Um artista plástico observa o real com um filtro próprio. Onde muitos reconhecem apenas um café deserto, ele descobre a solidão urbana. Onde nós identificamos um homem de chapéu com uma maçã a tapar-lhe o rosto, ele vê Adão. Onde reparamos em relógios a escorrer, ele encontra a incapacidade de apreender a passagem do tempo. E onde nos surgem figuras deformadas, ele lê a violência da guerra.
Essa capacidade de ver para lá do óbvio - de representar e de interpretar - não nasce apenas do dom: aprende-se, exercita-se e aprofunda-se com estudo e trabalho. Por vezes, o pintor, o escultor ou o artista plástico cruza-se com o design e deixa marcas duradouras, criando logótipos que se inscrevem no dia a dia. José Santa-Bárbara produziu milhares de obras e assinou símbolos que ficaram no nosso quotidiano. Morreu a 28 de abril, aos 89 anos.
José Santa-Bárbara: raízes, estudos e consolidação nas artes visuais
José Manuel Ludovice Santa-Bárbara nasceu em Lisboa a 28 de outubro de 1936. Apesar da origem familiar nas Caldas da Rainha, foi sempre assim que se apresentou: caldense. Em declarações citadas na primeira pessoa pela “Gazeta das Caldas”, recordou que foi lá que “aprendi a patinar e a andar de bicicleta”.
A sua escolaridade passou pelo Liceu Camões, em Lisboa, mas a formação artística começou cedo. Em 1951 entrou na Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde frequentou o curso de Cerâmica e teve como mestre Abel Manta. Em 1955, seguiu um percurso que se afigurava consequente e escolheu a área de Escultura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa.
O desejo de ampliar horizontes levou-o ainda a estudar Cenografia no Conservatório Nacional de Lisboa e Gravura na Cooperativa de Gravadores Portugueses. Quando concluiu o curso de Escultura, no final da década de 50, reunia já uma preparação sólida e variada no campo das artes visuais.
Entre 1962 e 1964 foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian. Nesse período colaborou com o arquiteto Francisco Keil do Amaral num levantamento nacional de equipamento urbano, colaboração que voltaria a acontecer em 1967 e 1968, aquando da participação na criação do monumento ao poeta João de Barros, na praia de Santa Cruz.
A década de 60 traz-lhe uma intensa atividade profissional. E traz-lhe um amigo também, José Afonso
Música, ensino e uma década de 60 particularmente ativa
Em paralelo, lecionou no ensino técnico e secundário e integrou projetos de design em diversas empresas. Os anos 60 foram marcados por um ritmo profissional intenso e por exposições individuais.
Foi também nessa fase que se aproximou de José Afonso, com quem manteve uma colaboração próxima, sobretudo enquanto designer de capas de discos. Entre esses trabalhos contam-se “Traz Outro Amigo Também” (1970), “Eu Vou Ser Como a Toupeira” (1972), “Venham Mais Cinco” (1973) e “Como Se Fora Seu Filho” (1983). Para além disso, concebeu capas para muitos outros músicos, incluindo Paulo de Carvalho, Adriano Correia de Oliveira, José Mário Branco e Fausto Bordalo Dias.
Do design na CP às intervenções públicas e à medalhística
Durante quase 30 anos, deixou de apresentar o seu trabalho em exposições individuais enquanto artista plástico e concentrou uma parte maior do tempo no design. No início da década de 70 assumiu a direção do Gabinete de Design da CP, onde desenhou o logótipo da empresa e definiu o design de interiores e exteriores de carruagens. Num contexto português em que tal abordagem era então inédita, essa experiência viria a obter reconhecimento dentro e fora do país.
Em 1978 passou a presidir à Associação Portuguesa de Designers. Já em 1990 integrou a Watford Conference, como membro correspondente em Portugal, um grupo internacional de designers e arquitetos ligados ao sector ferroviário. A partir de meados dos anos 90 e ao longo dos anos 2000 realizou intervenções plásticas em estações do metropolitano - como Entrecampos e Santa Apolónia - e em estações ferroviárias do Pragal, de Entrecampos e do Rossio.
No plano cívico e político, o PCP salientou, numa nota de pesar, a sua militância no partido desde jovem e a participação permanente na luta contra a ditadura. A CGTP-IN, por seu lado, recordou que Santa-Bárbara doou a obra “A Troika” à instituição sindical, após a exposição que assinalou os 50 anos da sua existência.
Menos referida publicamente, mas relevante, foi a sua atividade na medalhística. Produziu medalhas comemorativas associadas à história dos caminhos de ferro em Portugal e a efemérides nacionais e institucionais, como os centenários das linhas ferroviárias do Douro e de Cascais e da Estação do Rossio, aniversários do 25 de Abril e os 250 anos do Aqueduto das Águas Livres. No conjunto, a sua prática artística evidencia que Santa-Bárbara era um patriota.
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