Saltar para o conteúdo

“Fantasmas”, de Siri Hustvedt, e outros livros por arrumar

Mesa de madeira com vários livros empilhados, óculos sobre livro aberto e fotografias antigas.

“Fantasmas”, de Siri Hustvedt: luto, memória e um tempo fora do lugar

“Estou viva. O meu marido, Paul Auster, está morto.” É com esta frase que se abre “Fantasmas”, o novo livro de memórias de Siri Hustvedt, publicado pela D. Quixote. Ao longo destas páginas, a autora vai enchendo uma espécie de arquivo íntimo - como se montasse uma estante onde tenta, na medida do possível, pôr em ordem décadas de vida partilhada.

Depois da morte de Paul, em abril de 2024, o tempo, diz Siri, ficou “irreconhecivelmente desequilibrado”. Tanto faz que um dia seja esse dia ou outro, que estejamos num mês ou noutro. Para não se perder, precisa de confirmar, repetidamente, o dia, o mês e a hora. A morte, aqui, não surge como ideia abstracta: é a força que desarruma a vida.

Nas lembranças, aparecem detalhes concretos do quotidiano do casal e das regras silenciosas que o sustentavam. Um deles era a fronteira do trabalho de cada um: “Ele nunca mexia na minha secretária. Eu nunca mexia na dele.” Paul, recorda, “era possessivo com objetos que considerava extensões do próprio corpo: as canetas, mas também as chaves de casa, a agenda minúscula que eu encomendava todos os anos de Charing Cross e a carteira, e guardava estes três últimos no bolso direito da frente”. Ela continua a dormir no lado da cama que lhe corresponde, que sempre lhe correspondeu.

Conheceram-se em 1981. A última vez que dormiram nessa cama foi há dois anos, a 28 de abril; ele morreria a 30. Paul, escreve Siri, acreditava que ainda dispunha de mais tempo.

“O Enraizamento”, de Simone Weil: necessidades da alma, desenraizamento e guerra

Há, nestas memórias, um tom de cinzento claro, quase nórdico - talvez por causa das origens norueguesas de Hustvedt. É um registo muito distante daquele que encontramos num livro que a sua autora, Simone Weil, não chegou a concluir. Ainda assim, a incompletude é talvez um dos seus paradoxos, pois parece estar completo, não lhe falta nada, só a autora saberia o que lhe falta e já não está cá para o dizer.

Escrito em 1943 e editado agora pela Relógio D’Água, “O Enraizamento” é o último texto da filósofa. Organiza-se em três partes: as necessidades da alma - onde surgem, entre outras, a ordem, a liberdade, a obediência, o risco e a igualdade -, depois o desenraizamento e, por fim, o enraizamento.

O contexto é o da II Guerra Mundial. Weil passou por Nova Iorque e, mais tarde, por Londres, com a intenção de integrar a resistência francesa coordenada pelo General De Gaulle. No próprio ano em que escreve este livro, renuncia e, já doente com tuberculose, recusa ser alimentada como gesto político.

“Fala-se em castigar Hitler”, escreve. “Mas não se pode castigá-lo. Ele desejava uma única coisa e alcançou-a: ficar na história. Mesmo que o matem, que o torturem, que o encarcerem, ou que o humilhem, a história estará sempre lá para proteger a sua alma de ser atingido pelo sofrimento e pela morte. (...) Sobretudo, nada impedirá que, daqui a vinte, cinquenta, cem ou duzentos anos, um jovem rapazinho sonhador e solitário, alemão ou não, possa pensar que Hitler foi um ser grandioso, que teve de uma ponta à outra da sua vida um destino grandioso e desejar, com toda a sua alma, ter um destino semelhante. Coitados dos seus contemporâneos, se isso vier a acontecer.”

Esse tempo chegou. Esses rapazinhos. Coitados de nós, portanto.

“Reflexões sobre a Dor”, de Umberto Eco: filosofia, religião e conhecimento

Noutro registo temporal, “Reflexões sobre a Dor”, de Umberto Eco, chega pela Gradiva. Trata-se de um micro-ensaio que nasce de uma aula magistral apresentada pelo escritor e semiólogo na Academia das Ciencias de Medicina Paliativa de Bolonha, em 2014.

Eco percorre o modo como a filosofia e as religiões se debruçaram sobre a noção de dor, partindo da Antiguidade, passando pela Idade Média, detendo-se no Renascimento e no romantismo. Observa que, no pensamento bíblico, “decidir não saber sobre a causa escondida das coisas (...), resignando-se ao destino e à vontade divina, constituía, para além do máximo ato de fé, também o mais elevado grau de sabedoria”; já no romantismo, diz, a lógica vira-se do avesso, porque “só através da dor se alcança o conhecimento” e “o que conta é, então, não tanto a consciência da dor, mas antes o conhecimento obtido” através dela.

A certa altura, Eco chama Schopenhauer: “se a nossa vida fosse infinita e indolor, a ninguém, talvez, viria a cabeça perguntar-se porque é que o mundo existe e porque é que é feito exatamente assim.” E, quando toca nas novas fronteiras da medicina - empenhadas em reduzir a dor até ao ponto de deixar de ser encarada como inevitável -, fecha com a ideia de que a compreensão da dor já é um passo para a controlar. “Sabendo do que estamos a sofrer, sabemos resistir melhor. O conhecimento, quero dizer, a cultura, eleva o limiar do sofrimento.”

E assim exorta-nos, não sem humor, a lidar com a nossa “próxima dor de dentes”.

OUTROS LIVROS POR ARRUMAR

FICÇÃO

“As Reputações”, de Juan Gabriel Vásquez (Alfaguara)

Romance de 2013 do escritor colombiano, agora reeditado entre nós, foi descrito pelo “The Guardian” como “tenso e comovente, provido de uma visão trágica e poderosa”. E Yiyun Li, vencedora de um Pulitzer em 2026, afirmou que é “magistral”.

“Em Busca”, de Naguib Mahfouz (Caminho)

Do autor nascido no Cairo em 1911 - que viria a receber o Nobel da Literatura em 1988, sendo até hoje o único escritor de expressão árabe a alcançar essa distinção -, chega um romance que se abre assim: “Lágrimas rasaram-lhe os olhos. Apesar do controlo de emoções e da repugnância que sentia em chorar perante aqueles homens, deixara-se vencer.”

“No Meu Fim Está o meu Começo”, de Filipa Martins (Quetzal)

Depois da biografia de Natália Correia, a autora volta ao romance. Nele, lê-se: “7,8 mil milhões de seres humanos habitam o nosso planeta. Será este sentado à minha frente, curvado, ligeiramente peludo nos lóbulos das orelhas, com as cavidades oculares a pender em gota, saliências bojudas a emprateleirar o olhar, o meu pai?”

NÃO-FICÇÃO

“Défice”, de Emma Holten (Objectiva)

Um ensaio que, segundo esta consultora de políticas de género e criadora do projecto Consent, trata “uma história de omissões ou o problema da economia moderna”. Por outras palavras: como o trabalho de cuidado, que recai sobretudo sobre as mulheres, é contabilizado como um ‘défice’ - e por que razão esse enquadramento é um erro grosseiro.

“Destroços dos Descobrimentos”, de Simon Park (Presença)

Um livro que recusa o lado mítico e heróico dos processos expansionistas e recupera uma realidade muito mais violenta, caótica e improvisada que os atravessou.

“Sobre o Futuro das Nossas Instituições Educativas”, de Friedrich Nietzsche (IUL)

Conjunto de cinco palestras proferidas pelo filósofo alemão em Basileia, entre Janeiro e Março de 1872, sobre a chamada ‘educação clássica’, onde critica a instrumentalização economicista do ensino.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário