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Depois de Para Sempre: Calhau, Sarmento e Chafes no Pavilhão Julião Sarmento

Pessoa a observar obras de arte moderna numa galeria com iluminação natural e livro aberto numa mesa de madeira.

Cumplicidades entre Julião Sarmento, Fernando Calhau e Rui Chafes

Há cumplicidades que atravessam uma vida inteira - como a que uniu Julião Sarmento (1948-2021) e Fernando Calhau (1948-2002) - e há outras que parecem nascer com a própria vida, como a afinidade poética que aproximou Calhau de um artista bastante mais novo, Rui Chafes (n. 1966). Deste entendimento surgiu o convite para, em conjunto, fazerem “Um Passo no Escuro”, uma exposição a dois no Pavilhão Branco (2/5 a 30/6/2002). O título, premonitório, acabaria por ganhar um peso particular: a mostra terminaria já depois da morte de Calhau.

Também Julião Sarmento, desde sempre, conheceu, apoiou e comprou obras de colegas mais jovens. É nessa linha de continuidade - e de proximidade entre gerações - que os três artistas se encontram agora reunidos em “Depois de Para Sempre”, no Pavilhão Julião Sarmento.

Uma mostra pequena, mas de grande intensidade

A exposição não se apresenta como um conjunto vasto, mas impõe-se pela intensidade. Muito desse impacto nasce de uma montagem ao mesmo tempo sábia e delicada: tanto na selecção das obras - 32 em 80 possíveis - como no modo como o percurso alterna riso, sorriso, peso, leveza e drama. Trata-se de um trabalho exemplar de Isabel Carlos.

O percurso e o domínio de Fernando Calhau

Num total em que 29 obras de Calhau se afirmam como presença dominante, o conjunto abre com duas peças de 1968, de autoria dupla, Calhau/Sarmento. A visita é ainda marcada por três momentos em que Rui Chafes se cruza com Calhau - encontros que se revelam, justamente, os pontos mais fortes e mais significativos de toda a experiência.

O início faz-se com duas obras de dois artistas de 20 anos, Sarmento e Calhau, a ensaiarem uma brincadeira com a arte pop, numa tentativa de fuga mental à escola (de Belas-Artes) que então frequentavam. De seguida, surge uma introdução rápida à poética essencial de F. Calhau, ancorada no simples e no elementar: a cruz, o quadrado, o mar e a terra como texturas fundamentais; a memória de Warhol (Marilyn serigrafada num sobrescrito); e, repetidamente, o preto e o branco.

Três encontros Calhau/Chafes: vertigem, labirinto e ferida

O primeiro encontro entre Calhau e Chafes dá nome à exposição: “Depois de Para Sempre” (Chafes, 1988). Acontece diante de uma escultura parietal que parece lançar puas como lâminas, a rasgar o espaço exterior onde se dá o confronto com um desenho de ferida ou cicatriz (2000). É ali que Calhau se confronta - e nos confronta - com a doença; e é também ali que encontramos uma escultura de Chafes, suspensa e rasgada, inteiramente feita de ferida, “onde a luz morre” (1996).

Logo a seguir, o segundo encontro instala-se no negrume, quando a “Vertigem V” de Chafes (1988/9) assume a aparência de um casaco em fio de ferro, apenas parcialmente atravessável pelo olhar. Esse olhar, no entanto, acaba por se perder num labirinto sem saída, antes de chegar a uma instalação em forma de sala forrada a chapas de aço: à entrada, em néon, a palavra “Razão” escrita em espelho e, ao fundo, “Ratio” na versão latina - “# 166 Sem título (Razão/Ratio) 1991”. Entra-se noutro labirinto, mais físico do que visual, um lugar onde é possível perdermo-nos como um morcego ao entrar numa casa.

Quase no final, após “Uma Palavra… a Cair para Baixo!”, serigrafia lúdica de 1969 em que as próprias palavras escorregam e atravessam um quadrado, chega o terceiro encontro. É um instante de pausa antes do embate entre três desenhos: “Um Desenho da Operação” (2001, R. Chafes) e dois de Calhau, ambos de 1995, em que se corta uma língua viva - “sem título (duro no mole)” e “sem título (linguado)”. A referência à dor, ao corte e à perda torna-se incontornável, como um último aviso antes do fim.

O desfecho: uma tela recortada de Calhau

E o fim, o que é? Uma pintura de Calhau num formato pouco habitual (tela recortada, sem título, 1986): dois triângulos lado a lado que parecem voar, ou talvez fugir - mas para onde? Para fora da vertigem e do labirinto que a exposição constrói com tanta inteligência, ou, pelo contrário, para mais dentro, para o fundo desse lugar vertiginoso que habita, permanece, rasga e corta a nossa memória “Depois de Para Sempre”.

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