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Tempestade "Kristin": medo persistente e apoio psicológico em Leiria

Duas mulheres e uma criança sentadas numa sala com janelas grandes, enquanto um arco-íris aparece no céu cinzento lá fora.

Consultar as previsões meteorológicas passou a ser um reflexo: em muitas das zonas mais atingidas pela tempestade "Kristin", há quem o faça vezes sem conta ao longo do dia. A inquietação só abranda quando acompanham cada nova atualização, como se esse controlo permanente pudesse impedir que o pior volte a acontecer.

Ao mesmo tempo, a forma de sentir o tempo mudou de maneiras mais subtis. Um sopro de vento quase impercetível - no rosto, no cabelo, nas janelas que abrem e fecham devagar, ou numa porta que treme de leve - chega para interromper o que se está a fazer. Segue-se um silêncio forçado, corpo imóvel, ouvidos atentos, peito apertado e respiração presa, num estado de alerta que custa a desligar. São estas marcas discretas da tempestade, impossíveis de quantificar em telhados arrancados, árvores no chão ou estradas fendidas, e que, ainda assim, ficam e poderão demorar mais a sarar.

“A palavra ‘medo’ é a que mais ouvimos por parte das pessoas que nos procuram. Ainda hoje, é um dos principais temas que trazem para o atendimento psicológico. O medo ainda está muito intensificado. Passou a dominar a vida de crianças, jovens e adultos”, relata Susana Neves, psicóloga na Câmara Municipal de Leiria, integrada numa das equipas municipais criadas para apoiar psicologicamente a população atingida pela tempestade "Kristin".

Trata-se, descreve, de um receio bem concreto, que aparece quando “ouvem barulhos que não lhes são familiares e ficam logo a imaginar o que estará a acontecer”. Nos adolescentes, acrescenta, torna-se especialmente notório: andam “muito preocupados com o estado do tempo” e procuram informação de forma constante. E o simples som do vento, ou outro ruído, basta para que “fiquem logo em estado de alerta e com muita dificuldade em gerir esta emoção”.

Uma resposta psicológica no terreno

Depois do temporal e já com as necessidades mais imediatas asseguradas - desde logo a alimentação - a Câmara de Leiria avançou, no início de fevereiro, com equipas de apoio psicológico no terreno. Ao todo, foram mobilizados 21 profissionais: psicólogos do município, especialistas indicados pela Ordem dos Psicólogos Portugueses e técnicos de associações locais, como a InPulsar e a Mulheres do Século XXI. O acompanhamento acontece nas juntas de freguesia ou em casa das pessoas, quando não conseguem deslocar-se ou quando preferem ser atendidas ao domicílio.

Desde o arranque desta resposta, foram concretizados 275 atendimentos presenciais, aos quais se somam 131 através de uma linha de apoio psicológico criada pelo município após a tempestade, pensada como primeiro contacto para escuta e ajuda imediata. No total, contabilizam-se 406 atendimentos em três meses, indica ao Expresso Ana Valentim, vereadora da Câmara de Leiria com o pelouro do Desenvolvimento Social.

Entre as pessoas acompanhadas há pouco em comum para lá do motivo do pedido de ajuda: vivem em freguesias diferentes e pertencem a várias idades, incluindo idosos em meio rural - um dado que a vereadora admite ser “surpreendente”, porque “há mais resistência nestas faixas etárias em procurar ajuda psicológica”.

Em algumas situações, “um ou dois atendimentos” foram suficientes para a pessoa ficar “mais tranquila e estável”. Contudo, na maior parte dos casos o processo prolonga-se. Quando se justifica, existe referenciação para a psiquiatria hospitalar, algo que já ocorreu em casos “pontuais”. “Estamos a falar de pessoas que já tinham fragilidade emocional e cuja situação agora agravou." O apoio pode ser solicitado diretamente à autarquia ou chegar por via das assistentes sociais nas juntas de freguesia, que também têm vindo a sinalizar situações de maior vulnerabilidade.

No quadro desta resposta, a Ordem dos Psicólogos Portugueses mobilizou igualmente 24 psicólogos da Bolsa de Intervenção Psicológica em Situação de Catástrofe, em articulação com a Proteção Civil, o INEM, autarquias e outras estruturas locais, atuando em vários concelhos afetados, entre os quais Leiria, acrescenta ao Expresso.

“As pessoas desmoronavam”

Susana Neves esteve desde o primeiro momento no terreno. “Percebeu-se logo a necessidade de dar apoio imediato. Ninguém tinha vivido uma situação desta dimensão. Uma coisa é ver na televisão, outra é estar no terreno e perceber a dimensão da tragédia.” Explica que, diariamente, as equipas de apoio psicológico faziam uma reunião de coordenação logo de manhã e seguiam depois para as 20 freguesias do concelho, quase sempre em duplas. O trabalho começava com o contacto junto das juntas de freguesia, que servia de base para sinalizar casos e agendar visitas domiciliárias.

Na fase inicial, predominavam pessoas “muito aflitas, frágeis, inseguras”, sem perceberem por onde começar, “com casas destruídas, com a vida de repente parada”. O quadro era de “pânico, desespero, medo, confusão mental e muitas lágrimas”. “As pessoas viam ali caras desconhecidas, mas que chegavam com disponibilidade para ouvir, e depois desmoronavam. Choravam e perguntavam-nos muitas vezes: ‘Como é que eu vou agora reconstruir o que andei uma vida inteira a construir?' Foi muito dramático ver pessoas que perderam tudo, a casa, os animais domésticos, as galinhas, os porcos, as hortas, os terrenos.” O essencial, diz, passava por “chegar, ouvir, acolher, tentar desconstruir um bocadinho, dar algum alento e explicar que o que estavam a sentir era normal”.

Com o avançar das semanas, porém, a tristeza e o desespero abriram espaço a outra emoção: a revolta. “O que prevalece atualmente é a revolta”, afirma Susana Neves. “Porque é que isto me aconteceu?”, e “porque é que os apoios não chegam?” são perguntas que, sublinha, se repetem.

Em paralelo, muitas pessoas sentem-se hoje mais deixadas à sua sorte. “No início houve uma grande união e uma enorme manifestação de humanismo. Apareceram muitos voluntários, muitas pessoas a ajudar, a colocar lonas, a levar alimentos, mas também simplesmente a dar uma palavra de apoio. Isso trouxe algum alento.” Agora, nota, “as pessoas aparecem menos” e há quem “já se sinta sozinho novamente nesta reconstrução das suas vidas”. Também os apoios “estão a demorar a chegar”. “O tempo destas pessoas é diferente do tempo burocrático.”

Tudo isto implica um processo exigente de aceitação, e nem todos o conseguiram fazer. “As coisas nunca mais vão ser como eram. Nada vai voltar a ser igual ao que era antes do dia 28 de janeiro. Algumas pessoas conseguem adaptar-se e procurar soluções; outras ficam mais presas ao que perderam e têm mais dificuldade em seguir em frente.” As equipas mantêm o apoio psicológico no terreno e, em simultâneo, fazem seguimento à distância para perceber a evolução de quem já tinha sido acompanhado.

“Houve uma altura em que já nem conseguia comer”

Conceição (nome fictício), 61 anos, vive na cidade de Leiria e foi uma das pessoas que procurou apoio psicológico após a tempestade. Os acontecimentos dos últimos meses vieram agravar uma depressão que a acompanha há anos. Poucos dias depois do temporal, recebeu em casa o namorado, de 58 anos, e os dois filhos dele, de 12 e 15 anos, depois de a habitação onde viviam ter ficado sem condições. “Chovia lá dentro”, descreve. Desde então, os quatro passaram a viver num T0 pequeno, o de Conceição.

“É um espaço muito, muito pequeno, com uma única divisão, além da casa de banho. Não há condições para cozinhar, para arrumar coisas. Os meninos dormem no chão, em colchões de campismo que tivemos de comprar. A roupa está em sacos porque eu não tenho sítio onde a pôr. Os livros deles ficam nas mochilas, no chão.” Ao final do dia, quando estendem os colchões, “já ninguém consegue andar de pé”. “Se uma pessoa quiser passar, tem de pisar o colchão das crianças.”

Somam-se ainda as noites difíceis: para conseguirem descansar, os adolescentes dormem de auscultadores. “A rua onde vivo é muito barulhenta até altas horas da noite. E eles todos os dias têm de acordar às seis da manhã.” Com o tempo, o ambiente foi-se tornando mais “stressante” e “cansativo”, e o corpo de Conceição deu sinais claros. “Comecei a ter muitas dores musculares, problemas intestinais, febres, anemia. Houve uma altura em que já nem conseguia comer. O stress era tanto que vomitava o que comia.”

Procurou o médico de família, que a aconselhou a pedir apoio psicológico através da Câmara de Leiria. Contactou a autarquia, explicou o que estava a viver e foi encaminhada para Susana Neves. Teve consultas e mantém contacto com a psicóloga caso volte a precisar. Diz que o acompanhamento “ajudou muito”, porque, “às vezes, só o facto de falarmos dos nossos problemas com alguém que nos entende já nos faz sentir mais leves”.

Ainda assim, os dias difíceis continuam. O companheiro procura agora uma casa para arrendar, uma vez que a habitação onde vivia vai demorar a recuperar. Mas a procura tem sido desanimadora. “As rendas são muito altas. Vamos ver casas e depois chegamos lá e não têm nada a ver com as fotografias. Ainda hoje fomos ver uma e viemos os dois desanimados.”

Susana Neves refere que os pedidos de ajuda já não chegam com a mesma frequência do início. Mesmo assim, o apoio psicológico do município - pela linha telefónica criada após a tempestade ou com equipas no terreno - manter-se-á sem data para terminar, assegura Ana Valentim, que acrescenta terem sido contratadas recentemente mais duas psicólogas para reforçar as equipas.

A razão, sublinha, é que as necessidades não só se mantêm como podem ainda agravar-se. “Os técnicos no terreno têm-nos alertado que muitas pessoas continuam focadas na recuperação das habitações, nos atrasos nos apoios, nas seguradoras. Quando esta fase passar, o receio é que interiorizem o que aconteceu e, como se costuma dizer, lhes ‘caia a ficha’. É aí que podem ficar mais frágeis, com mais stress e ansiedade, e que vão precisar mais da nossa ajuda. Vamos manter estas equipas o tempo que for necessário.”

De acordo com a Ordem dos Psicólogos, é esperado que, ultrapassada a fase inicial de “choque e desorientação", se tornem mais visíveis "o cansaço, a frustração, a ansiedade e a revolta“, sobretudo ”quando continuam por resolver problemas de habitação, trabalho, rendimentos, saúde, realojamento, acesso a apoios ou reconstrução". A entidade alerta que a recuperação psicológica “não depende apenas de apoio emocional”, mas também da “recuperação das condições concretas de vida”. E para isso, acrescenta, é decisivo assegurar “segurança, habitação, estabilidade económica, acesso a cuidados de saúde e saúde mental, regresso às rotinas e reconstrução das redes comunitárias”.

A Ordem dos Psicólogos está agora a preparar uma proposta de intervenção comunitária com o objetivo de reforçar a preparação das populações para futuras situações de crise. O documento, adianta, será apresentado à Estrutura de Missão criada pelo Governo para coordenar a recuperação e reconstrução das zonas afetadas pela tempestade "Kristin".

O impacto nas crianças e jovens

Crianças e jovens estão entre os grupos emocionalmente mais afetados. Com isso em mente, o município lançou há pouco o projeto Reminder, destinado a jovens dos 13 aos 18 anos, com consultas psicológicas gratuitas em linha. A iniciativa nasceu da perceção de que muitos continuam a lidar com o impacto emocional da tempestade e das consequências que se seguiram. “Alguns podem ter vivido situações traumáticas naquela noite e ter dificuldade em falar sobre isso, mesmo com familiares mais próximos”, explica a vereadora.

Nas escolas do concelho, através do projeto “Abraços que Cuidam”, equipas multidisciplinares - com psicólogos, terapeutas familiares, mediadores e outros profissionais - passaram a dinamizar sessões em turmas do 1.º ciclo sinalizadas por docentes devido a “ansiedade, stress ou maior fragilidade emocional”, refere Anabela Graça, vice-presidente da Câmara de Leiria, responsável pelos pelouros da Educação e Cultura. As sessões abrangeram 96 turmas do 1.º ciclo, num total aproximado de 2300 crianças. Entretanto terminaram, mas as equipas escolares mantêm-se disponíveis para intervir novamente sempre que se justifique.

Nos encontros, os alunos eram convidados a desenhar e a falar sobre o que sentiam. “Quase todos desenhavam árvores caídas e casas sem telhado”, recorda a autarca. Houve, porém, imagens que ficaram particularmente marcadas nas equipas. Num dos casos, o desenho de uma menina de sete anos mostrava um carro estacionado junto a uma casa atingida por uma árvore - era o carro dos vizinhos, onde a família fora obrigada a dormir por já não ter casa habitável. Noutro desenho, enviado pela vereadora por WhatsApp, veem-se dois gatos ao lado de um grande tornado escuro, composto por vários riscos circulares e desordenados, e, por cima, a frase: “Eu estou com medo que os meus gatos morram.”

Hoje, os mais novos parecem mais serenos, mas o medo não desapareceu. “Ainda há cerca de uma semana tivemos uma noite com muito vento e os diretores disseram-nos que várias crianças chegaram à escola muito assustadas. Era um vento normal, nada de especial. Mas bastou o barulho para ficarem novamente com medo. Até eu fiquei.”

“No limite do desespero”

Associações, voluntários e outras estruturas locais tiveram também um papel relevante no apoio às populações atingidas. Em Leiria, Raul Testa, presidente da associação Asteriscos, ajudou a organizar uma rede de ajuda alimentar, psicológica e de fisioterapia, que percorreu algumas das freguesias mais afetadas a norte do concelho. Diz que a decisão surgiu após começarem a chegar relatos, poucos dias depois da tempestade, de pessoas “no limite do desespero”. “Falamos de pessoas que passaram vários dias sem luz, sem água, sem comunicações, muitas delas com as casas completamente destruídas. Viram os seus bens à chuva, inundados, estragados, e entraram em desespero profundo.”

A associação preparou um camião com gabinetes improvisados de psicologia e fisioterapia e, em simultâneo, realizou visitas domiciliárias. Em duas semanas, deram apoio a 186 famílias. Segundo Raul Testa, os psicólogos depararam-se com “muita ansiedade, stress, medo e desespero”, algo que se refletiu nas notas clínicas que lhe foram chegando e que agora partilha: “Choro frequente”, “receio de perder os filhos pelas condições precárias da habitação”, “dificuldade em dormir”, “ataques de pânico sempre que ouve um vento mais forte”.

E, para muitos - incluindo ele próprio - esse medo continua presente. “Agora, quando vem um bocadinho de vento, começamos todos a falar uns com os outros com aquele sorriso amarelo, que é como quem diz: Tenho medo, mas não vou dizer que tenho medo.”

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