforma que liga a arte às urgências do seu tempo”, escreveram.

Ainda que não tenham identificado Estados em concreto, a leitura mais comum foi a de que a regra visava sobretudo Israel e a Rússia. O Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de detenção contra o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e o ex-ministro da Defesa Yoav Gallant por alegados crimes de guerra em Gaza, assim como contra o presidente russo Vladimir Putin por crimes de guerra na Ucrânia.

Críticas e reacções de autoridades e artistas

A medida motivou uma vaga de críticas, com destaque para reacções de responsáveis israelitas e de artistas envolvidos. “O boicote ao artista israelita Belu-Simion Fainaru por parte do Júri Internacional da Bienal de Veneza constitui uma contaminação do mundo da arte. O júri político transformou a Bienal de um espaço artístico aberto, de ideias livres e sem limites, num espetáculo de doutrinação política falsa e anti-israelita”, escreveu o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel, numa nota publicada na rede social X.

Belu-Simion Fainaru, de 66 anos, afirmou ter recebido com agrado a saída do júri. “Sou um artista e tenho direitos iguais, e não posso ser julgado pela minha nacionalidade ou raça”, disse numa entrevista ao “The New York Times”, acrescentando que entendia que devia ser apreciado “apenas pela qualidade e pela mensagem” do seu trabalho.

Com a contestação a ganhar dimensão, o júri acabou por se demitir a 30 de abril, através de uma curta declaração divulgada na e-flux, sem avançar justificações pormenorizadas.

Tensão política e mudanças no formato desta edição

A controvérsia surge num quadro mais amplo de tensão em torno desta edição da Bienal de Veneza. De acordo com a “Reuters”, o evento tem estado no epicentro de uma crise política e mediática desde março, altura em que os organizadores comunicaram que a Rússia poderia regressar à exposição, pela primeira vez desde a invasão da Ucrânia em 2022.

Essa possibilidade foi alvo de críticas do governo italiano e da Comissão Europeia, que admitiu suspender um apoio financeiro de cerca de dois milhões de euros caso o pavilhão russo avance. Ainda segundo a Reuters, o Ministério da Cultura italiano enviou inspectores a Veneza para apurar de que forma foi autorizada a participação russa.

Entretanto, a organização da Bienal comunicou alterações ao modelo habitual: a cerimónia de atribuição de prémios passou de maio para novembro e, pela primeira vez, será permitido aos visitantes votarem nos seus artistas preferidos, incluindo os de países envolvidos na controvérsia. Ainda assim, permanece a dúvida sobre quem passará a seleccionar os vencedores dos principais galardões e se artistas de Israel e da Rússia voltarão a poder ser considerados elegíveis.

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