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Cristina Ferreira, TVI, Malveira e Valete: Damaia e o argumento do povo

Apresentadora de telejornal em estúdio com microfone, janelas com vista para rua com pessoas e chuva.

Cristina Ferreira, TVI e a crónica que voltou a acender o rastilho

Depois de Cristina Ferreira ter fechado a sua sequência do “se calhar, pôs-se a jeito” com um “lamento” no “Jornal Nacio­nal” da TVI, Henrique Raposo atirou o desafio: quer uma Tia Bli para a apresentadora mais mediática do país. A ideia é simples: a betaria já dispõe de privilégios que cheguem; não deveria ainda somar o privilégio de ser a única classe social que é ridicularizada pelos seus próprios. Procura-se, portanto, humorista nascido na Malveira.

Ao ler o anúncio, posso não cumprir o perfil. Ainda acabo a fazer, em vez disso, uma dissecação pós-moderna do “Dois às 10” e das suas rotinas de crónica criminal. Mesmo assim, vou tentar - até porque esta crónica tem passado: não é a estreia da TVI a converter violência exercida sobre uma mulher numa espécie de lição para as restantes.

O “modus operandi” e a falsa pedagogia

O procedimento está afinado e repetido. Começa-se por “consulta-se” a especialista de escala, para que a opinião venha com selo de autoridade: entra a advogada ou a psicóloga. A pergunta é montada como aviso zeloso às outras mulheres, como se fosse preciso evitar que lhes dê para desobedecer ao manual da vítima perfeita.

Da pergunta problemática passa-se, sem grande pudor, para a pergunta retórica: convoca-se a “adrenalina” dos rapazes para explicar se eles, afinal, conseguem compreender um “não”.

Malveira, Damaia e o argumento do “povo”

Da Malveira costuma vir uma resposta quase automática: a Malveira fala para o povo e vocês, elites, nunca vão conseguir chegar lá. O êxito dos vários ‘Daily Cristinas’ é usado como prova. E quem assinou um manifesto indignado contra o programa é carimbado como gente em pânico perante a possibilidade de ver o seu lugar ocupado pela nova ‘Grande Educadora do Povo’.

Se a conversa é para sair da Malveira, então avancemos para a Damaia. É desse lugar que vem o rapper Valete, filho de são-tomenses, que canta narrativas da periferia - material perfeito para elites que preferem o seu povo com mais melanina, a denunciar a opressão do homem branco. Um dia, mostrou ao mundo um vídeo com um homem prestes a enfiar uns balázios numa mulher infiel. Também alegou que apenas estava a abalar as nossas certezas com o que se vivia no bairro dele. E abalou. Acabou admoestado pela CIG.

O lugar de polícia do politicamente correto que hoje se cola à ERC era, nesse tempo, ocupado pela CIG. E surge invariavelmente alguém a explicar, com ar pedagógico, que as elites não percebem nada do povo. Num regime muito democrático, há povos adequados a todas as elites: umas escolhem o povo da periferia, útil para denunciar a opressão; outras preferem o povo do hipermercado, pronto a atirar verdades incómodas. O povo, esse, quase nunca passa de figurante da tese.

Quando a Cristina saca do seu bilhete de identidade - “nascida na feira” - está a capitalizar a própria biografia. O Valete faz operação semelhante com os bairros periféricos. Nada a apontar: ambos recorrem a realidades que conhecem ou conheceram. O problema é quando, numa imagem, numa letra ou numa pergunta, a mensagem que fica é “boys will be boys” - e que raparigas e mulheres se amanhem com isso.

Só que esse certificado DOP não funciona como imunidade à crítica, venha ela de onde vier. Ainda mais num tempo em que se enche o mercado de empoderamento feminino e de brumas para o pipi.

Não vou fazer de conta que sou do povo. Mas, com todo o respeito por todas as feirantes, que se dane este tipo de “lugar da fala” atribuído às vozes que chegam da Malveira - ou da Damaia. Na minha cartilha, ouvir quem vem de lá serve para enquadrar, não para absolver. Quem vê programas da manhã merece mais. Tem tanta capacidade de pensar como os que apresentaram queixa à ERC.

Polémica, dinheiro e a chuva miudinha

Enquanto nas notícias tudo roda em torno da Cristina, a TVI consegue atravessar entre os pingos da chuva, porque é a Cristina que vende - tal como o Valete continua a cantar e a sua editora a faturar. O essencial é que continue tudo a render a quem de direito. E a polémica, como se sabe, também rende. É o mercado a trabalhar.

Marx já explicou essa parte. Cristo também, quando expulsou os vendilhões do templo. Mudaram de morada, mas não desapareceram.

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