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André Ventura, a polícia e a moda do crime na esquadra do Rato

Homem a vestir uniforme policial em corredor com dois polícias ao fundo a conversar.

A pergunta invertida sobre roupa e criminalidade

Por vezes, depois de um crime, há quem tenha uma reacção desconcertante e questione: afinal, o que é que a vítima trazia vestido? Como se certas peças de roupa tivessem a capacidade de “provocar” o agressor e, por essa via, lhe oferecessem uma espécie de atenuante para o que fez. André Ventura, porém, acaba de dar um passo original ao colocar a questão ao contrário: e o que é que o criminoso vestia? Se, por acaso, era uma farda da polícia, então talvez o crime deixe de ser bem um crime.

André Ventura e o caso da esquadra do Rato

Fica, assim, mais um ângulo curioso sobre a relação entre moda e prática criminosa. A propósito das denúncias de tortura cometida por agentes na esquadra do Rato, Ventura adoptou uma atitude de grande humildade. Tendo ele vindo a avisar para o crescimento da insegurança em Portugal, este episódio parece confirmar que o problema existe mesmo - ao ponto de, ao que tudo indica, nem dentro de uma esquadra os cidadãos estarem necessariamente protegidos de criminosos.

Em vez de sublinhar esse dado e de pendurar um cartaz com a frase “os polícias têm de cumprir a lei”, limitou-se a fazer declarações breves e seguiu caminho para identificar outras bandalheiras. Com uma bandalheira tão apetecível à mão, escolheu, ainda assim, não se deter nela e continuar em frente. Talvez tenha receado que, se desse demasiada importância ao caso, acabasse por municiar quem insiste que a violência policial não é apenas uma percepção. Ventura sabe bem que percepções são uma coisa e dados concretos são outra.

Camisas, fardas e o silêncio

Para mais, de um momento para o outro, veio a público que um dos polícias detidos era cigano - e, sobre isso, Ventura não proferiu uma única palavra. Podia ter explorado essa circunstância, mas decidiu não o fazer, o que faz supor mais uma ponte entre moda e crime: quando um cigano enverga camisa preta é um bandido; quando veste camisa azul, passa a ser um português de bem.

Além do mais, o presidente do Chega atacou Luís Neves, afirmando que, com a sua actuação, o ministro da Administração Interna estava “a dar a entender que todo o comportamento da polícia é desviante, que os agentes, homens e mulheres na sua maioria, são criminosos ou tendencialmente criminosos”, contribuindo assim para “o aumento do sentimento antipolícia que existe em Portugal”. Foi aí que Ventura reconheceu que generalizar sobre um grupo inteiro por causa das atitudes de alguns dos seus membros é uma prática perigosa e injusta. E, sobre este ponto, a comunicação social fez o silêncio do costume.

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia

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