Habitação em Portugal: não basta construir mais
A discussão sobre a habitação em Portugal tem-se mantido presa à ideia de que, para aliviar um mercado cada vez mais tensionado pelo desfasamento entre oferta e procura, a resposta é simplesmente aumentar a construção. Ainda assim, torna-se cada vez mais claro que a dificuldade já não se limita ao baixo número de casas nas cidades. O problema também está na forma como a oferta se encontra distribuída e, sobretudo, na falta de capacidade para a cidade crescer de forma funcional para lá dos centros urbanos.
As cidades portuguesas continuam demasiado dependentes dos seus núcleos históricos. É aí que se concentra a maioria dos empregos e dos serviços, mantendo a procura nas zonas onde existe menos margem para expansão. Lisboa é, hoje, um dos retratos mais evidentes desta dinâmica.
Acessibilidades e transportes públicos como motor do crescimento
Para quebrar este ciclo, é indispensável permitir que a cidade se desenvolva para além do seu núcleo tradicional. E, para isso, é essencial encarar as acessibilidades como verdadeiras catalisadoras do desenvolvimento urbano. Nas cidades atuais, a “distância” conta cada vez menos em quilómetros e cada vez mais em tempo. Quando as deslocações deixam de ser um entrave, morar fora do centro deixa de significar uma perda de qualidade de vida. E só uma rede de transportes públicos eficaz possibilita um crescimento urbano mais natural.
O mercado já oferece sinais de como esta lógica pode funcionar. De acordo com o estudo Realty Premium Market 2026, zonas como o Lumiar e Marvila registaram subidas muito expressivas na oferta disponível. O Lumiar aumentou 132%, com mais 327 fogos, enquanto Marvila teve um crescimento de 136%, o equivalente a mais 225 fogos, afirmando-se como uma das novas frentes urbanas da capital.
Escala e comparação com Londres, Paris e Madrid
Ainda assim, estes avanços não chegam: falta escala. Basta olhar para capitais como Londres, Paris ou Madrid para perceber como a mobilidade influencia estruturalmente o seu crescimento. Nessas cidades, viver a 30 ou 40 quilómetros do centro é perfeitamente normal, porque as redes de transportes permitem deslocações rápidas e confortáveis. Isso abre espaço à criação de novos polos urbanos e a um alargamento do centro económico para além dos núcleos centrais.
Costumo usar um exemplo simples: se colocássemos a rede de metro de Londres por cima de Lisboa, teríamos linhas até Mafra. É precisamente este nível de ambição e dimensão que continua a faltar às cidades portuguesas.
Metro de Lisboa: projetos, atrasos e impacto no mercado
Neste enquadramento, o metro torna-se peça-chave. Os planos de expansão do Metro de Lisboa são um sinal encorajador de que esta visão começa a ganhar força. A aposta na Linha Circular, o prolongamento da Linha Vermelha e o projeto da futura Linha Violeta apontam para uma tentativa de reorganizar a cidade através da mobilidade e de reforçar a capacidade de expansão.
O problema é que o ritmo permanece demasiado lento. A conclusão da Linha Circular tem acumulado atrasos e aponta agora para 2027; a expansão da Linha Vermelha continua sem uma data clara para o início das obras; e o avanço da Linha Violeta encontra-se travado por processos burocráticos. O efeito no mercado é direto: enquanto estes projetos não saem do papel, a cidade não se reequilibra e a pressão continua concentrada em zonas onde já é elevada.
Adiar decisões e estender calendários é, na prática, empurrar também a solução da habitação para a frente. As cidades mostram com relativa clareza para onde podem crescer. Falta garantir visão e capacidade de execução para transformar esse potencial em expansão efetiva.
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