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A Questão da Fé: ciclo de cinema no Cinema Nimas, em Lisboa

Jovem sentado numa sala de cinema vazia a ver filme em preto e branco com cruz e figura humana na tela.

O grande ciclo de filmes reunido sob a designação “A Questão da Fé” arrancou na quinta-feira e estende-se até 10 de junho. É no Cinema Nimas, em Lisboa, que tudo se desenrola - e o Nimas volta a impor-se como lugar de atenção, sobretudo por nos devolver a um tema que raramente entra no alinhamento das urgências diárias, mas permanece decisivo: a ligação do ser humano à transcendência. E fá-lo através de obras em que o gozo estético se encontra com maneiras exigentes de pensar o núcleo da experiência humana.

“A Questão da Fé” no Cinema Nimas

Há muito que se sabe: a fé é, por natureza, um escândalo. E a fé cristã, em particular, mexe de tal forma com as vigas da racionalidade que quase parece impossível acolhê-la sem um gesto de espanto e protesto. Como admitir um Deus tão impiedoso que exigiu a imolação sangrenta do próprio filho para libertar a humanidade do pecado original - o de provar o sabor do bem e do mal? Como aceitar um mestre que nos ordena que deixemos pai e mãe, mulher e filhos, irmãos e irmãs e até a própria vida, como condição para sermos dignos dele?

Místicos, caridade e a heresia das ideologias

Daí que não surpreenda que os grandes místicos - os que se deixam habitar pela fé como por um incêndio - sejam frequentemente vistos como loucos. Pense-se na burguesa de “Europa 51”, de Roberto Rossellini (1952), que larga tudo para assumir um apostolado de caridade (virtude que, dizia S. Paulo, é maior do que a fé, ainda que com ela intimamente ligada no primeiro e maior dos mandamentos). Ou nos monges franciscanos de “O Santo dos Pobrezinhos”, também de Rossellini (1950), a saudarem o irmão Sol, a irmã Lua e a natureza inteira, num louvor onde Deus se espelha em tudo. À primeira vista, parecem mesmo uns inocentes meio tontinhos…

Na verdade, pode dizer-se que Rossellini foi, entre os cineastas que o pós-guerra colocou em evidência, o mais fielmente católico. Já Pier Paolo Pasolini, grande herético das ideologias pré-fabricadas, viria a fazer eco dessa tensão uma década depois, em “Passarinhos e Passarões” (1966). A dupla Totó/Ninetto Davoli, enviada a converter aves pequenas e maiores e a deparar-se com a afronta de as grandes trucidarem as mais frágeis, devolve-nos uma resposta irónica à utopia de Assis.

Mas, no mesmo filme, é difícil não reconhecer também uma vasta lamentação pelo declínio da outra fé que sacudiu o século: a promessa marxista de um mundo sem exploradores nem explorados. Quem tiver olhos para ver, veja: as imagens breves e intensas do monumental cortejo fúnebre de Togliatti surgem como parêntesis severo num filme em que o registo leve de comédia (quase) burlesca deixa passar uma inquietação funda sobre os caminhos da fé - vinda, ainda por cima, de alguém que nem sequer acreditava em Deus.

Ainda assim, foi Pasolini o autor de um dos filmes mais belos de toda a história do cinema no modo como dá corpo a Cristo e à sua mensagem, conferindo-lhes uma dignidade singular: “O Evangelho Segundo S. Mateus” (1964). É mais uma presença incontornável deste ciclo.

Luis Buñuel levaria a ideia de loucura ainda mais longe. Em “Simão do Deserto” (1965), este cineasta educado por jesuítas e “ateu, graças a Deus” põe-nos diante de um eremita que vive no topo de uma coluna, abençoa quem se aproxima e enfrenta as tentações do demónio - mesmo quando o tentador toma a forma de Silvia Pinal e lhe enfia a língua numa orelha…

Também em “Viridiana” (1961) encontramos perturbação, embora de outro tipo: a jovem noviça atravessa a via-sacra para onde a conduz a sua fé na bondade humana e nos desígnios de Deus. Depois de ceder aos rituais fetichistas de um tio idoso - que, ao perceber que não a pode possuir, se suicida - ela abandona o projecto conventual e entrega-se à caridade, com consequências caóticas. A narrativa é tão crua na forma como os pobres esmagam a inocência da protagonista que parece negar qualquer esperança, seja nos céus, seja na espécie humana. É um filme que começa com a vibração do “Aleluia”, de Haendel, e termina numa sugestão desolada de ménage à trois - e Deus, nem se sabe onde está.

Na sua irracionalidade, a fé é um escândalo. Foi contudo sobre a fé cristã que se ergueu a nossa civilização e o nosso olhar sobre o Mundo e sobre nós mesmos

O silêncio de Deus, a dúvida e o milagre

A queixa do silêncio de Deus surge no sacerdote de “No Coração da Escuridão”, de Paul Schrader (2017). Quase nunca consegue rezar: do outro lado não sente resposta. Isolado, escreve então um diário que tenciona rasgar no fim do ano, ao mesmo tempo que se descobre impotente na tarefa de salvar almas. E não é caso único.

De resto, Schrader convoca um filme matricial de um dos seus mentores, Bresson, que este ciclo do Nimas não podia contornar: “Diário de um Pároco de Aldeia” (1951). A mesma dúvida funda reaparece numa obra maior - e das menos vistas - da filmografia vasta de Ingmar Bergman, “Luz de Inverno” (1963). E já que este desvio nos levou ao Norte, vale a pena dizer duas ou três coisas sobre “A Palavra”, de Carl Theodor Dreyer (1955).

Antes disso, uma pequena derivação. Há muitos anos, um padre jesuíta abriu-me o entendimento com uma frase ousada: hoje, acreditamos em Cristo não por causa dos milagres narrados nos Evangelhos, mas apesar deles. De facto, aquelas ordens dirigidas aos estropiados para que andem e aos mortos para que saiam dos sepulcros soam a truque fácil de omnipotente - sobretudo num tempo em que não se vê milagre nenhum acontecer.

No cinema, então, a dificuldade é maior: milagres e filmes parecem incompatíveis, porque sabemos que quem está no ecrã são atores pagos para fingirem o que lhes pedirem. E, no entanto, há um filme em que eu - e muitos comigo - sinto que um milagre ocorre. Trata-se da ressurreição da mulher morta em “A Palavra”, de Dreyer. Não me perguntem porquê: não tenho explicação alguma, mas acredito. É fé, admito; não como estado que se procura, mas como graça imerecida que se recebe. “A Palavra” é um milagre convertido em cinema; se não quiserem ver mais nada neste ciclo, vejam este - está lá tudo.

Tarkovsky e a dimensão transcendente

Ainda assim, se puderem, não deixem passar os dois Tarkovskys incluídos no programa. Ele é o grande místico do cinema russo, a abrir-se e a expandir-se para lá da URSS que o sufocava. Tarkovsky tornou-se conhecido com o esplendoroso “Andrei Rublev”, em que um monge medieval, pintor de ícones, se interroga se a arte deve existir para maior glória de Deus ou como exaltação do sofrimento humano. Esse filme não integra o ciclo, mas podia perfeitamente integrá-lo.

A sua obra está sempre atravessada por uma preocupação com o transcendente, embora não acredite em milagres - como se percebe na cena em que pardais em remoinho saem do peito de uma imagem de Nossa Senhora (“Nostalgia”, 1983). Em contrapartida, acredita em Piero della Francesca e na figuração da Madonna del Parto numa obscura capela toscana; acredita também na beleza fulgurante dos travellings e das visões que ficam na memória como uma incisão indelével - como o plano final desse mesmo filme, com o mundo contido numa imensa catedral destelhada.

“O Sacrifício” (1986), com as suas angústias de apocalipse, é outro título de Tarkovsky que o ciclo apresenta e ao qual só o grande ecrã - na sala escura - consegue fazer verdadeira justiça.

Seja como for, na sua irracionalidade, a fé permanece um escândalo. E, no entanto, foi sobre a fé cristã que se ergueu a nossa civilização e a nossa maneira de olhar o mundo e de nos olharmos a nós próprios. Este ciclo - onde também entram filmes de Godard, Pialat, Oliveira et alii - oferece uma oportunidade rara: ver grande cinema e sair para o discutir até altas horas.

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