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Maria da Graça Carvalho: da ciência ao Governo em plena crise energética

Engenheira com capacete branco inspeciona painéis solares com turbina eólica ao fundo num campo.

Bejense de raiz, desde pequena dizia que queria ser engenheira - e acabou por afirmar-se como cientista de referência. Há 23 anos trocou os laboratórios pela política, ainda abriu caminho na Europa e, mesmo num contexto de crise energética, tem conseguido preservar uma imagem pública sólida.

Maria da Graça Carvalho e a crise energética

Há poucos dias, ao apresentar o relatório sobre o apagão de abril de 2025, Maria da Graça Carvalho sustentou, sem rodeios, que "a nossa rede elétrica é resiliente e fiável" e que o Governo já implementou uma parte significativa das recomendações constantes no documento. A serenidade e a forma direta como comunica tornaram-se traços distintivos de uma ministra discreta, que foi cimentando a perceção de alguém ponderado e determinado - muitas vezes enquanto outras polémicas atingiam membros do Executivo.

Num momento em que os combustíveis atingem valores históricos devido à guerra no Irão e em que a crise energética se faz sentir à escala global, a ministra do Ambiente e da Energia tem evitado dramatismos e procurado passar uma mensagem de confiança. Já atravessou episódios extremos, do apagão às tempestades, e até poderia ter visto o período de “lua de mel” política desmoronar-se, mas tem mantido a reputação de quem domina os temas de que fala.

Beja, o liceu e a vocação para a energia

Nasceu em Beja há 71 anos, e o nascimento foi anunciado no centenário café Luiz da Rocha, uma instituição da cidade e referência da doçaria alentejana. O pai, Aldemiro da Silva Carvalho, arquiteto reconhecido e já falecido, estaria nesse dia de abril de 1955 a trabalhar na grande requalificação do espaço. "Vieram chamá-lo e avisá-lo de que a filha tinha nascido", recorda António Leandro, elemento da cooperativa que gere o estabelecimento. "Ela sempre frequentou a nossa confeitaria com os pais. Esta casa também lhe diz muito. E quando vem a Beja, não passa aqui sem vir cumprimentar a gente."

A mãe era professora de Biologia no Liceu Nacional de Beja, tendo dado aulas, entre outros, ao atual presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas. Foi nesse mesmo liceu que, em 1972, Maria da Graça foi distinguida como a melhor aluna do país no Secundário. Desde miúda tinha a ambição de ser engenheira e queria compreender a energia - e seguiu esse caminho.

Formou-se em Engenharia Mecânica no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, destacando-se num meio então maioritariamente masculino. Graças ao desempenho académico, recebeu ainda um convite para realizar doutoramento no Imperial College of Science, Technology and Medicine, em Londres.

Da investigação à política europeia

Graça - ou Gracinha, como lhe chamam alguns mais próximos - já lecionava no Técnico na década de 1980 quando Pedro Coelho, hoje professor catedrático e então aluno, a conheceu. "É uma pessoa muito dinâmica, a nível de envolver-se em projetos e procurar financiamento para investigação. Era particularmente evidente que estava vocacionada para cargos de gestão na área da energia."

Com mais de 100 artigos científicos publicados e distinções no currículo (do primeiro Prémio Maria de Lourdes Pintasilgo, dedicado a mulheres cientistas, a uma condecoração atribuída pelo Presidente da República Jorge Sampaio), a entrada na política não parecia inevitável - até porque nunca teve filiação partidária. Ainda assim, em 2003, Durão Barroso, então primeiro-ministro, chamou-a a São Bento para a convidar a assumir o Ensino Superior, numa fase marcada por uma crise em torno das propinas.

Permaneceu ministra durante o curto Governo de Santana Lopes e, depois, seguiu para Bruxelas, onde foi conselheira de Durão Barroso, já como presidente da Comissão Europeia. Mais tarde, eleita eurodeputada pelo PSD, desempenhou funções de relatora do Horizon 2020, programa comunitário dedicado à investigação e inovação. Foi também distinguida como melhor Membro do Parlamento Europeu na área da Ciência e Inovação.

No Parlamento Europeu, envolveu-se ainda no tema da igualdade de género, tendo negociado diretivas nessa área. No domínio da energia, foi relatora do regulamento europeu que define a partir de que momento os Estados podem declarar crise energética.

A ministra do Ambiente e da Energia no terreno

Por isso, não espantou que, em 2024, Luís Montenegro a tenha escolhido para a pasta do Ambiente e Energia. Carlos Moedas, que a conhece praticamente desde o nascimento, sublinha: "A Graça Carvalho conhece a técnica e a ciência como poucos, e pôs isso ao serviço da missão política. Com uma grande humanidade." Diz ainda que, na Europa, é altamente considerada. "Quando fui comissário europeu, ela esteve a ajudar-me. E todos a conhecem no Parlamento Europeu, sobretudo nas áreas da indústria, energia, ciência e ambiente. Um dos deputados mais reputados nestas áreas é um alemão que a consultava frequentemente."

Já em Portugal, pouco depois de tomar posse no Governo, há dois anos, perdeu a mãe. Não é casada, não tem filhos e é descrita como workaholic: quando não está a trabalhar, está a trabalhar. Dorme pouco. É conhecido que não aprecia parar para refeições, passa ao lado de mesas fartas e cultiva uma disciplina quase nórdica.

Exigente e prática, evita cerimónias formais, anda frequentemente com sapatilhas para acompanhar obras e leva impermeável para os dias de chuva (não gosta que lhe coloquem um guarda-chuva por cima). Conhece o país de uma ponta à outra - cidades, edifícios, doçaria regional e estradas - e, dizem, não precisa de GPS. Há quem afirme que nem necessitaria de assessores, porque sabe com precisão o que pretende.

O Alentejo mantém-se como parte da sua identidade: já foi vista a cantar modas alentejanas, seja ao lado de António Zambujo na Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas no Brasil, seja numa visita a Évora com um grupo de cantares.

Quando, neste ano, as tempestades atingiram Portugal, recebeu elogios de autarcas das zonas mais afetadas. "É uma pessoa muito qualificada, competente, muito disponível para ouvir e ajudar", afirma Ana Abrunhosa, presidente socialista da Câmara de Coimbra. "Na minha região, ela foi felizmente o rosto do Governo na resposta à calamidade. É uma pessoa extraordinária a nível humano, técnico, que domina os dossiês, e político. Tivemos muita sorte de ter esta ministra ao nosso lado." Como Abrunhosa faz questão de sublinhar, as obras de recuperação dos danos já avançaram.

Essa capacidade de fazer acontecer é apontada como um traço recorrente de Maria da Graça Carvalho. "Não contem comigo para adiar obras", disse, há uma semana, no Parlamento.


Campo Informação
Cargo Ministra do Ambiente e Energia
Nascimento 09/04/1955 (71 anos)
Nacionalidade Portuguesa (Beja)

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