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Camille Grand: Europa tem de dissuadir a Rússia sem depender dos Estados Unidos na NATO

Homens de negócios em reunião com mapa digital de Europa e símbolos militares numa sala moderna.

Camille Grand é um especialista francês em segurança internacional e defesa. Esteve na semana passada em Lisboa, na qualidade de secretário-geral da Associação das Indústrias Aerospaciais, de Segurança e Defesa Europeias (ASD), para uma convenção de alto nível que juntou presidentes executivos e quadros dirigentes dos maiores fabricantes europeus de armamento e tecnologias militares. Académico e membro de vários centros de reflexão, Camille Grand foi, até 2022, adjunto para o Investimento em Defesa na NATO e assessor de ministros franceses da Defesa e dos Negócios Estrangeiros. Em entrevista ao Expresso, afirma que “o mundo mudou” e considera que, na relação com os Estados Unidos, nada voltará a ser como dantes. Daí que a Europa tenha de conseguir dissuadir a Rússia, por si própria, no plano convencional. Sobre Portugal, sublinha que “existe uma grande expectativa, enquanto nação marítima e com grandes responsabilidades no oceano, para que seja uma parte importante desta solução”.

Camille Grand e a relação Europa–Estados Unidos

Portugal tem uma relação antiga e próxima com os Estados Unidos, muito pela posição geográfica, por causa dos Açores e da Base das Lajes na Ilha Terceira. Acha que os europeus, devido à posição de Espanha e de outros países, poderão divergir na forma como se relacionam com os EUA?

A relação com os Estados Unidos tem de ser assumida como significativamente mais complicada, até para países com uma tradição transatlântica muito enraizada. Hoje, existe uma administração norte-americana que critica a NATO com frequência, que pressiona fortemente os aliados europeus e que nem sempre segue a prática de os envolver num diálogo consistente. Além disso, quando surge um pedido, muitas vezes chega mais como um ultimato - com pressão - do que como uma conversa séria na NATO ou noutro fórum, do tipo: "OK, preciso da vossa ajuda nisto, ou vocês poderiam juntar-se a mim nesse projeto ou conflito específico?".

Nesse sentido, Portugal não é um caso especial; e, naturalmente, pela sua geografia e história, e por ser membro fundador da NATO, mantém ligações muito, muito estreitas com os EUA. A Dinamarca também se vê exposta a discussões semelhantes. Depois, cada país faz as suas escolhas: se pretende enfrentar a política norte-americana, como o Governo espanhol fez a propósito da guerra no Irão, ou se prefere uma via mais discreta, tentando preservar a relação o melhor possível.

Como é que isso se faz?

É sempre uma decisão difícil, sobretudo quando não se está diretamente implicado. Ainda assim, o que espero é que os europeus atuem mais em conjunto e encontrem respostas comuns. Temos de aceitar um facto básico: o mundo mudou. Não há forma de regressar ao modelo tradicional de relacionamento com os EUA. A ligação com Washington será diferente.

Espero, sinceramente, que continuemos a ter uma aliança próxima, mas já não será como nos tempos antigos - e não existe caminho de volta para esses tempos. Digo-o com base na experiência: estive na NATO durante o primeiro mandato de Trump e, nessa altura, a maioria dos europeus via Trump como um parêntesis. Agora, é preciso reconhecer que esta é uma hipótese real e que ele tem apoio - se não da maioria dos norte-americanos, pelo menos de uma fatia suficiente - para transformar isto numa tendência muito forte na política externa dos EUA.

A defesa da Europa deve ou pode ser totalmente autónoma em relação aos Estados Unidos?

Em termos diretos, sim - mas será um processo que exige tempo. A Europa tem de admitir que precisa de ser muito mais capaz de se defender com muito menos apoio dos Estados Unidos. Isto é algo que o Governo norte-americano espera dos europeus e que também as populações europeias querem ver assegurado pelos seus governos, para reduzir a dependência face aos EUA.

Parece-me que existe um consenso razoável, tanto em Washington como entre os europeus, de que precisamos de fazer mais. Durante muitos anos, tirámos partido da situação. Hoje, num contexto mais perigoso, temos a obrigação de agir. E, mesmo deixando a política de lado, os EUA poderão ter menos disponibilidade - como se percebe com a crise no Médio Oriente. Os Estados Unidos estarão mais concentrados no Indo-Pacífico, no Médio Oriente e na segurança europeia.

Podemos fazer isso? Quanto tempo levará?

Há progressos todos os dias. Quero dizer com isto que, há dois anos, estávamos a discutir se teríamos munições de artilharia suficientes para a Ucrânia. Neste momento, empresas europeias já produzem para os Estados Unidos. Está a acontecer um esforço semelhante no domínio dos mísseis: as empresas europeias estão a afirmar-se como produtoras-chave de mísseis para a Ucrânia, mas também para a nossa própria defesa.

Vemos avanços constantes; a questão central é como transformar isso em resultados estruturais. Para mim, é essencial trabalhar com prazos em mente. Acredito que, até 2030, estaremos muito mais preparados para organizar a defesa convencional do continente.

Programa SAFE, capacidades e comando na NATO

Após a conclusão do programa SAFE?

Depois de concluído o programa SAFE [Instrumento de Ação para a Segurança da Europa, para o financiamento de aquisições de equipamento militar através de dívida europeia], será inevitável manter um esforço sustentado na despesa com defesa e, a partir daí, clarificar qual é o objetivo.

E o objetivo não é fazer da Europa uma superpotência como os Estados Unidos; é garantir que uma Europa que gaste 500 mil milhões de euros por ano ou mais em defesa consiga dissuadir a Rússia - sendo suficientemente forte por si só. Para isso, precisamos de mais forças, forças mais prontas, mais capacitadas e com reservas de munições adequadas. Isto pode ser concretizado em poucos anos.

O que poderia vir depois desse programa de financiamento?

Num horizonte mais longo, possivelmente entre 2030 e 2035, coloca-se a questão de substituir algumas capacidades que hoje só os EUA fornecem em grande escala - os chamados facilitadores estratégicos. Aqui entram capacidades no espaço, comando e controlo, vigilância aérea, reabastecimento em voo, grandes sistemas não tripulados, entre outras.

E, em cada uma dessas áreas, existem alternativas europeias disponíveis. A indústria europeia tem capacidade para as implementar, mas isso levará alguns anos. É a esse patamar que precisamos de chegar.

E tudo isso precisa estar integrado no sistema de interoperabilidade da NATO?

A interoperabilidade continua a ser totalmente indispensável, e a NATO dá-nos uma boa referência para esse trabalho. Já a questão da estrutura de comando permanece por resolver. Pode imaginar-se uma NATO muito mais europeizada...

Defende uma defesa europeia muito mais autónoma. Mas uma defesa autónoma da NATO ou como pilar europeu na NATO?...

…Na NATO. Para já, a organização tem o conhecimento acumulado e a estrutura de comando de que precisamos. Por isso, é lógico usar esses instrumentos - mesmo que se trate de uma NATO muito diferente daquela que conhecíamos. Uma NATO muito mais europeia na sua essência…

Com um Canadá mais europeu também…

Com mais europeus, mais canadianos e menos norte-americanos na estrutura de comando, e com a possibilidade de a NATO atuar sem depender em excesso das capacidades dos EUA. O cenário que estamos a avaliar é este: perante uma crise, os europeus conseguem responder? Mesmo que Washington diga "Desculpe, não tenho uma brigada para enviar. Não tenho uma esquadra aérea para enviar para a Europa", isso obriga-nos a intensificar o esforço para termos capacidade de dar essa resposta imediata. Tudo isto, naturalmente, com a esperança de que a aliança com os EUA se mantenha no horizonte.

Mantendo a esperança… não é uma convicção?

Não, é uma esperança. É isso que todos querem e todos preferem. Mas não podemos ficar numa situação em que, por qualquer razão, essa aliança deixe indisponíveis certas capacidades críticas dos EUA.

Há ainda um tema muito específico: a dissuasão nuclear alargada. Na Europa, temos dois Estados com armas nucleares - a França e o Reino Unido. Portanto, existem bases que nos permitem, também aqui, trabalhar mais em conjunto entre europeus.

Há a proposta de Emmanuel Macron.

Sim, tudo isso está em cima da mesa. Mas, no essencial, não se trata de substituir a dissuasão alargada dos EUA. A preferência de todos é que ela se mantenha. E devo acrescentar que nada, nas posições norte-americanas, indica que [a dissuasão nuclear] vá desaparecer.

Os EUA pediram aos europeus que assumam a responsabilidade pela defesa convencional do continente. Já na dissuasão nuclear alargada, a mensagem tem sido mais tranquilizadora. Veremos onde isto nos conduz. E também temos de reconhecer que esta é uma conversa um pouco diferente daquela em que se diz que precisamos de ter capacidade convencional.

Inteligência artificial, cibersegurança e guerra do futuro

Uma das vulnerabilidades europeias tem a ver com a Inteligência Artificial, grandes volumes de dados, centros de dados e cibersegurança. Ainda agora vimos como a própria administração norte-americana entrou em conflito com a Anthropic [que tinha limites éticos no emprego militar da IA] e depois o susto que apanhou com o modelo Mithos, que deteta brechas de cibersegurança…

A meu ver, os europeus têm uma lacuna a colmatar na área tecnológica, e em especial na inteligência artificial - e isso não é exclusivo da defesa, embora a defesa esteja incluída. Na Europa, já existem algumas empresas emergentes a atuar em inteligência artificial e defesa que estão a tornar-se bastante competentes. Penso, por exemplo, em empresas como a Helsing ou a Quantum.

Também considero que grandes empresas com forte participação do Estado estão a investir massivamente em inteligência artificial: Thales, Leonardo e Safran estão igualmente a canalizar muitos recursos para IA e capacidade de computação. Por isso, acredito que veremos o aparecimento de líderes em vários setores.

Em Portugal, há empresas muito capazes, como a Takever, que também está a apostar nestas novas tecnologias. Portanto, veremos estas empresas a afirmar-se.

Depois, existe o tema mais amplo da inteligência artificial e do poder computacional. E há um ponto curioso: muitos dos engenheiros que desenvolvem IA nos Estados Unidos são europeus. Por isso, não estamos assim tão mal. E temos muitas empresas; a questão é como conseguimos escalar as empresas emergentes, que são muito dinâmicas na Europa.

Outra questão que vai sendo debatida em muitos países: os Estados europeus estão a fazer enormes investimentos em defesa, como a Alemanha, ou grandes investimentos através do programa SAFE. Mas parece que estão a comprar o que já está na linha de produção das indústrias que já temos. A questão é se a Europa está a preparar-se para uma guerra futura, com drones e a robotização, ou para uma guerra como há dez anos, com muitos carros de combate, por exemplo?

A dificuldade é que temos de fazer as duas coisas em simultâneo. Por um lado, é necessário uma espécie de reconstrução do século XX, porque ainda precisamos de munições para carros de combate e para a artilharia. Não partimos do zero. O que pretendemos é que esses carros de combate e esses sistemas de artilharia sejam modernizados e aptos para operar num ambiente exigente.

Ao mesmo tempo, temos de investir em tecnologias de rutura: sistemas não tripulados, inteligência artificial, computação quântica… Isso permite acelerar a chegada à próxima geração de programas de defesa.

Por isso, é preciso acertar no equilíbrio: não estamos a construir um exército do nada; estamos a reforçar um exército com base no que já existe. O que queremos é que o Exército português, o Exército alemão ou o Exército francês - com o equipamento que têm hoje - consigam sobreviver num ambiente extremamente exigente. E, em paralelo, queremos preparar o futuro; esse balanço tem de ser bem calculado.

Acha que foi bem calculado?

No início, fizemos o indispensável: um esforço para recuperar capacidades. Provavelmente, agora precisamos de repensar a relação entre cliente e indústria - entre os ministérios da Defesa e a indústria. Porque não é apenas uma questão tecnológica.

Se olharmos para os drones, talvez o fator decisivo seja a capacidade de construir, ao longo de 10 anos, uma geração ampla de drones e de os produzir em massa, em vez de comprar ou desenvolver um único modelo em quantidades reduzidas. Há muito a reconsiderar, porque a força dos ucranianos não está só na inovação tecnológica, mas também na inovação dos processos de fabrico e na produção em massa, a um preço compatível com as necessidades das suas forças armadas.

Atlântico, cabos submarinos e o papel de Portugal

Portugal tem um mar imenso com muitos cabos submarinos. Acha que Portugal oferece segurança suficiente no Atlântico para que os Aliados possam ter confiança no que está a acontecer nestas águas?

Entendo que esta é uma responsabilidade coletiva. Seria injusto afirmar que, por os cabos transatlânticos estarem sob jurisdição portuguesa ou irlandesa, a responsabilidade é apenas desses países. Uma das novidades dos últimos anos é que todos passaram a reconhecer que as infraestruturas submarinas - cabos ou gasodutos - são vulneráveis e podem ser alvos. As nossas economias dependem muito dessas infraestruturas, e por isso temos de desenvolver maneiras de as proteger.

É um trabalho coletivo da NATO e da União Europeia, porque as vulnerabilidades são reais. Evidentemente, o país que tem jurisdição sobre a infraestrutura assume uma responsabilidade particular. A boa notícia é que a tecnologia pode acrescentar ferramentas que, ainda há pouco tempo, eram difíceis de usar.

Como cabos inteligentes, os cabos inteligentes, com sensores que recolhem dados?

Sim, cabos inteligentes, mas também sistemas submarinos não tripulados. Antes, seria necessário um submarino para patrulhar essas águas; hoje, isso pode ser feito com sistemas não tripulados operados a partir de uma embarcação, de um navio de superfície. Portanto, há muita evolução nesse domínio. E existe, sem dúvida, uma grande expectativa em relação a Portugal, enquanto nação marítima e com grandes responsabilidades no oceano, de que seja uma parte importante desta solução.

Indústria europeia, FCAS e o debate sobre um exército europeu

Na indústria europeia, cada país tem os seus próprios interesses, cada empresa tem os seus próprios interesses, então é difícil ter um mercado um pouco mais consolidado, como vimos agora com o programa cooperativo do caça FCAS (Sistema Aéreo de Combate do Futuro), onde franceses e alemães não se entendem. Como resolver isso?

Antes de mais, há uma cooperação europeia muito sólida. Temos uma indústria de mísseis altamente integrada, uma indústria de helicópteros também muito integrada, em ambos os casos com dois ou três participantes, no máximo. Dispomos de uma indústria bastante integrada no transporte aéreo militar, e por aí fora.

Ou seja, não é verdade que não existam muitos exemplos de cooperação na Europa. Programas muito complexos, como o FCAS, são naturalmente mais exigentes - e isso não deveria surpreender. Aliás, não sei como acabará essa discussão. Estamos numa fase de debates mais duros, mas também com sinais políticos muito fortes de que existe vontade de avançar.

E noto que as componentes do programa ligadas à nuvem de combate e aos sistemas não tripulados continuam a evoluir, mesmo com debate em torno do caça e de outros equipamentos. Veremos onde isto vai dar. Mas acredito que, no fim, veremos muita cooperação europeia.

Vivemos um momento interessante, porque está a entrar mais dinheiro nos ministérios da Defesa europeus. E, por vezes, esses ministérios escolhem a via nacional, porque é mais simples de justificar perante a opinião pública.

Concorda com a criação de um exército europeu ou com um projeto de exército europeu como defende o comissário europeu da Defesa, Andrews Kubilius?

O que o comissário disse, ao usar a imagem de um exército europeu - que pode dar a ideia de que pretende substituir os exércitos nacionais -, é que seria necessária uma força de cerca de 100 mil efetivos para responder a crises. Concordo com ele no sentido de que precisamos de ser muito mais fortes enquanto europeus.

Não tenho a certeza de que um exército europeu, como o público o entende, ou um exército único para todos os 27 países vá acontecer num futuro próximo. Ainda assim, considero útil pensar no que os europeus podem fazer para estarem mais aptos a defender-se.

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