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Ataques de Israel e ordens de evacuação no sul do Líbano: violência em escalada

Mulher e criança de costas a caminhar numa rua com várias carrinhas e casas danificadas ao fundo.

O JN esteve no sul do Líbano, um território onde os ataques se repetem a qualquer hora e a contagem de vítimas continua a crescer. Também aumenta o número de localidades libanesas que receberam de Israel uma ordem de evacuação forçada. E, enquanto a Imprensa israelita começa a pôr em causa a capacidade das suas forças armadas para manterem a situação sob controlo no sul do país, a violência intensifica-se.

Sul do Líbano entre a costa e os bombardeamentos

Com as montanhas à esquerda e o mar à direita, a viagem para Sul faz-se por uma longa sucessão de quilómetros de areal, com vista para clubes de praia vazios, consumidos pelo salitre e pelo abandono. No autorrádio, Ziad Rahbani canta em árabe e, não fosse a guerra, a sensação seria a de atravessar um país mediterrânico à entrada do verão. Já na autoestrada para Sídon, a terceira maior cidade do Líbano, sucedem-se centenas de bandeiras amarelas com o rosto de Hassan Nasrallah, histórico líder do Hezbollah.

O Castelo do Mar, erguido pelos cruzados em 1228, parece alheio ao que o rodeia. Junto à água, entre a zona histórica e o pequeno porto de pesca, estacionar é quase impossível. A maior parte dos automóveis serve agora de abrigo a centenas de refugiados - uma fração dos mais de meio milhão de deslocados apontados pelas Nações Unidas. Há menos de um mês, e sob pressão dos Estados Unidos, Israel foi obrigado a aceitar um cessar-fogo que continua a violar sem grande pudor.

Entretanto, Telavive decretou unilateralmente uma zona tampão, abaixo de uma imaginária linha amarela, sobretudo a Sul do rio Litani. Nessa faixa de território, mais de 50 vilas e aldeias libanesas receberam uma ordem de evacuação obrigatória e, até ao momento, duas dezenas de localidades foram arrasadas, repetindo a estratégia aplicada na Faixa de Gaza.

Tiro: ruínas, escola atingida e “cemitério” de ambulâncias

Ainda assim, nos últimos dias, têm-se multiplicado os ataques e as ordens de evacuação forçada contra aldeias situadas acima dessa faixa. Um dos casos é Tiro, Património da Humanidade e quarta maior cidade do país, a 40 quilómetros a Sul de Sídon. O percurso entre os dois centros urbanos faz-se com o som de explosões distantes, do lado da região montanhosa de Nabatye.

Em Tiro, o ambiente muda por completo. No Líbano, quanto mais para Sul, menos pessoas se encontram nas ruas. Perto do centro, uma escavadora abre sepulturas para dar resposta aos mortos desta guerra. Muitas delas exibem bandeiras amarelas, o que sugere tratar-se de um dos cemitérios de combatentes do Hezbollah.

Uma parte da cidade está em ruínas. Edifícios enormes, com mais de oito andares, colapsaram totalmente sob o impacto de mísseis israelitas. A escola primária Al Ittihad foi atingida pela força da explosão: o quadro continua no mesmo sítio e a porta de uma das salas conserva um desenho de um sol sorridente com a palavra "bem-vindo". Numa parede, veem-se várias imagens com os nomes dos dias da semana em inglês, mas cadeiras, armários e mesas ficaram soterrados sob grandes pedaços de parede, e as janelas foram arrancadas pela violência do ataque ao prédio do outro lado da rua.

A pouca distância, existe um verdadeiro cemitério de ambulâncias. É ali que se acumulam viaturas de emergência médica totalmente destruídas em ataques que, até agora, provocaram mais de uma centena de mortes entre trabalhadores de emergência médica libaneses. Durante a visita a este parque de estacionamento, um drone israelita sobrevoa o local durante cerca de meia hora. É altura de sair.

É tão fácil morrer no Líbano

Na estrada para Deir Qanoun an-Naher, também abaixo do rio Litani, sucedem-se aldeias quase desertas. Um ataque, no dia anterior, naquela localidade, provocou três mortes num edifício que igualmente ruiu. É diante dessa montanha de destroços que Abdullah el Danan, representante do Hezbollah, aceita falar com o "Jornal de Notícias".

Enquanto olha para a destruição à sua volta, acusa o que aconteceu de ser uma "prova da brutalidade do inimigo e da sua visão hostil em relação a toda a sociedade libanesa, incluindo civis e combatentes da resistência, de todas as classes sociais". Nas proximidades, vários membros da organização xiita seguem a conversa, garantindo a segurança do entrevistado. "Cada vez que uma casa é bombardeada, um telhado é destruído e uma família de civis é martirizada, a lealdade e o apego à resistência aumentam cada vez mais", afirma.

Quando questionado sobre se o Hezbollah é, ou não, uma organização terrorista, Abdullah el Danan lembra que não foi o seu grupo quem invadiu a "Palestina ocupada", expressão com que se refere ao Estado de Israel.

2759 civis mortos desde março

Já no final da entrevista, escutam-se várias explosões e a deslocação faz-se a grande velocidade rumo a Doueir, na região de Nabatye, de onde chegam relatos alarmantes. Israel terá lançado uma bomba que não explodiu, e vários habitantes terão ido ver o que se passava. Nesse momento - contou um dos residentes desta localidade, com uma população de 7500 pessoas - as forças israelitas fizeram um novo ataque, provocando um morto, vários feridos e grande destruição.

Em Doueir, sente-se uma consternação pesada. Ouvem-se gritos e veem-se homens a remover destroços, à procura de vítimas. Poucos minutos depois de o JN abandonar o local, Israel lançou um drone e matou um homem e uma criança em Doueir.

As vítimas aumentam dia após dia, tal como a intensidade dos ataques. Só na sexta-feira, Israel matou 30 civis e, no sábado, um homem e a sua filha - ainda criança - morreram num ataque com drones. À hora do fecho desta edição, o total de mortes de civis tinha subido para 2759 desde março, segundo o governo libanês.

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