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Keir Starmer enfrenta grande teste eleitoral em Inglaterra, Escócia e País de Gales

Homem concentrado em roupa azul junto a mapa sobre mesa, com grupo de pessoas e caixas transparentes ao fundo.

O primeiro-ministro do Reino Unido enfrenta esta quinta-feira o seu teste eleitoral mais exigente desde as legislativas de 2024, nas quais o Partido Trabalhista garantiu uma maioria absoluta. Em Inglaterra, vão a votos mais de cinco mil lugares, distribuídos por 136 câmaras municipais e circunscrições (comparáveis, em Portugal, a freguesias), num tipo de eleição que tende a mobilizar poucos eleitores, mas que, mesmo assim, costuma funcionar como barómetro do estado de espírito político. Em paralelo, Escócia e País de Gales elegem novos representantes para os respetivos parlamentos regionais.

As secções de voto abriram às 7h (hora de Portugal Continental) e fecham às 22h. A contagem deverá prolongar-se e os resultados são esperados ao longo da madrugada de sexta-feira.

O enquadramento é especialmente sensível para Keir Starmer. Ainda não passaram dois anos desde a chegada a Downing Street e já surgem sinais de desgaste rápido, maior contestação dentro do partido e um panorama político que testa, como há muito não acontecia, o domínio histórico do bipartidarismo.

Durante grande parte do último século, a vida política britânica foi, na prática, um duelo entre conservadores e trabalhistas. O Labour substituiu os liberais enquanto principal força da esquerda britânica na década de 1920 e, desde então, Westminster habituou-se a uma alternância quase exclusiva entre os dois. Esse padrão começou a ser posto em causa há mais de uma década e tem sido pressionado com intensidade acrescida nos últimos dois anos.

Para Andrew Westwood, antigo assessor de vários governos britânicos e da Câmara dos Lordes, decorre uma mudança de fundo. “O apoio aos dois grandes partidos está a diminuir significativamente”, afirma ao Expresso. Na sua leitura, o sistema aproxima-se de um desenho com “cinco partidos principais - ou seis ou sete, se incluirmos as forças nacionalistas da Escócia e do País de Gales”.

As projeções nacionais mais recentes apontam no mesmo sentido. Numa sondagem do YouGov divulgada esta semana para eleições legislativas, o Reform UK (direita populista) surge na liderança com 25% das intenções de voto, à frente do Partido Trabalhista (18%), do Partido Conservador (17%), dos Verdes (15%) e dos Liberais Democratas (14%). Trata-se de uma dispersão pouco comum: cinco forças políticas separadas por apenas onze pontos percentuais, com os dois partidos tradicionais em patamares historicamente baixos.

Nas eleições locais inglesas desta quinta-feira, prevê-se que os dois partidos do centro do sistema paguem um preço elevado. De acordo com a projeção do Centro de Eleições da Universidade de Exeter, o Partido Trabalhista arrisca-se a perder cerca de 1425 representantes - aproximadamente metade dos que detém -, enquanto os conservadores podem ceder 907 lugares, descendo para 455.

No sentido contrário, o Reform UK deverá ter um salto expressivo: de apenas três representantes locais (o partido só começou a disputar a maioria das eleições depois das legislativas de 2024) para cerca de 1355. Os Verdes podem registar a segunda maior subida, com mais 555 lugares. Já os Liberais Democratas, segundo a mesma leitura, deverão reforçar o peso municipal que já tinham e aproximar-se dos mil eleitos.

Reform e Verdes: duas faces da mesma insatisfação

Embora estejam em extremos opostos, a ascensão simultânea de Verdes e Reform tem ligações. Westwood realça que ambos “respondem a frustrações semelhantes, a partir de perspetivas políticas opostas”.

O Reform UK, comandado por Nigel Farage, afirmou-se como o principal recetáculo do protesto populista à direita. Herdeiro político dos eurocéticos Partido da Independência (UKIP) e Partido do Brexit, ganhou escala depois do referendo de há dez anos que levou à saída do Reino Unido da União Europeia, e cresceu em zonas associadas a estagnação económica, perda de indústria e desigualdades regionais persistentes.

“ O partido tem tido êxito sobretudo entre eleitores que sentem insegurança económica e que o seu nível de vida piorou”, explica Westwood. A imigração permanece no centro da narrativa do Reform, sobretudo num contexto de forte pressão sobre serviços públicos, habitação e custo de vida.

Do outro lado, os Verdes canalizam um descontentamento de natureza diferente. Nos últimos dois anos, aceleraram junto de eleitorado urbano, jovem e com elevadas qualificações, com especial incidência em cidades universitárias e em antigos bastiões trabalhistas, incluindo Londres. A guerra em Gaza e a perceção de ambiguidade do Governo de Starmer em matérias de política externa também contribuíram para afastar parte do eleitorado progressista.

A velha-nova questão da união do Reino

O ato eleitoral não se limita a Inglaterra. Na Escócia e no País de Gales, as eleições para os parlamentos regionais acrescentam uma dimensão determinante: a pressão territorial sobre o Estado britânico.

Segundo a projeção da YouGov, o Partido Nacionalista Escocês (SNP) deverá manter-se como a maior força em Holyrood, embora sem maioria absoluta - um resultado que reforçaria a ambição de exigir um novo referendo à independência. John Swinney tem, com elevada probabilidade, condições para continuar à frente do executivo regional.

Os trabalhistas aparecem em quebra relevante em comparação com as legislativas de 2024, ao passo que conservadores, ecologistas e populistas de direita competem por espaço num parlamento cada vez mais fragmentado. O estudo aponta para um reforço do Reform, ainda que a distância para os níveis verificados em Inglaterra se mantenha. O SNP deverá conservar o poder que exerce desde 2007.

No País de Gales, a recomposição política poderá ser ainda mais marcada. Uma projeção do mesmo instituto coloca o nacionalista Plaid Cymru, liderado por Rhun ap Iorwerth, em trajetória para ser, pela primeira vez, o maior partido no Parlamento galês, ultrapassando os trabalhistas da atual líder regional, Eluned Morgan, tradicionalmente dominantes naquele território. Também aqui o Reform aparece em forte crescimento.

Westwood chama a atenção para o alcance estrutural deste quadro. “Poderemos chegar a uma situação em que Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte sejam governados por partidos nacionalistas que questionam o futuro do Reino Unido”. O sinal é inequívoco: a fragmentação partidária cruza-se com uma fragmentação territorial, reabrindo o debate sobre a coesão do Estado britânico. Na Irlanda do Norte, as eleições estão previstas para 2027, e o Sinn Féin (Nós mesmos), favorável à união com a Irlanda, lidera as sondagens.

Cerco a Keir Starmer está mais apertado

Quando amanhecer na sexta-feira, a posição de Starmer continuará, do ponto de vista formal, protegida. O Partido Trabalhista dispõe de uma maioria parlamentar confortável e o modelo britânico não oferece um instrumento simples para fazer cair um Governo.

No plano político, porém, o terreno é menos sólido. Nos últimos meses, Starmer tem acumulado pressão em várias frentes: críticas internas por falta de rumo ideológico do executivo, tensão crescente com a ala esquerda do Partido Trabalhista, a polémica em torno da fracassada reabilitação política de Peter Mandelson (associado ao milionário pedófilo americano Jeffrey Epstein) e, mais recentemente, a resposta do Governo à vaga de ataques antissemitas no Reino Unido.

Westwood considera que um mau resultado eleitoral agravará o cerco. “É inegável que existe descontentamento entre deputados trabalhistas e militantes do partido”, sustenta. Se à turbulência em Westminster se juntar a insatisfação no país que as sondagens parecem antecipar, o primeiro-ministro verá a sua margem de manobra encolher ainda mais.

Apesar disso, a contagem do tempo político não se traduz automaticamente numa queda rápida. “Não é ainda evidente ou consensual como os seus opositores internos poderiam destituí-lo neste momento”, acrescenta o académico de Manchester.

Mesmo que a falta de um sucessor consensual tenha ajudado a prolongar o “balão de oxigénio” de Sir Keir, começam a circular hipóteses nos bastidores. Entre os nomes mais mencionados estão o do autarca da área metropolitana de Manchester, Andy Burnhan; o da ex-vice-primeira-ministra Angela Rayner; e os dos ministros da Saúde, Wes Streeting, e do Ambiente, Ed Miliband - que liderou o Labour entre 2010 e 2015.

Um desfecho particularmente negativo - por exemplo, bem abaixo da fasquia simbólica de dois mil representantes eleitos - pode funcionar como detonador de dinâmicas internas, levando alguns membros do Governo e do partido, até agora leais, a concluir que é altura de procurar um novo homem (ou mulher) ao leme.

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