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Alexandre Soares dos Santos, a IA e o desafio do Trabalho XXI

Funcionário do supermercado Pingo Doce sentado a pensar, com caderno aberto e caneca numa mesa, robôs ao fundo.

A decisão dos mil euros no Jerónimo Martins/Pingo Doce

No fim da sua vida, Alexandre Soares dos Santos deixou expresso um objetivo claro: não queria que existisse um único trabalhador a ganhar menos de mil euros por mês. Naquele momento, o salário mínimo estava muito distante dos atuais 920 euros, o que tornava essa opção particularmente onerosa para as contas do grupo Jerónimo Martins/Pingo Doce, com impacto direto na rentabilidade. Ainda assim, mesmo perante incertezas e algumas resistências internas, a decisão avançou e foi implementada sem sobressaltos relevantes. Soares dos Santos defendia que a motivação e a qualificação das pessoas são o fator decisivo para o êxito de uma empresa - convicção que o levou a recorrer a alguns dos consultores mais reputados do mundo nesta área. Creio que alguns continuam por lá.

IA, robótica e transformação do mercado de trabalho

Passaram alguns anos e a realidade tem vindo a confirmar que Soares dos Santos não estava enganado. Por motivos demográficos e tecnológicos, a competição por melhores quadros e por trabalhadores mais qualificados e motivados tem crescido de forma contínua. E tende a acelerar. A inteligência artificial (IA), combinada com a robótica, está a provocar uma das maiores revoluções de sempre no mercado de trabalho, trazendo riscos e desafios sem precedentes. Uma sondagem recente realizada nos Estados Unidos indica que 30% dos inquiridos acreditam que o seu emprego se tornará obsoleto devido à IA. Ainda assim, vários estudos publicados nos últimos tempos - OCDE, FMI, entre outros - apontam que o problema central não é tanto a eliminação, mas sim a transformação dos empregos. Alguns dos patrões da IA já dão como inevitáveis mudanças como a semana de 32 horas ou de quatro dias, entre muitas outras alterações.

Trabalho XXI e um diálogo que não acontece

Patrões, sindicatos e Governo deveriam estar a discutir esta nova realidade, da qual dependem a competitividade e a produtividade da economia portuguesa. Deveriam - mas não estão. Passaram nove meses a negociar o “pacote laboral” para acabarem presos em seis medidas que, em pouco tempo, não resistirão às necessidades efetivas das empresas nem aos interesses reais dos trabalhadores. Não faz sentido impor rigidez laboral numa economia que exige flexibilidade. Veja-se a Agenda do Trabalho Digno, bandeira da ‘geringonça’: na prática, resultou em mais precariedade, não no contrário. A flexibilidade só se torna um risco para o trabalhador quando o Estado falha no seu dever de garantir segurança.

O pacote do Governo tem o nome de Trabalho XXI, mas as conversas fizeram-se num ambiente laboral do século XX. Repetiram-se os mesmos argumentos, os mesmos truques e as mesmas agendas partidárias. Tudo isso surgirá, no seu máximo esplendor e demagogia, quando o pacote entrar no Parlamento para o seu enterro final. É aqui que faz sentido recuperar o exemplo de Alexandre Soares dos Santos, que felizmente não é caso único. Isto é: é possível escolher olhar em frente, e não para trás. É possível acompanhar a mudança sem ficar pelo caminho. E é possível acreditar que empresários e trabalhadores serão capazes de se entender, defendendo empresas modernas e competitivas, assentes na dignidade laboral e na qualificação dos trabalhadores.

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