O céu de Valmiera e o ruído da guerra
Na segunda-feira, 11 de maio, quando saí do hotel, encontrei um cenário pouco habitual: várias pessoas, no passeio à minha frente, tinham parado e fitavam o céu. Olhavam todas para cima em simultâneo, com uma coordenação que lembrava um ritual improvisado. Sobre nós, um estrondo ensurdecedor cortava o azul limpo de Valmiera e, por trás, ficava apenas o rasto pálido de um avião militar - rápido demais para eu perceber que modelo era. Ouvi comentários entre desconhecidos, mas, entre o barulho excessivo e a língua que eu não dominava, não consegui apanhar o sentido das frases.
Eu já estava atrasado para a sessão em que ia apresentar conclusões de um estudo sobre a realidade da política cultural em Portugal em contextos rurais. A inquietação estampada nos rostos, apontada ao céu, despertou-me curiosidade, mas não o suficiente para me fazer parar. Segui caminho ao longo do rio Gauja, brilhante sob o sol do meio-dia. Quando cheguei, a porta da faculdade abriu-se, apresentei os resultados da investigação e, mal a sessão terminou, dirigi-me à cafetaria.
Sentado perto da máquina de café, acabei por ouvir uma académica local - percebi pela conversa que vivia em Estocolmo - a explicar, a um pequeno grupo de docentes estrangeiros, a demissão do ministro da Defesa da Letónia. Segundo ela, no dia anterior, drones ucranianos teriam sido desviados pela defesa russa em direcção à Letónia, acabando por embater em infraestruturas energéticas no leste do país. O impacto político desse episódio foi imediato: a queda do ministro da Defesa e, em seguida, a renúncia da primeira-ministra, Evika Silina.
A académica insistia que, no presente, a prioridade absoluta é a segurança perante o risco de avanço russo. Numa ameaça que ela descrevia como existencial, o facto de drones terem entrado com tanta facilidade no espaço aéreo de um Estado báltico e terem danificado estruturas críticas era, por si só, razão suficiente para a demissão. Para ela, o incidente expôs a incompetência do governo no domínio da defesa.
Entre frases cordiais, apontava também o dedo aos governos dos países de origem dos restantes académicos - em grande parte do sul da Europa - por, na sua leitura, não valorizarem o suficiente a segurança dos Estados do Báltico. Falava com gestos largos, desenhando no ar fronteiras imaginárias: o Báltico como linha de contenção de um possível avanço russo, disposto a sacrificar-se para evitar que a guerra chegue à Europa “dos grandes”.
Na conferência: cultura e segurança no Báltico
Percebi depressa que uma conferência dedicada à política cultural estava, pouco a pouco, a ganhar uma segunda conversa paralela, que se espalhava pelos corredores durante as pausas para café. Para mim, o foco era cultura; para búlgaros, letões, lituanos e estónios, o debate ia muito além disso.
Houve várias apresentações desses países a sublinhar o papel das indústrias criativas em zonas fronteiriças no leste dos seus territórios. A lógica, repetida em diferentes intervenções, passava por prevenir e proteger regiões que podem vir a perder património perante uma acção beligerante e maximalista do Kremlin. Em simultâneo, falava-se das indústrias criativas como pólo de atracção para jovens, numa tentativa de contrariar a desertificação que estas regiões - ameaçadas de forma indirecta pelo conflito - vêm sentindo desde 2022.
Museu de Valmiera, cidade tranquila e regresso a Riga
A minha passagem pela conferência encerrou com uma visita ao museu de Valmiera. O edifício foi reconstruído em 2023 com financiamento europeu e acolhe várias exposições temáticas que exploram a ligação de Valmiera e Riga à Europa desde os tempos da liga hanseática. A guia contou-me que, quando venceram a candidatura a fundos europeus, em 2015, deram início a um processo de consulta pública junto da comunidade local - uma forma de integrar a população numa história que o museu queria manter viva.
Entre as decisões com maior consenso esteve a tradução das placas informativas, ao lado das peças expostas, para 5 línguas. A guia explicou, porém, que hoje se arrepende dessa opção. Se a consulta tivesse terminado depois de 2022, dizia ela, o russo não faria parte das línguas oficiais do museu. O que antes era apresentado como motivo de orgulho pela diversidade museológica transformou-se, aos olhos de muitos, num elemento de humilhação: como se aquelas placas em russo fossem um abrir de portas ao inimigo.
Ainda antes de me ir embora, o presidente da câmara de Valmiera juntou-nos numa sala para um pequeno concerto, intimista, com uma artista local. Enquanto decorria, falava-nos de índices de felicidade muito elevados e pedia que divulgássemos a cidade a amigos e familiares à procura de um lugar para construir família. Pela forma como fui recebido e pela maneira como o rio corre - com um caudal mais calmo do que eu esperava - percebi a ideia: Valmiera parece ter tudo. É uma cidade sossegada e jovem, quase como se tivesse guardado a história dentro do museu, e como se as ruas modernas ignorassem o passado longo e caótico de conquistas e reconquistas, marcado pelo império russo e por alianças militares do norte da Europa.
Faltava-me regressar ao aeroporto, em Riga. Foram duas horas de viagem em que eu e o motorista percebemos, com uma certa resignação, que a barreira linguística não nos deixaria ir além de uma conversa curta sem cair num silêncio desconfortável para ambos. Já perto do terminal, ganhou coragem e perguntou-me o que fazia. Respondi que dava aulas de Relações Internacionais. Em seguida, quis saber a minha opinião sobre o apoio português às investidas americanas no Irão e sobre a falta de atenção dos parceiros europeus ao flanco leste. Não respondi: não sabia o que dizer, nem como o dizer.
Quanto ao novo governo, comentava-se que pouco pode fazer além de reforçar e reiterar o papel da Letónia na NATO. Falava-se de espiões russos muito infiltrados na sociedade letã, aliciados diariamente por via digital, e de como, nesse contexto, se torna impossível impedir que os danos colaterais do conflito cheguem aos bálticos. E repetia-se uma ideia com peso histórico: a força da Letónia ao longo dos séculos estaria incrustada num espírito letão de resistência, um espírito que garantem ser mais europeu do que soviético.
Todos estes diálogos surgiam acompanhados por um sorriso irónico dos intervenientes. Um sorriso de quem se sente europeu, mas aprende a ser prudente, embalado pela memória da volatilidade das fronteiras e convencido de que a modéstia do desfile militar do Dia da Vitória não anuncia o fim da guerra - anuncia, isso sim, a aposta na continuação do conflito por outros meios.
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