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As Forças Armadas dos Estados Unidos atravessaram cerca de 12 meses particularmente exigentes, com várias operações militares a manterem todos os ramos ocupados. A guerra recente no Irão testou as capacidades ofensivas e defensivas de tropas, plataformas e infra-estruturas norte-americanas, levantando receios sobre o desgaste e sobre a redução das reservas de mísseis e de outras munições. Embora seja legítimo haver cautela e planeamento para cenários extremos, o quadro não é tão alarmante como por vezes parece. O ataque bem-sucedido a alvos marítimos iranianos com munições terrestres norte-americanas, durante a recente Operação Epic Fury, mostra que os mísseis e outras munições dos EUA continuam a oferecer precisão letal, mesmo em teatros de emprego novos.
Operações recentes
Com a administração Trump a colocar a geopolítica global no centro da agenda, as forças armadas norte-americanas têm-se mantido num ritmo elevado - para dizer o mínimo. Uma revisão rápida ajuda a contextualizar: em junho de 2025, o Exército dos EUA e as Forças de Defesa de Israel participaram numa guerra de 12 dias contra o Irão. Em janeiro passado, militares norte-americanos conduziram a Operação Absolute Resolve, que conseguiu extrair com sucesso o presidente Nicolás Maduro da Venezuela. Um mês depois, em fevereiro, a administração Trump deu início a uma nova guerra contra o Irão através da Operação Epic Fury.
Em paralelo, no hemisfério ocidental, prossegue a Operação Southern Spear, orientada para travar o narcotráfico da América do Sul para os Estados Unidos. De acordo com algumas notícias da imprensa norte-americana, Trump terá também pedido ao Pentágono que elabore planos para uma operação militar em Cuba. Ao mesmo tempo, é plausível que existam outras missões com maior componente de sigilo, enquanto as forças treinam para o cenário mais extremo: um confronto com a Rússia ou a China em ambientes diversos.
Perante esta presença e actividade militar global em crescimento, a resposta da administração Trump tem passado por aumentar o orçamento da defesa e por atribuir novos contratos à indústria de defesa norte-americana para fabricar novas plataformas (sobretudo navios de guerra, aeronaves, submarinos e até, possivelmente, um couraçado), desenvolver novas tecnologias (o mercado de plataformas não tripuladas está claramente em expansão) e, igualmente, reforçar as reservas de mísseis e de outras munições.
À medida que a guerra no Irão deixou de ser medida em horas e passou a dias, e depois a semanas, ganharam força preocupações, compreensíveis, de que os stocks norte-americanos estivessem a ser consumidos a grande velocidade. O motivo seria o emprego de milhares de mísseis e munições contra alvos em todo o Irão a partir de aeronaves, navios de guerra e sistemas de artilharia, somado ao uso de mísseis e outras munições para interceptar mísseis, foguetes e drones de ataque iranianos.
A indústria de defesa norte-americana reage
Ainda antes da divulgação - no final de abril - do Orçamento de Defesa 2026, já tinham sido feitos vários anúncios de acordos e adjudicações a diferentes empresas de defesa, com foco particular em mísseis. Por exemplo, o final de março foi especialmente movimentado, com três grandes contratos anunciados. Em primeiro lugar, o Departamento de Guerra (DoW) e a Lockheed Martin apresentaram um novo acordo-quadro para acelerar a produção do Precision Strike Missile (PrSM). “Ao abrigo do acordo, a Lockheed Martin fará investimentos específicos em ferramentas avançadas, modernização de instalações e equipamentos de teste críticos para reduzir drasticamente os tempos de produção”, explicou então o DoW.
Em simultâneo, o DoW comunicou uma parceria semelhante com a Honeywell Aerospace para “aumentar a produção de componentes críticos para as reservas de munições dos Estados Unidos, incluindo sistemas de navegação”, através de um investimento plurianual de 500 milhões de dólares, que permitirá à Honeywell “modernizar e expandir a sua capacidade de fabrico”.
O terceiro anúncio foi um novo acordo entre o DoW, a BAE Systems e a Lockheed Martin para quadruplicar a produção de buscadores para o interceptor THAAD (Terminal High Altitude Area Defense). O Departamento esclareceu que, “ao assegurar a base industrial do buscador do míssil”, o DoW “está a ir além de acordos com contratantes principais e a envolver-se activamente” no “renascimento da capacidade industrial de defesa dos Estados Unidos”.
Mais recentemente, no início de abril, o DoW divulgou um quarto contrato, desta vez com a Boeing e a Lockheed Martin, com o objectivo de triplicar “a capacidade de produção de buscadores para o míssil Patriot Advanced Capability-3 (PAC-3) Missile Segment Enhancement (MSE)”. Trata-se de um acordo de sete anos com a Boeing. No seu conjunto, estes quatro anúncios inserem-se na estratégia mais ampla de Transformação de Aquisições do Departamento e no trabalho do Conselho de Aceleração de Munições.
A prioridade é produzir
O que foi descrito acima ilustra que a segunda administração Trump tem sido marcada por duas tendências: mais operações militares em várias regiões do globo e um esforço para acumular equipamento e diferentes tipos de munições. Os contratos recentes são impulsionados pela Ordem Executiva (EO) de janeiro de 2026, que afirmava: “embora os Estados Unidos produzam o melhor equipamento militar do mundo, não o fabricam em quantidade suficiente nem com a rapidez necessária para satisfazer as necessidades das nossas forças armadas e dos nossos parceiros”. A EO estipula ainda que “os principais contratantes de defesa deixarão de fazer recompras de acções ou de distribuir dividendos à custa de acelerar aquisições e aumentar a capacidade de produção” (as recompras acontecem quando uma empresa volta a adquirir as suas próprias acções no mercado, elevando os ganhos dos investidores).
Uma análise do Instituto Naval dos EUA sobre a ordem executiva de janeiro acrescenta que esta orienta o secretário da Defesa, Pete Hegseth, a “iniciar revisões periódicas para identificar que empresas de defesa têm baixo desempenho, não produzem equipamento ou sistemas com a rapidez suficiente ou não se focam o suficiente no trabalho governamental”.
Importa notar que a ordem executiva não surgiu isolada. Tão recentemente quanto o início de março, o presidente Trump reuniu-se com líderes de grandes empresas de defesa - incluindo a L3Harris, a Lockheed Martin e a RTX - para discutir como repor rapidamente e expandir as reservas de munições dos EUA, bem como substituir as armas utilizadas na guerra contra o Irão. Além disso, dados de fontes abertas apontam para um aumento do fabrico de munições antinavio baseadas em terra.
Mísseis e outras munições: a atingir qualquer alvo
A notícia positiva para as forças armadas norte-americanas - e também para aliados e parceiros que compram tecnologia de defesa de origem norte-americana - é que a indústria de defesa dos EUA continua a entregar equipamento altamente eficaz e letal. Estes sistemas não só são desdobrados, como também já foram postos à prova em combate.
Um exemplo é o Precision Strike Missile (PrSM), que oferece um alcance superior ao do seu antecessor, o Army Tactical Missile System (ATACMS). Este sistema estreou-se na recente guerra no Irão, quando foi lançado a partir de sistemas M142 HIMARS. O PrSM entrou ao serviço há relativamente pouco tempo, sensivelmente há dois anos.
De acordo com o US Army Pacific, durante o exercício Valiant Shield 24 Combined Joint Sink Exercise (SINKEX), em junho de 2024, uma Força-Tarefa Multidomínio e um regimento de artilharia da Guarda Nacional do Tennessee empregaram com sucesso o lançador autónomo multidomínio (AML) e o PrSM contra um alvo marítimo. O VS24 SINKEX assinalou igualmente a primeira vez que o AML e o PrSM foram desdobrados fora dos Estados Unidos, concretamente na Micronésia.
O míssil balístico PrSM não só já foi testado em combate, como deverá ver as suas capacidades e o seu alcance aumentarem. A variante base, designada Incremento 1, consegue atingir alvos a pelo menos 500 quilómetros graças às suas capacidades GPS. O Exército dos EUA espera que versões futuras alcancem cerca de 650 quilómetros e até 1.000 quilómetros. Quanto maior for a distância, maior será a segurança das tropas norte-americanas face ao fogo inimigo.
Além disso, a elevada velocidade do PrSM - em particular na fase terminal do voo - torna-o especialmente adequado para alvos sensíveis ao tempo, como lançadores de mísseis e sistemas de defesa aérea iranianos. Quanto mais depressa um míssil se desloca, mais difícil é para o adversário neutralizá-lo, sobretudo quando dispõe de capacidades de defesa aérea limitadas, como acontece com o Irão. A integração de capacidades marítimas aumenta ainda a sua versatilidade e utilidade para comandantes no terreno.
Outros sistemas relevantes empregues durante a Operação Epic Fury incluem os mísseis interceptores Patriot, os sistemas antímissil THAAD e o drone de ataque unidireccional LUCAS. Como já foi referido, durante essa operação, uma munição terrestre não especificada do Exército norte-americano atingiu com sucesso navios da Marinha iraniana.
O general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto, sintetizou a situação das reservas ao dizer à imprensa: “temos munições de precisão suficientes para a missão em curso, tanto no domínio ofensivo como defensivo”.
Perspectivas para o futuro
No momento em que este texto é redigido, não é claro se a guerra entre os Estados Unidos e o Irão será retomada. O presidente Trump pediu um novo cessar-fogo por várias semanas, mas o estado das negociações permanece incerto: avançam lentamente ou estão paradas.
É uma preocupação legítima assegurar que as forças armadas norte-americanas dispõem de reservas suficientes de mísseis e de outras munições para que, caso surja um novo conflito com o Irão ou com outro concorrente, possam actuar de forma eficaz. O novo orçamento da defesa, as recentes ordens executivas e os contratos com as grandes empresas do sector existem precisamente para evitar que essa capacidade fique comprometida.
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