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Putin, a guerra na Ucrânia e a ilusão do fim

Homem de costas observa desfile militar com tanques, flores e capacete no chão, em praça histórica.

Putin na Praça Vermelha e a expectativa de fim

No sábado passado, já depois de terminarem as celebrações do Dia da Vitória na Praça Vermelha, em Moscovo, Vladimir Putin mostrava-se seguro de si. “Ótimo, (os EUA e os países europeus) concordaram em ajudar (a Ucrânia) e começaram a preparar o confronto com a Rússia que ainda está a decorrer. Acho que as coisas estão a chegar ao fim, mas continua a ser algo sério.” Em Portugal e noutros países europeus, estas palavras alimentaram a ideia de que a guerra russo-ucraniana poderia estar perto do desfecho. Talvez - mas não necessariamente como muitos imaginam.

O custo humano e o impasse no terreno na Ucrânia

Nos primeiros três meses deste ano, a Rússia registou 90 mil baixas em combate na Ucrânia. É isso mesmo - 90 mil. Se a Ucrânia estivesse realmente à beira da derrota, como Donald Trump e J. D. Vance disseram a Volodymyr Zelensky na Casa Branca há um ano, dificilmente conseguiria impor às forças russas um preço tão elevado em sangue, sobretudo num contexto em que deixou de receber diretamente dos EUA armamento sofisticado para a sua defesa e continua a enfrentar falta de unidades de infantaria.

O que se observa no terreno aponta para que a Ucrânia ainda consiga impedir que a Rússia obtenha superioridade operacional.

Donbas, Dniepre, Kyiv e Odessa: a aposta numa ofensiva de verão

Apesar disso, Putin parece convencido de que uma nova sequência de ofensivas russas no verão e no início do próximo outono acabará por lhe permitir, finalmente, tomar todo o Donbas ucraniano, alcançar o rio Dniepre e voltar a colocar no horizonte a ameaça de conquistar Kyiv e Odessa. É este cenário que ajuda a perceber a confiança exibida na semana passada. Quatro anos e meio depois de lançar a guerra contra a Ucrânia, acredita que Kyiv está prestes a ceder e que, desse modo, conseguirá cumprir todos os seus objetivos políticos.

Recessão, inflação e tensões internas na Rússia

O grande obstáculo tem sido o peso enorme que a guerra está a ter sobre a Rússia. Para lá de um número muito elevado de baixas, a economia russa encontra-se em recessão desde 2023. Em termos práticos, o país está hoje mais pobre do que em 2022, o ano em que Putin decidiu destruir a Ucrânia enquanto país independente.

O esforço de guerra empurrou para cima a despesa pública e a inflação. Ao mesmo tempo, a subida da taxa de juro de referência do Banco Central russo penaliza o sector privado, que passou a ter muito mais dificuldade em aceder a crédito bancário. Para a maioria dos cidadãos, as condições de vida deterioraram-se. E as fricções entre os serviços de segurança interna e os tecnocratas da administração presidencial tornam-se cada vez mais visíveis.

O dilema político antes das eleições para a Câmara Baixa

Ao contrário de Putin - que há muito se afastou do pulso da população e vive cada vez mais isolado -, grande parte da sociedade e uma parcela da elite russa reconhecem que uma vitória política nesta guerra é, na prática, quase impossível.

A ofensiva anunciada na Ucrânia irá coincidir com eleições para a Câmara Baixa do Parlamento russo no final do verão. A Rússia não é uma democracia e todos os partidos autorizados a concorrer estão sob controlo do Kremlin. Ainda assim, a política existe no país, e este é um regime que não quer ser apanhado de surpresa, nos próximos meses, por más notícias.

O dilema de Putin é, portanto, encontrar um equilíbrio entre a realidade militar - na Ucrânia e dentro da própria Rússia - e a crescente insatisfação popular com a degradação do nível de vida. O Presidente russo pode não ter mudado, mas o país mudou. E muito.


O Expresso manteve a grafia Kyiv utilizada por Miguel Monjardino, em vez da forma Kiev, que o jornal adotou.

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