Durante 125 anos, o “sorriso” da aranha de cara sorridente pareceu pertencer exclusivamente ao Havai. Ao longo de décadas, investigadores tentaram perceber como uma aranha num arquipélago remoto conseguia exibir dezenas de “rostos” com padrões diferentes - e, ainda assim, mantê-los estáveis ao longo de sucessivas gerações. Nada indicava que esse mesmo rosto pudesse existir noutro lugar.
Até que chegou uma fotografia vinda de uma floresta montanhosa no norte da Índia. Debaixo de uma folha, via-se uma aranha pequena e amarela. E parecia estar a sorrir.
Um achado acidental
Uma equipa do Forest Research Institute (FRI), em Dehradun, na Índia, partiu para fazer um levantamento de formigas nas florestas de altitude de Uttarakhand. As formigas eram o foco do trabalho. As aranhas surgiram como curiosidade paralela.
O investigador Ashirwad Tripathy foi registando, uma após outra, aranhas desconhecidas encontradas nas florestas do Himalaia Ocidental e enviando as imagens a Devi Priyadarshini, cientista no Regional Museum of Natural History, em Bhubaneswar. Mês após mês.
Uma das fotografias, de Outubro de 2023, fê-la parar. A aranha estava abrigada sob uma folha larga e parecia, de forma inquietantemente semelhante, com Theridion grallator, a espécie emblemática do Havai que ela estudara em tempos de estudante. “Fiquei paralisada em choque”, disse.
Muitas faces, uma só espécie
Com o tempo, a equipa reuniu provas de 32 variações de cor distintas em três locais de recolha em Uttarakhand. Algumas eram de um amarelo uniforme. Outras exibiam manchas vermelhas, anéis negros ou traços brancos que, alinhados, criavam um desenho facilmente interpretado como um rosto.
Os padrões aparecem em ambos os sexos, e o polimorfismo de cor - a coexistência de várias formas cromáticas bem definidas dentro da mesma espécie - atravessa toda a população. A presença de dezenas de formas estáveis numa única espécie é pouco comum em aranhas e, de um modo geral, rara no reino animal.
Nos três locais, as aranhas escondiam-se sob folhas largas e mantinham-se penduradas de cabeça para baixo em teias soltas - exactamente a mesma postura observada nos seus equivalentes havaianos, a milhares de quilómetros para leste.
Primas, não cópias
Quando os investigadores compararam o ADN das aranhas do Himalaia com amostras de T. grallator, a distância genética ficou em cerca de 8 por cento. Um valor suficiente para assinalar uma linhagem distinta. Não se tratava de uma introdução vinda do Havai. Nem de uma separação recente.
Um artigo anterior mostrou que, no Havai, os morfos se mantêm consistentes entre populações e ao longo do tempo, com frequências que permanecem estáveis de geração em geração. Se a população do Himalaia apresenta a mesma estabilidade ainda é uma incógnita.
A análise de ADN posicionou T. himalayana num ramo próprio, separado tanto dos seus parentes asiáticos como dos norte-americanos dentro da mesma família de aranhas. Um ramo isolado na árvore genealógica - a ostentar o mesmo “rosto” que as havaianas exibem há mais de um século.
O enigma do gengibre
Mais estranho ainda é o local onde a aranha parece preferir viver. A equipa no Himalaia encontrou-a repetidamente em plantas de gengibre do género Hedychium. A aranha de cara sorridente do Havai também se agarra a Hedychium.
Há, porém, um problema: o gengibre não é nativo do Havai. As plantas foram levadas para lá por humanos, o que significa que a aranha havaiana só pode ter começado a usá-las depois da sua introdução. No Himalaia, pelo contrário, essas plantas sempre lá estiveram.
Se esta ligação é mera coincidência, se reflecte uma preferência antiga transportada entre continentes, ou se há algo nas folhas de gengibre que favorece uma pequena teia montada de cabeça para baixo, ninguém sabe ainda.
Porquê o rosto
A grande pergunta continua a ser a função destes padrões “sorridentes”. As explicações habituais incluem baralhar predadores ou quebrar o contorno do corpo da aranha contra o fundo de uma folha. É provável que exista alguma vantagem de sobrevivência, mas os detalhes permanecem em aberto.
Priyadarshini acredita que os desenhos terão um papel real no ambiente natural. No entanto, qual é exactamente esse papel ao longo do ciclo de vida da aranha continua por esclarecer. Para ela, trata-se de um mistério genético à espera de ser desvendado.
Na mesma floresta, outros organismos que vivem nas folhas apresentam manchas cromáticas semelhantes - o que sugere a existência de um factor local. Talvez uma resposta partilhada ao mesmo predador. Ou uma estratégia comum para se tornarem invisíveis na mesma copa.
Uma prima mais velha
A equipa avançou ainda com outra hipótese intrigante: T. himalayana poderá ser a linhagem mais antiga, e a espécie do Havai um ramo derivado - apesar de a ciência ter conhecido a havaiana há 125 anos e a himalaia apenas este ano.
Uma análise recente de aranhas polimórficas relacionadas na América do Sul sugeriu que o aspecto de “cara sorridente” pode ter evoluído mais do que uma vez dentro desta família. Se assim for, ambas as linhagens poderão estar a executar programas genéticos semelhantes em lados opostos do planeta, de forma independente.
Qualquer um destes cenários exige trabalho de campo muito além do que foi feito até agora: mais cordilheiras, mais folhas, mais horas sob a copa com uma câmara.
O que isto abre
Até este ano, o aspecto de aranha de cara sorridente era tratado como um endemismo havaiano. Essa suposição deixa de ser sustentável. A Índia alberga pelo menos uma população de aranhas Theridion polimórficas, com 32 morfos já documentados - e é provável que existam mais por descobrir.
A descoberta altera um pequeno capítulo da geografia evolutiva. E oferece aos biólogos um segundo laboratório natural para estudar como padrões de cor complexos surgem e como se mantêm estáveis ao longo de gerações em animais que vivem sobre folhas.
Um estudo comparativo dos genes de pigmentação subjacentes, analisando as duas espécies lado a lado, poderá finalmente esclarecer se ambas “construem” o mesmo rosto através da mesma via biológica.
“Se T. himalayana for uma prima mais velha de T. grallator, embora descoberta 125 anos mais tarde”, disse Priyadarshini. A resposta - acrescentou - poderá passar pelas plantas de gengibre que ambas as espécies parecem preferir.
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