No seu mais recente livro, “Para o Povo: Combater o Autoritarismo e Salvar a Democracia” (edição portuguesa na Penguin, 2026), Anthony Clifford Grayling (A. C. Grayling) parte de cerca de duas décadas marcadas por crises sucessivas - da finança global às migrações, da pandemia à guerra no continente europeu - para mostrar de que forma o mal‑estar social tem sido instrumentalizado por forças extremistas e como os fundamentos democráticos se vêm a degradar. Ao mesmo tempo, apresenta propostas de correção e aperfeiçoamento destinadas a proteger liberdades civis, direitos humanos e o Estado de Direito.
A. C. Grayling e o livro “Para o Povo: Combater o Autoritarismo e Salvar a Democracia”
Grayling, filósofo e escritor britânico, nasceu em 1949 na Rodésia do Norte (hoje Zâmbia). Foi fundador e diretor do New College of the Humanities (Universidade Northeastern, em Londres), onde ensina Filosofia. É autor e organizador de cerca de 30 livros e escreve com regularidade para publicações como “The Times”, “The Guardian”, “Financial Times” e “The Economist”, além de participar frequentemente em programas de rádio e televisão, incluindo na BBC e na CNN.
A maior ameaça à democracia e o avanço do autoritarismo
No livro, afirma que países antes liberais estão a escorregar para o autoritarismo. Qual lhe parece ser, hoje, a ameaça mais séria à democracia?
É muito complicado reduzir tudo a uma única causa. A ameaça dominante é, claramente, a expansão do impulso autoritário - não apenas como disposição mental, mas como forma concreta de governar. Vemo‑lo em executivos como o dos Estados Unidos [EUA]. Na Europa, ainda que Viktor Orbán tenha sido derrotado na Hungria, há outros indícios inequívocos: a Alternativa para a Alemanha, a extrema‑direita em França, a presença de partidos de extrema‑direita em Portugal e nos Países Baixos, ou o modo como se governa em Itália - embora Giorgia Meloni tenha sido, em certa medida, travada pelas exigências reais do poder. Em paralelo - e estes dois planos estão fortemente ligados - cresce também a frustração com o próprio mecanismo democrático. Espalhou‑se a ideia de que as instituições democráticas das economias desenvolvidas não têm respondido a quem vive maiores dificuldades. Por isso, atravessamos uma fase especialmente dura, intensificada pelo exemplo de Donald Trump nos EUA, que encorajou e deu legitimidade a forças de extrema‑direita em vários países.
Meloni era vista como ponte entre Bruxelas e Washington, mas a ligação a Trump tem-se degradado, por causa da guerra com o Irão e de declarações do Presidente dos EUA sobre o Papa. Até que ponto estas alianças são precárias, capazes de virar rapidamente hostilidade?
Trump ultrapassou limites em demasiados temas ao mesmo tempo. Com a guerra contra o Irão e, agora, com os ataques ao Papa, poder‑se‑ia esperar uma reação cívica vigorosa em defesa de valores liberais. Ainda assim, as pessoas parecem reagir com mais intensidade ao preço dos combustíveis ou a ataques ao seu líder religioso do que a agressões aos princípios democráticos. Seja como for, Trump agitou demasiadas colmeias em simultâneo - e as abelhas começam agora a responder. Até Benjamin Netanyahu, provavelmente o aliado mais próximo, tem demonstrado grande perícia a manobrá‑lo, arrastando‑o para um ataque ao Irão que a extrema‑direita israelita deseja há muito tempo. As motivações podem entender‑se, embora não se possam justificar. Trump está a afastar aliados naturais e apoios potenciais. Isso abre a hipótese de não completar o mandato, sobretudo à luz das eleições de novembro para o Congresso, que podem dar ao Partido Democrata margem para lhe reduzir seriamente a capacidade de ação.
Falhas internas, dinheiro e desinformação
No seu diagnóstico, contrapõe causas internas e externas para a crise democrática e sublinha problemas estruturais - como a manipulação de círculos eleitorais [prática de delinear as fronteiras dos círculos eleitorais de forma a conferir a um partido vantagem sobre os rivais ou a diluir o poder de voto de membros de minorias étnicas] ou o partidarismo extremo - a par de pressões vindas de fora. Em que medida a crise nasce dessas falhas internas e em que medida decorre da interferência de multimilionários e grandes empresas nas eleições?
Há três planos a considerar. O primeiro é doméstico: em democracias como a dos EUA, a polarização entre democratas e republicanos chegou a um patamar muito próximo de uma guerra civil - pelo menos uma guerra verbal, com consequências em atos concretos. Isso torna a governação extraordinariamente difícil. Basta observar quantas vezes o Congresso falha em aprovar um orçamento. Este padrão, em versões menos extremas, aparece noutros regimes democráticos: quando a governação fica permanentemente contaminada pelo confronto partidário, instala‑se uma frustração generalizada. A confiança - essencial à vida em sociedade - está em mínimos históricos. E isso alastra à política, aos meios de comunicação e até ao próprio conceito de informação, num ambiente de desinformação maciça, interna e externa, que dificulta uma conversa pública racional e bem informada. O segundo plano é o dinheiro. Há décadas que o grande capital molda profundamente a política. Pessoas e empresas com fortunas muito elevadas dispõem, na prática, de influência eleitoral desproporcionada. Isso vicia o funcionamento democrático e afasta os cidadãos do controlo efetivo sobre os centros de decisão. A isto acrescentam‑se campanhas deliberadas de desinformação por parte de atores como a Rússia ou a China, com o objetivo de corroer a confiança e amplificar a polarização. Quando todos estes elementos coincidem, formam uma verdadeira tempestade perfeita. E os regimes autoritários aproveitam essa convergência, apontando para casos como a China ou Singapura para sustentar a ideia - falsa, mas persuasiva - de que o autoritarismo é economicamente superior à democracia.
Onde deve ser traçado o limite entre liberdade de expressão e a desinformação que coloca a democracia em risco?
É uma questão decisiva. As duas grandes conquistas da democracia são as liberdades civis e o Estado de Direito - ninguém está acima da lei. Dentro dessas liberdades, a liberdade de expressão é central. Combater a expressão através de censura cria problemas graves e alimenta a desconfiança. A resposta mais eficaz à desinformação é mais e melhor informação. É crucial reforçar recursos informativos - nos media, nas redes sociais e nos meios audiovisuais - que mereçam a confiança dos cidadãos. Voltamos sempre ao tema da confiança. A própria inteligência artificial, apesar dos riscos, pode contribuir com soluções: por exemplo, associar a cada conteúdo um marcador que aponte para outras fontes relevantes, permitindo comparar versões e validar dados. Proibir ou censurar tende a sair pela culatra, porque reforça a ideia de conspiração e ainda intensifica a desconfiança.
No que toca ao dinheiro na política, que mecanismos de influência lhe parecem mais alarmantes e mais difíceis de corrigir?
O curioso é que não são particularmente difíceis de corrigir. Deveria existir um teto estrito para donativos políticos, acompanhado de transparência total. Ninguém entrega dinheiro sem esperar algo em troca. Nos EUA, uma decisão do Supremo Tribunal, em 2011/12, abriu espaço para estruturas formalmente independentes dos partidos angariarem e gastarem montantes gigantescos. Na prática, passou a ser possível ‘comprar’ a presidência com milhares de milhões de dólares. Isso converteu o sistema numa espécie de oligarquia, e não numa democracia a funcionar plenamente.
Perda de confiança e caminhos de reforma democrática
E porque é que a erosão da confiança se tornou tão generalizada?
As democracias tornaram‑se auto‑complacentes. As pessoas habituaram‑se às liberdades civis e ao gesto de votar, mas desligaram‑se do esforço que mantém uma democracia de pé: envolvimento, informação e participação ativa. Ao mesmo tempo, a democracia é lenta e barulhenta - e esse funcionamento tem custos. Ao longo dos últimos 50 anos, a influência do dinheiro diminuiu a capacidade do Estado para financiar educação, habitação, saúde e proteção social. Uma fatia importante da população ficou para trás, com a sensação de ser ignorada e com ressentimento acumulado. Esse ressentimento é facilmente aproveitado por populistas, que oferecem respostas simples e bodes expiatórios convenientes - imigração, elites, conspirações - para problemas complexos.
Apesar do tom sombrio do diagnóstico, o livro propõe soluções. Que reformas são mais importantes para defender a democracia?
Há dois campos fundamentais. O primeiro é cívico: os cidadãos precisam de estar informados, envolvidos e preparados para resistir a ataques às liberdades civis. Cada dia de indiferença é um dia ganho pelos autoritários. O segundo é institucional. Os sistemas eleitorais têm de ser verdadeiramente representativos. Muitos países continuam a operar segundo modelos - como o de Westminster - que deformam a representação e deixam de fora vozes relevantes. Além disso, governar não pode ser apenas prolongar, sem fim, a campanha partidária. Instituições bem desenhadas, com responsabilidades nítidas e escrutínio constante, reduzem o risco de abuso. Como defendeu Frederick Douglass [o líder mais importante do movimento pelos direitos civis dos afro-americanos no século XIX], a chave está em construir instituições que impeçam até as más pessoas de causarem danos graves quando chegam ao poder.
Para lá do voto, que ações concretas podem os cidadãos adotar para proteger a democracia?
O voto é valioso e deve ser exercido com responsabilidade, o que exige informação e reflexão para além do interesse individual. É importante ponderar a qualidade dos candidatos, e não apenas dos partidos. Depois, participar: escrever a representantes eleitos, juntar‑se a movimentos cívicos, sair à rua, envolver‑se. A democracia não se resume a eleições de tempos a tempos; requer atenção contínua. As assembleias de cidadãos e a democracia deliberativa são vias promissoras: estimulam debate informado, respeitador e orientado para soluções. Por fim, constituições e instituições precisam de manutenção constante. Tal como um motor, se não forem revistas e ajustadas, deixam de responder a um mundo em transformação - e foi isso que aconteceu ao longo das últimas décadas.
Hungria, EUA e o que esperar da próxima década
A derrota recente de Orbán na Hungria é motivo de esperança?
É um sinal encorajador. Prova que a resistência é possível. Ainda assim, Péter Magyar [que toma posse como primeiro‑ministro esta semana] terá desafios enormes: Orbán alterou profundamente os sistemas de ensino, universitário e eleitoral. Reverter e reformar será difícil e demorado. Magyar prometeu realinhar a Hungria de forma plena com a União Europeia e assumir uma posição mais moderada em relação à Ucrânia. Existem incentivos económicos fortes para cumprir essas promessas. Se falhar, o custo político será elevado.
Ao olhar para os próximos dez anos, o que sustenta um otimismo prudente e o que lhe causa maior inquietação?
O otimismo prudente vem de exemplos como a Hungria e do aumento da resistência nos EUA. Trump está a esticar demasiado os limites, o que desencadeia uma reação social e política relevante. A democracia americana mantém uma robustez estrutural considerável. A maior preocupação é a guerra com o Irão e as suas consequências para a economia global. Instabilidade, inflação e pressão sobre economias frágeis criam um terreno fértil para populismo e autoritarismo. Enquanto o mundo se concentra no Médio Oriente, beneficiam atores como a Rússia e a China. E, se a resposta à desinformação e à guerra cibernética continuar aquém do necessário, as democracias manter‑se‑ão expostas.
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