O desfile militar do Dia da Vitória, em Moscovo, ficou este ano associado a duas notas dominantes. Por um lado, o receio de Vladimir Putin, que converteu a montra do poderio bélico num formato reduzido e invulgar, sem tanques nem mísseis, quase sem convidados estrangeiros e sem meios de comunicação ocidentais. Por outro, a troça de Volodymyr Zelensky: pressionado à última hora por Donald Trump, o Presidente ucraniano recuou nas ameaças de enviar drones para a Praça Vermelha e assinou um decreto sarcástico para “permitir” a celebração russa deste sábado.
Apesar da trégua acordada entre as três partes - que deverá prolongar‑se até segunda‑feira -, a cerimónia já tinha sido planeada em modo minimalista, em resultado da psicose de um possível ataque ucraniano. O ato formal durou menos de 50 minutos, tornando‑se o mais curto da história moderna.
Putin surgiu com a solenidade habitual e, no discurso tradicional, estabeleceu um paralelismo entre os veteranos da II Guerra Mundial e os militares russos envolvidos na guerra na Ucrânia. “A grande façanha da geração vitoriosa inspira os soldados que hoje levam a cabo operações militares especiais”, afirmou Putin, acrescentando que “enfrentam uma força agressiva armada e apoiada por todo o bloco da NATO e, no entanto, os nossos heróis avançam”.
“A nossa causa é justa. A vitória foi e sempre será nossa”, concluiu o comandante supremo do exército russo. Sucede que este foi o seu quinto Desfile da Vitória sem que exista uma vitória na Ucrânia.
Norte-coreanos desfilam em Moscovo
Ao contrário da edição anterior, que coincidiu com o 80º aniversário do triunfo soviético sobre Hitler e na qual Putin mostrou armamento usado na guerra na Ucrânia (tanques T‑90, mísseis Iskander ou sistemas de defesa aérea S‑400), desta vez limitaram‑se a desfilar colunas de soldados. Entre elas seguiu uma representação da Coreia do Norte, que combateu na região russa de Kursk e cujos militares empunhavam espingardas prateadas.
A única demonstração de material bélico consistiu na projeção de um vídeo com drones e armas nucleares. No encerramento, uma discreta exibição aérea de aviões acrobáticos desenhou a bandeira russa no céu nublado da capital.
Na tribuna, e se no ano passado quase 30 dirigentes internacionais - como Xi Jinping, Lula da Silva, Nicolás Maduro ou Miguel Díaz‑Canel - funcionaram como escudos humanos, desta vez apenas os chefes de Estado de cinco países se sentaram ao lado de Putin: o Presidente da Bielorrússia, Aleksandr Lukashenko, o Presidente do Laos, Thongloun Sisoulith, e o sultão da Malásia, Ibrahim Iskandar. Também marcaram presença os líderes do Cazaquistão e do Uzbequistão, respetivamente Kassym Jomart-Tokayev e Shavkat Mirziyoyev, que inicialmente não tencionavam deslocar‑se a Moscovo, mas acabaram por entrar na lista na sexta‑feira. A todos, Zelensky tinha recomendado que não comparecessem às celebrações.
A troça “humanitária” de Zelensky
As televisões estrangeiras, presença habitual no evento, ficaram impedidas de gravar o desfile depois de a administração presidencial lhes ter retirado a acreditação previamente atribuída. A emissão oficial russa não foi transmitida em direto, mas com um atraso de cerca de um minuto, para existir margem em caso de incidente.
As medidas de segurança do Kremlin no centro da cidade também não foram aliviadas. Os militares mantiveram‑se de guarda com metralhadoras apontadas ao céu, ruas e estações de metro junto à Praça Vermelha foram esvaziadas e a internet móvel deixou de funcionar desde cedo, numa tentativa de dificultar voos de drones.
Nenhum drone se aproximou do coração de Moscovo. Depois de uma semana de ameaças recíprocas, acabou por ser o Presidente dos Estados Unidos da América a acudir a Putin ao travar Zelensky. O líder ucraniano tinha insinuado a hipótese de atacar o desfile militar, após a Rússia não ter respeitado um primeiro cessar‑fogo impulsionado por Kiev na quarta‑feira anterior. O Kremlin, por seu lado, advertira que, se Kiev se atrevesse a estragar as celebrações do Dia da Vitória, responderia com um bombardeamento contra a capital ucraniana.
A cedência de Zelensky custou a Putin uma troca de prisioneiros - mil por cada lado - e, acima de tudo, permitiu à Ucrânia apresentá‑la como um gesto de clemência perante a súplica russa. “A Praça Vermelha importa‑nos menos do que as vidas dos prisioneiros ucranianos que podem regressar a casa”, escreveu o Presidente ucraniano na rede social X.
Zelensky promulgou um decreto especificando que “autorizava” o desfile por um “propósito humanitário” e excluía explicitamente a praça do raio de utilização das suas armas. A provocação não agradou ao Kremlin, que afirmou que “não precisa da permissão de ninguém” para celebrar a sua festa mais sagrada.
Semanas de nervosismo
O temor dos drones ucranianos vinha a aumentar nas últimas semanas no topo do Kremlin. A sucessão de ataques a infraestruturas energéticas, portos de exportação de petróleo e fábricas de armamento no interior da Rússia deu ânimo a Kiev e gerou inquietação no exército russo. Os sistemas de defesa aérea russos, com falta de mísseis, não conseguem responder aos aparelhos ucranianos, que todas as noites atingem alvos e fazem a guerra entrar nas casas dos cidadãos russos. Num gesto pouco comum, o Governo russo reconheceu que teria de reduzir o formato do desfile devido à “ameaça terrorista” de Kiev.
A tensão subiu ainda mais na segunda‑feira anterior, quando um drone ucraniano atingiu um arranha‑céus residencial de luxo emblemático a poucos quilómetros da Praça Vermelha. A Torre Mosfilm não é um alvo qualquer: vê‑se de quase qualquer ponto do sudoeste da capital russa. Ali têm apartamentos, entre outros, a ministra da Agricultura e deputados da Rússia Unida, o partido de Putin. O edifício fica num bairro com muitas embaixadas. O aparelho não causou vítimas; provocou apenas estragos num dos pisos superiores e um grande susto entre os moradores.
O golpe teve um peso sobretudo simbólico. Se uma das máximas de Putin sempre foi impedir que a guerra chegasse a Moscovo, é alarmante que um drone ucraniano atinja um arranha‑céus habitado não pela população comum, mas por uma parte da elite russa.
O facto de ter sido Trump a ajudar o Presidente russo a salvar a face constitui também uma vitória psicológica para Zelensky e para os ucranianos. Em 2008, quando Putin passou a incorporar tanques e mísseis no desfile do Dia da Vitória, justificou a decisão dizendo que pretendia mostrar que eram “capazes de defender os seus cidadãos”. Passados 18 anos, tudo indica que não só não o consegue fazer como também não é capaz de proteger os tanques nem os mísseis.
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