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Contraceção em Portugal: pílula, DIU e responsabilidade contracetiva - Teresa Bombas no O Prazer é Todo Meu

Médica a explicar métodos contraceptivos a mulher, com modelo de útero e pilhas anticoncecionais na mesa.

A contraceção hormonal foi uma das mudanças médicas e sociais mais marcantes do século XX. Ao dar às mulheres ferramentas para gerir a fertilidade, tornou possível planear a maternidade e decidir com maior liberdade o caminho académico e profissional. Ainda assim, apesar da evolução científica e da variedade de métodos disponíveis, continuam a circular dúvidas, mitos e assimetrias na forma como se distribui a responsabilidade contracetiva.

Em Portugal, o acesso ao Planeamento familiar é universal e gratuito. Há vários métodos de contraceção disponíveis para garantir liberdade, individualidade e segurança na escolha contracetiva - cumprindo-se, assim, um direito humano.

Em paralelo, tem aumentado o interesse por métodos de longa duração, como o dispositivo intrauterino. Ao mesmo tempo, multiplicam-se conversas sobre o impacto da contraceção hormonal na saúde e na sexualidade, levando muitas mulheres a preferirem opções sem hormonas. E, hoje, continuará a fazer sentido que as conversas sobre contraceção estejam centradas nas mulheres? Fará sentido que a prevenção de uma gravidez continue sobretudo focada no ciclo reprodutor feminino?

Numa temporada dedicada à educação sexual que nunca tivemos, falar de contraceção implica admitir que muitas escolhas ainda são feitas com informação incompleta e com receios desajustados.

O episódio com Teresa Bombas no O Prazer é Todo Meu

No podcast O Prazer é Todo Meu, a convidada desta semana é Teresa Bombas, ginecologista-obstetra, membro da Sociedade Portuguesa de Contraceção e Presidente da Sociedade Europeia da Contraceção e Saúde Reprodutiva. Ao longo da conversa, aborda os principais métodos contracetivos, o efeito da pílula na sexualidade, os riscos reais da contraceção hormonal e a desigualdade que se mantém na repartição da responsabilidade contracetiva. E deixa uma ideia central: “a maioria das mulheres está bem com os contracetivos hormonais”.

“A contraceção permitiu às mulheres planear a vida”

Para Teresa Bombas, o alcance da contraceção vai muito além da medicina. “As mulheres puderam planear as suas gestações”, refere, explicando que isso se traduziu em mais tempo para estudar, trabalhar e alcançar independência económica.

A especialista recorda ainda que, nas últimas décadas, a contraceção alterou de forma profunda o papel social das mulheres, ao possibilitar conciliar maternidade, carreira e autonomia individual.

Porque continua a contraceção a ser uma “conversa no feminino”?

Mesmo com a evolução social, a carga da contraceção continua, na prática, a recair sobretudo sobre as mulheres. Do lado masculino, os métodos mais comuns mantêm-se o preservativo e a vasectomia - e ambos enfrentam resistência.

“O preservativo ainda é associado à diminuição do prazer”, reconhece Teresa Bombas, embora considere que essa perceção tem perdido peso, em especial entre os mais jovens.

Quanto à vasectomia, continua cercada de “grandes mitos”. A médica sublinha que é um procedimento simples, feito em ambulatório e sem impacto na performance sexual. Ainda assim, em países mediterrânicos como Portugal, permanece pouco utilizado.

Teresa Bombas nota também que, muitas vezes, são as próprias mulheres que não promovem esta opção junto dos companheiros: “Dizem muitas vezes: ‘e se ele um dia mais tarde quiser ter filhos?’”. Para a ginecologista, esta reação mostra como a contraceção continua, culturalmente, ligada à responsabilidade feminina.

Pílula e DIU: como funcionam e o que muda

Afinal, como funciona a pílula?

A pílula hormonal continua entre os métodos mais usados em Portugal. E, na perspetiva de Teresa Bombas, isso não significa atraso nem falta de inovação científica - significa, sobretudo, preferência.

“Há mulheres para quem essa independência de começar e suspender sem necessidade de recurso médico é importante”, explica.

Do ponto de vista fisiológico, a pílula atua principalmente ao bloquear a ovulação. Em simultâneo, cria um contexto hormonal artificial que pode trazer vantagens adicionais, como melhoria da acne, diminuição das dores menstruais ou controlo do fluxo menstrual.

A especialista diferencia ainda as pílulas combinadas (com estrogénio e progestativo) das formulações apenas com progestativo, esclarecendo que ambas mantêm a mesma eficácia enquanto método contracetivo.

O DIU hormonal e o DIU de cobre são iguais?

No episódio, Teresa Bombas descreve também o que distingue os dispositivos intrauterinos hormonais dos não hormonais.

O Dispositivo Intra-uterino (DIU) de cobre atua ao criar um ambiente inflamatório dentro do útero, interferindo com a progressão dos espermatozoides. Já o DIU hormonal tem ação local, através da libertação de progesterona. Nenhum dos dois bloqueia a ovulação de forma sistemática.

A ginecologista acrescenta que vários mitos ligados ao DIU - como a ideia de que mulheres sem filhos não podem usar - já não têm base. “Isso é mito”, afirma.

Contraceção hormonal e sexualidade

A relação entre pílula e sexualidade continua a ser difícil de estudar, precisamente porque a resposta sexual depende de múltiplos fatores. Ainda assim, Teresa Bombas admite que algumas mulheres relatam alterações no desejo ou na excitação sexual depois de iniciarem contraceção hormonal.

“A maioria das mulheres está bem e não sente impacto na sexualidade. Mas algumas mulheres podem sentir alterações”, explica.

Por essa razão, defende que as consultas de contraceção devem incluir perguntas sobre sexualidade - algo que, no passado, nem sempre era habitual.

Em muitos casos, a resposta pode ser tão simples como ajustar a composição da pílula ou mudar de método. “A contraceção não é vinculativa”, reforça.

Pontos altos da conversa:

  • Qualquer mulher, em qualquer fase, pode mudar a sua escolha. E não é pelo método de contraceção ser gratuito no âmbito do SNS que a vai obrigar a ficar vinculada.”
  • As mulheres são muito pouco promotoras da vasectomia nos seus companheiros. Se queremos igualdade, paridade e equidade de decisões, devemos também delegar e deixar que os homens tenham opinião própria.”
  • “A maioria das mulheres está bem e não sente impacto na sexualidade [causado pela pílula]. Mas algumas mulheres podem sentir alterações”.
  • “Em Portugal temos uma lei moderna e protetora dos direitos reprodutivos, que fazem parte dos direitos humanos”

O que é o podcast O Prazer é Todo Meu

O Prazer é Todo Meu é um podcast sobre saúde sexual, relações e intimidade, criado para promover a literacia em saúde sexual com uma abordagem científica, acessível e empática. Objetivo: desmistificar conceitos, quebrar tabus e incentivar a conversa sobre prazer, consentimento, disfunções sexuais e bem-estar emocional.

Em cada episódio, a médica Mafalda Cruz partilha aquilo que raramente se diz sobre sexo, dor e relacionamentos.

'O Prazer É Todo Meu' inclui convidados especialistas e também histórias reais. Porque todos temos uma sexualidade para explorar sem filtros. Todas as terças-feiras há um novo episódio no Expresso e na sua app de podcasts.

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