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Guia da linguagem da nova longevidade

Três idosos sentados à mesa ao ar livre, a discutir documentos e a usar computador portátil e tablet.

Durante muitos anos, a história do envelhecimento foi quase sempre narrada através de ideias associadas a perda, declínio, dependência e fecho de ciclo. Entretanto, uma nova linguagem - feita de tendências, conceitos e expressões recentes - está a transformar a forma como se fala de longevidade e, mais do que renovar o vocabulário, está também a influenciar a maneira como imaginamos o futuro. Hoje ganham espaço termos como idade biológica, “superidosos”, cidades amigas das pessoas idosas, medicina da longevidade e trabalho multigeracional.

Esta mudança está a ocorrer em simultâneo na medicina, na economia, na comunidade e no mercado de trabalho. À medida que se consolida a chamada “sociedade dos 100 anos”, em que chegar a essa idade se torna menos excecional, surgem novas oportunidades, novas dinâmicas - e novas palavras. Algumas vêm diretamente da ciência do envelhecimento; outras nasceram em universidades norte-americanas e em relatórios internacionais; e várias tornaram-se mais conhecidas através de peças em meios como o Post de Washington ou a Geografia Nacional.

O que se segue é um guia para decifrar a linguagem da nova longevidade.

Cidades amigas das pessoas idosas

Apresentado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2007, o conceito de cidades amigas das pessoas idosas descreve centros urbanos preparados para uma população que vive mais tempo: transportes com acessibilidade, espaço público inclusivo, serviços ajustados e maior participação social. De acordo com o site da OMS, em Portugal, cidades como o Porto e Braga fazem atualmente parte da rede mundial de cidades e comunidades que assumiram o compromisso de se tornarem mais amigas das pessoas idosas.

Envelhecer em casa

Parte do princípio de que envelhecer melhor passa, sempre que for possível, por permanecer em casa e na comunidade, preservando autonomia, independência, proximidade e ligações sociais. Esta ideia procura acelerar soluções como apoio domiciliário, habitação adaptada e cidades pensadas para populações mais velhas.

Biomarcadores

São indicadores biológicos utilizados para estimar risco de doença, envelhecimento ou resposta a terapêuticas. Ajudam a avaliar, por exemplo, inflamação, saúde metabólica ou envelhecimento celular antes de existirem sintomas.

Zonas Azuis

São regiões do mundo onde existem populações com longevidade invulgar, como Okinawa, no Japão, ou a Sardenha, em Itália. A expressão apareceu pela primeira vez num estudo científico publicado em 2004 na revista Gerontologia Experimental, sobre a elevada concentração de centenários nessa ilha italiana. Os investigadores Michel Poulain e Gianni Pes assinalaram essas áreas com círculos azuis num mapa, dando origem ao termo “Zonas Azuis”, que ganhou projeção com as reportagens do jornalista Dan Buettner para a Geografia Nacional sobre os locais do planeta onde as pessoas vivem mais e melhor.

Capital humano sénior

Defende que o envelhecimento demográfico não significa apenas maior pressão sobre pensões e sistemas de saúde: representa também um vasto património de experiência, conhecimento e competências acumuladas. Este conceito surge associado à economia da longevidade e ao debate em torno do trabalho multigeracional.

Coabitação intergeracional

Refere-se a modelos de habitação que aproximam jovens e pessoas mais velhas para reduzir a solidão, repartir custos e criar redes informais de apoio. O termo começou a ganhar maior visibilidade em França, Holanda e Alemanha, bem como em cidades espanholas como Barcelona e Madrid, onde programas que colocam estudantes a viver com pessoas idosas apareceram como resposta ao envelhecimento populacional, à falta de habitação a preços acessíveis e ao isolamento nas grandes cidades.

Dividendo da longevidade

O conceito de dividendo da longevidade destacou-se com a publicação de um artigo do gerontologista Jay Olshansky e de outros investigadores, em 2006, na revista O Cientista. Nesse texto defendia-se que, se as pessoas envelhecerem com mais saúde, autonomia e independência, a longevidade pode deixar de ser encarada como um custo e passar a produzir benefícios económicos e sociais. A expressão aponta, assim, para a vantagem económica e social que uma sociedade obtém quando investe na saúde e na produtividade das pessoas ao longo de toda a vida.

Economia da longevidade

Muitas vezes ligada à chamada economia prateada, designa o conjunto de atividades económicas, produtos, serviços e inovação orientados para as necessidades, preferências e estilo de vida de uma sociedade que vive mais anos. Inclui áreas como habitação, turismo, tecnologia, finanças, entretenimento e educação pensados para uma vida mais longa e ativa, e reconhece o valor da população mais velha enquanto consumidora ativa, investidora e participante na sociedade.

Envelhecimento ativo

É um conceito desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde no documento Envelhecimento Ativo: Um Quadro de Políticas, que valoriza participação social, autonomia, independência e qualidade de vida ao longo do processo de envelhecimento. No site da Associação Portuguesa de Psicogerontologia encontra-se a definição da OMS, que descreve envelhecimento ativo como o “processo de optimização das oportunidades para a saúde, participação e segurança, para melhorar a qualidade de vida das pessoas que envelhecem”.

Esperança de vida saudável

Corresponde ao número médio de anos vividos com autonomia e sem limitações relevantes causadas por doença ou incapacidade. Ao contrário da esperança de vida “simples”, este indicador procura medir não apenas quanto tempo se vive, mas quantos desses anos decorrem com qualidade de vida. Não é exatamente o mesmo que “período de vida com saúde”, termo usado na ciência da longevidade para se referir aos anos vividos com boa saúde física e cognitiva.

Geração sanduíche

Designa adultos (habitualmente entre os 40 e os 60 anos) que ficam “no meio” de duas gerações dependentes, prestando cuidados ao mesmo tempo a filhos e a pais idosos.

Geriatria

É a especialidade médica dedicada à prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças mais frequentes associadas ao envelhecimento.

Gerociência

Trata-se de uma área científica recente centrada no estudo da biologia do envelhecimento. Parte da premissa de que atrasar mecanismos celulares associados ao envelhecimento pode, em simultâneo, reduzir o risco de doenças como Alzheimer, diabetes ou doença cardiovascular.

Gerontologia

Área multidisciplinar que estuda o envelhecimento e a velhice nas vertentes biológica, psicológica, social e económica. Diferentemente da geriatria, não se concentra apenas na doença: analisa também a forma como as sociedades envelhecem e como se adaptam a vidas mais longas.

Libra cinzenta

Expressão britânica que serve para descrever o peso económico da população mais velha. Tem sido utilizada em meios de comunicação, como O Guardião, para ilustrar de que modo consumidores sénior passaram a influenciar mercados como turismo, saúde, tecnologia ou habitação.

Idade biológica

É um indicador que procura refletir o estado real de envelhecimento do organismo, independentemente da idade cronológica. É estimada com base em biomarcadores, análises celulares e dados fisiológicos.

Idadismo

Refere-se à discriminação com base na idade. O termo equivalente em inglês surgiu em 1969 numa entrevista ao Post de Washington, dada pelo médico gerontologista e psiquiatra norte-americano Robert Neil Butler, e ganhou novo relevo quando a OMS passou a tratá-lo como um problema global de saúde pública e de exclusão social. Em 2021, a OMS lançou a campanha global #UmMundoParaTodasAsIdades contra o idadismo e, no Relatório Global sobre o Idadismo, define o conceito como estereótipos, preconceito e discriminação baseada na idade.

Inflamação associada ao envelhecimento

É um termo usado para caracterizar a inflamação crónica de baixo grau ligada ao envelhecimento e associada ao aparecimento de doenças cardiovasculares, neurodegenerativas e metabólicas. O conceito surgiu em estudos do imunologista italiano Claudio Franceschi, no início dos anos 2000, que exploraram a relação entre envelhecimento, sistema imunitário e doença crónica.

Medicina personalizada

Abordagem que ajusta prevenção e tratamentos ao perfil genético, clínico e comportamental de cada pessoa. A chamada medicina da longevidade surge, neste enquadramento, como uma extensão dessa lógica preditiva e preventiva.

Medicina preventiva

Foca-se em evitar doenças antes de surgirem sintomas. Está na base da transição de uma medicina reativa para a medicina da longevidade, orientada para prolongar os anos de vida com saúde, autonomia, independência e qualidade de vida, através de prevenção, deteção precoce de risco e personalização dos cuidados.

Reforma ativa

Conceito associado à continuidade da participação na vida profissional, social ou cívica após a idade tradicional da reforma.

Risco genético

Refere-se à probabilidade aumentada de desenvolver determinadas doenças devido à herança genética. É um conceito aplicado na medicina personalizada e preventiva, ajudando a identificar predisposições - por exemplo para doenças cardiovasculares, cancro ou Alzheimer - antes do aparecimento de sintomas.

Economia prateada

Expressão popularizada em meios de comunicação económicos para descrever mercados e negócios ligados a consumidores com mais de 50 anos. Enquadra o envelhecimento como oportunidade de inovação e crescimento económico e tende a concentrar-se no mercado de consumo e em produtos específicos para quem já é “sénior”. Em contraste, a Economia da Longevidade é mais abrangente, por incluir todo o ciclo de vida e a adaptação da sociedade ao facto de se viver mais tempo.

Superidosos

Termo utilizado para identificar pessoas muito idosas que mantêm capacidades cognitivas muito acima da média. O conceito surgiu em investigações da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos, sobre pessoas com mais de 80 anos cuja memória se mantinha comparável à de pessoas várias décadas mais novas.

Trabalho multigeracional

Modelo laboral em que quatro - e até cinco - gerações coexistem ao mesmo tempo. Está a mudar organizações e empresas, ao introduzir novas dinâmicas intergeracionais, percursos de carreira e modelos de liderança. Tornou-se mais relevante com o aumento da esperança de vida e com a valorização do capital humano sénior numa economia em que as carreiras passaram a ser mais longas.

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