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O meu método de escrita, sem segredos

Pessoa a escrever em bloco de notas numa secretária com post-its, livros e uma chávena de café fumegante.

As perguntas que mais me fazem, por eu ser escritora, giram quase sempre em torno do meu processo: quando escrevo, com que regularidade, de que maneira, quando percebi que tinha esta vocação quase epifânica e o que sinto em relação a ela. À volta da escrita parece existir um segredo, como se a tarefa escondesse um truque.

A verdade é pouco cinematográfica. Não tenho nada de particularmente revelador a confessar. Escrevo quando tenho vontade, sentada ao computador; apercebi-me de que sabia escrever na escola; e encaro a escrita como uma forma de expressão que me serve muito bem, porque me dá a possibilidade de fazer o outro ver através de um código escrito, e não por via da imagem. É isso. Descrever, narrar, construir uma história. Não há feitiço.

Do manuscrito ao computador: ritmo, corpo e pensamento

Se há algo que me interessa, é a passagem da caligrafia - e até da escrita à máquina - para o processador de texto. O computador, esse sim, consegue acompanhar a velocidade a que as ideias aparecem.

Quando escrevo à mão, sinto o gesto atrasado: a mão parece-me lenta e força-me a ser paciente comigo, porque a ideia fica resolvida na cabeça antes de conseguir chegar ao papel. Não era assim e isso incomoda-me. Não sei dizer se agora penso mais depressa ou se, pelo contrário, escrevo mais devagar. Não tenho resposta; o mais provável é que tenha perdido capacidades físicas.

A curiosidade sobre o método de escrita e a idealização da arte

De vez em quando detenho-me a pensar na estranheza desta curiosidade. Talvez tenha a ver com uma certa idealização da escrita, como se fosse diferente de outras actividades.

Ninguém pergunta a um cirurgião como é que consegue fazer operações complexas e arriscadas. Ninguém parece querer conhecer o método de trabalho de um sapateiro ou de uma costureira. E eu própria nunca me lembraria de interrogar um pintor ou um escultor sobre como trabalha. Em pé, responderiam, aposto, tal como Fernando Pessoa. E, no entanto, que interesse real há na escrita em pé do Pessoa? Talvez nenhum - talvez fosse apenas para poder ir direita para a cama sem ter de dobrar os joelhos.

Nunca senti grande curiosidade por saber como se fabrica arte, porque parto do princípio de que é um processo pessoal e impossível de traduzir em palavras: depende de estados de espírito, de doses de perseverança e disciplina, e também de intuição.

Intuição, disciplina e cursos de escrita criativa

A intuição é um sentido difícil de explicar, mas pode tentar-se: é um pressentimento irracional de certo e errado, um sim ou um não que se impõe. Trata-se de uma decisão não racional que, possivelmente, estará ligada a uma formação inconsciente, feita ao longo do tempo e que não sabemos explicar.

Toda a experiência deixa dados. Imagino-os guardados algures, mesmo quando os esquecemos. Talvez seja aí que mora a intuição de um artista. Uma das partes mais deliciosas da escrita é não ser uma ciência e permitir-me afirmar coisas deste tipo.

Os cursos de escrita criativa são interessantes, mas a curiosidade e a criatividade têm de estar já incluídas no pacote a trabalhar, não no que se vende

Para mim, a intuição é também uma forma de dar unidade às técnicas que vamos aprendendo. É ela que sustenta a consistência e a coerência de uma obra.

Quanto aos cursos de escrita criativa: são, de facto, interessantes, mas a curiosidade e a criatividade não podem ser aquilo que se compra; têm de vir já com a pessoa, como matéria-prima. Diz-se que estes cursos nos dão métodos. Eu acredito. Métodos aprendem-se - e, sim, podem ser úteis.

Quando eu dava aulas e os alunos bloqueavam logo no início de um texto, eu perguntava-lhes: “se te pedir que me escrevas uma descrição do que sentes sobre o assunto xis, o que tens vontade de escrever?”. Eles respondiam-me oralmente, e eu devolvia: “escreve exatamente o que acabaste de me dizer”. Ficavam boquiabertos. “Escrever isto que disse? Então e a introdução?”

Mas é precisamente assim que se começa. Escrevam o que pensam, escrevam o que sentem. Tragam para o texto a mesma tristeza, alegria, frustração, ironia, raiva, ridículo com que isso foi pensado. Usem as palavras comuns, as do dia a dia. Escrevam sem cerimónia. Não se preocupem com a arquitectura logo de início, porque a organização pode ser tratada no fim. Primeiro, garimpem o ouro; depois, fazemos os anéis.

A escrita técnica, essa, tem método. E é uma maçada. Atas, cartas formais, relatórios, memorandos. Sei fazer isso tudo com competência, mas adormece quem escreve e adormece quem lê. Ainda assim, claro que eu queria que a escrita entusiasmasse os meus alunos como me entusiasma a mim.

Nem toda a gente tem de escrever romances

A pergunta inicial - sobre o método de escrita - costuma trazer escondida outra ideia: a de que ser escritor está ao alcance de qualquer pessoa, desde que se descubra a fórmula. Com humildade, deixem-me esclarecer que não está. Nem com curso nenhum.

É verdade que todos sabemos ler e escrever, mas isso não significa que todos tenhamos de produzir romances. Não é necessário. Podemos escrever diários, memórias, biografias, ensaios. Podemos cumprir a necessidade de expressão escrevendo sem destino, sem público. Se calhar, até é o melhor: escrever porque sim, porque nos faz bem.

Eu escrevo muitas vezes para escapar à falta de sentido, à tristeza. Para me sentir livre - o que é falso. Ninguém é livre.

Hoje, com a possibilidade de publicar online, expor o trabalho tornou-se muito mais simples. E, se aquilo que escrevemos tiver um interesse que não seja apenas privado, alguém acabará por encontrar. Há antenas afinadas que fazem ruído estridente quando detectam trabalho bom, seja em que área for.

Uma coisa é escrever com intenção comunicativa - escrever para levar informação a alguém - e outra, muito diferente, é escrever com ambição artística. As pessoas que escrevem, ou que trabalham artisticamente, foram-se dirigindo para ali. Quando deram por isso, já lá estavam.

A maior parte dos artistas não procurou conscientemente aquilo que faz, ainda que tenha tomado decisões que a isso conduziram. Seguiram inclinações com que já vinham equipados, ou que foram adquirindo devagar.

Por isso, não me peçam um método de escrita. Eu não tenho método. Eu escrevo.

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