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Cinema, Europa e Rive Gauche: de Paris a “The Outsiders” de Coppola

Jovem sentado numa sala de cinema vazia a ler o livro "The Outsider" durante a projeção de um filme.

O cinema como escola europeia

O cinema era, para mim, um verdadeiro deslumbramento. Ainda me vejo a chegar a Paris e a enfiar-me num daqueles minúsculos cinemas da Rive Gauche, decidido a passar o dia inteiro entre clássicos e ciclos de filmes que nunca entravam no circuito comercial. A par das Cinematecas - e a Cinemateca de Lisboa, sob a direção do João Bénard da Costa, aproximava-se do que considero a perfeição -, as salas da margem esquerda davam-nos uma aprendizagem estética e, por vezes, também filosófica.

Nesses ecrãs desfilavam os clássicos maiores do cinema europeu: o italiano, o francês, o alemão, o nórdico (o sueco de Bergman) e, igualmente, o grande cinema russo. A Europa, antes de se reduzir a uma união comercial e hoje a uma entidade de contornos pseudomilitares, começou por ser, acima de tudo, uma união cultural. Nos primórdios, a CEE e o mercado comum apostavam numa ideia de cultura europeia: uma identidade partilhada assente na diversidade e na riqueza de cada país. Investiu-se muito dinheiro nessa visão, que reunia, ao longo de um ano, pessoas de vários países europeus para discutirem ideias.

O projecto cultural europeu e a sua erosão

A hegemonia cultural americana já se fazia sentir, sobretudo no entretenimento; ainda assim, a Europa enquanto projecto cultural conjunto tinha identidade e força intelectual. Isso, entretanto, extinguiu-se. A Europa da União Europeia transformou-se num conjunto triste de burocracias e numa liderança pela inoperância, convenientemente disfarçada sob a capa da liberdade de expressão.

Ao contrário do que hoje poderia parecer pela forma como se descreve, esse projecto cultural europeu não era nem maçador nem uma imposição. Escritores, cineastas, artistas, encenadores e dramaturgos, jornalistas e críticos juntavam-se com frequência para afinar ideias. Os países e os fundos europeus financiavam esses encontros, que eram criativos e produziam resultados e colaborações reais.

Circulava-se entre Dublin e Florença, entre Berlim e Paris, aprendendo a pensar a Europa como continente: uma linguagem e uma história cultural que reclamavam identidade própria. Uma identidade distinta da americana, sem proteccionismos e, muito menos, obcecada com cancelamentos. Pelo contrário: acolhia-se toda a gente. As diferenças ideológicas não travavam as trocas intelectuais. Era esse o ponto - embora a palavra “intelectual” tenha hoje uma ressonância pejorativa.

Tecnologia, redes e a capitis diminutio maxima

Quem vive este tempo histórico - dominado pela tecnologia e por uma civilização digital que não deixará traços, vazia de pensamento e corrompida pela vulgaridade na acção - percebe bem o grau zero a que chegámos. Basta ouvir as proclamações de Trump e companhia, como ejaculações oraculares que ainda temos de comentar e interpretar, para sentir a diminuição mental e intelectual que este momento nos impõe.

Passámos de comentar e pensar Milan Kundera e Brecht, Hermann Hesse e Kafka, Thomas Mann e Nietzsche, Goethe e Günter Grass, para nos vermos a discutir funcionários políticos como Merz ou Macron (ainda o melhor de todos, pelo menos o mais culto), Farage ou Marine Le Pen, Sánchez ou Zelensky. Ou Putin e Trump.

A situação histórica actual da Europa, em estado de pré-rutura, deve muito à capitis diminutio maxima que nos faz escravos da tecnologia - e ao fim do pensamento como livre expressão individual e colectiva.

As redes e a comunicação directa e imediata, sem filtro, onde qualquer pessoa pode intervir e cuspir cupidez e estupidez, anularam o esforço mental enquanto actividade “improdutiva”. Hoje, todo o bicho-careta escreve romances e presume-se artista.

A sala escura, o ritual e a cultura do remake

In illo tempore, passando ao cinema: ver um filme era um acto sagrado. Não se tratava de mero entretenimento; era um acesso a um reino de luz e sombra, onde deslizavam personagens e histórias imortais. Na cultura da réplica e do remake, dou por mim a adormecer ou a sair a meio.

“O Diabo Veste Prada” tornou-se um acontecimento cultural relevante e, no entanto, não passa de uma passagem de modelos e de um spot publicitário - o cinema posto ao serviço da indústria da moda, para vender trapos. É assim que vivemos. E quando a Rússia invadiu a Ucrânia, Dostoievski foi cancelado, numa confusão total entre cultura e política, entre ditadura e literatura.

Ainda sobrevivem alguns desses cinemas da Rive Gauche, verdadeiros museus onde o cinema continua vivo, com a mesma força. Dois - o Christine Cinéma Club e o Écoles Cinema Club - pertencem a Isabelle Huppert e ao marido, Ronald Chammah (e aqui talvez eu tivesse de apresentar Huppert chamando-lhe “atriz” sem c mudo, como se faz agora, para espalhar a boa nova e “informar”). Eles nunca desistiram dessas salinhas onde ainda podemos ver, na nobreza do grande ecrã, coisas que nem o streaming entrega.

O ritual de ir ao cinema permanece intacto. Nada se compara à magia de uma sala escura - mas não para ver o lixo que hoje empurram como cinema contemporâneo e oscarizado.

Coppola, “Os Marginais” e a adolescência (coming of age)

De quando em quando, na televisão e no cabo, ainda tropeçamos numa obra-prima. Assim reaparecem “American Gigolo”, de Paul Schrader, e “Os Marginais”, “The Outsiders”, de Francis Ford Coppola.

“The Outsiders” emparelha com outra obra-prima de Coppola, “Rumble Fish”, cujo título em português nem sei. O prodigioso ogre filmava “The Outsiders” ao mesmo tempo que ia escrevendo “Rumble Fish”; ambos assentam em novelas de uma escritora então desconhecida na Europa, S. E. Hinton. São dois filmes - e dois livros - sobre a adolescência no exacto momento em que atravessa para a idade adulta, coming of age. Só existe tradução para português de “Os Marginais”.

“The Outsiders” é de 1983 e acompanha dois gangues, os Socs (Socials) e os Greasers, algures pelos anos 60. No fundo, é uma história de luta de classes mascarada pelas paixões e dúvidas existenciais da adolescência, cobertas por um impulso para a violência. É também sobre orfandade e deriva, rivalidade e honra perdida.

A música é de Carmine Coppola, pai de Francis, vocalizada por Stevie Wonder. A canção ‘Stay Gold’ fala da intemporalidade daquele instante fugaz em que a inocência da infância ainda não se perdeu por completo. E o elenco é um embrião de futuras estrelas de Hollywood: jovens, miúdos, ainda antes da vertigem da descoberta. Tudo iluminado e desenhado por Dean Tavoularis.

Tom Cruise, Ralph Macchio (o Karate Kid), Rob Lowe, Emilio Estevez, Matt Dillon, C. Thomas Howell (o mais comovente) e Diane Lane, actriz fetiche de Coppola. Estão todos muito novos: Cruise cinético e hiperactivo, anterior aos embelezamentos plásticos; Dillon e Lowe como exemplos de beleza sem mácula. Lowe, o mais bonito de todos, desembarcaria em Manhattan logo a seguir, subiria na carreira e deixaria toda a Factory de Andy Warhol - e o círculo boémio em volta - em êxtase estético.

Rob Lowe era visceralmente belo, e foi Coppola o primeiro a perceber essa beleza. E a dos outros adolescentes. Tal como Visconti, tinha um olho clínico.

A América desses filmes, o estúdio e a Europa

O filme é uma tragédia, como tantos filmes de Coppola, contada com os olhos lavados pelo génio. Incompreendido, refutado, dissecado à lupa, arruinado pelo cinema: o grande Coppola aos 40 anos. “Rumble Fish” e “The Outsiders” acabaram por se tornar dois filmes de culto; mas o primeiro foi um desastre de bilheteira e o segundo um sucesso modesto.

Mickey Rourke, Nicolas Cage, Dennis Hopper, Sofia Coppola e Tom Waits aparecem por lá, em entradas bruscas e inesquecíveis. E Coppola já tinha feito “O Padrinho”, onde recrutara um novato desconhecido dos palcos para o papel principal: o grande Al Pacino.

E, no entanto, o estúdio obrigou-o a fazer uma audição para Marlon Brando, como se Brando - vindo de Elia Kazan e de obras-primas no cinema e no teatro - precisasse de currículo. Brando fez a audição, em casa, e mastigou papel para criar Don Corleone.

Esta América - a destes filmes e de tantas criações cinematográficas dos anos 80 e 90, que desembocaram no que é provavelmente o último génio do cinema americano, Quentin Tarantino (Paul Thomas Anderson é bom, mas não tão bom) - nunca colidiu com a cultura europeia. Coppola é descendente de italianos e é reverenciado na Europa. Truffaut aparece, por gosto, em “Encontros Imediatos do Terceiro Grau”, de Spielberg. Woody Allen é devoto do cinema europeu, de Bergman e Fellini. E por aí fora.

Nessas décadas de ouro, ir ao cinema era como comungar numa missa onde conhecíamos toda a gente. Hoje, muitos desses filmes podem ver-se, a pagar, nos streamers, ou no cabo, como “The Outsiders” (que passou de manhãzinha, uma hora estranha para um filme destes) - mas não é, nunca é, a mesma coisa.

Os espectadores acham vantagem poder parar, espreitar o telemóvel, ir ao Google, abrir o frigorífico; enfim, desrespeitar o ritual, substituindo-o pelas distracções múltiplas que a tecnologia e a casa disponibilizam.

Certos filmes e certos autores continuam difíceis de apanhar. Quando vou a Paris, enfio-me na rua Christine ou na Rue des Écoles, os velhos Action Christine e Action Écoles, onde vi Rosselini e Tarkovski, Joseph Losey e Fellini, Antonioni e Fassbinder, Buñuel e Pasolini, Wenders e Visconti. Fico por aqui; muitos mais poderiam ser citados.

Livros que desaparecem e a ignorância em vitrina

E nas livrarias, se hoje procurarmos um livro de Jean Genet, só na Pléiade o encontramos. Desapareceu, como tantos escritores europeus. Agora, a ignorância exibe-se com orgulho, como emblema de juventude e frescura. Que prazer ter um livro para ler e não o fazer, disse Pessoa.

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