A narrativa, por si só, já seria digna de registo: o melhor jogador da Liga escocesa, que até há pouco mais de quatro anos andava pelo Campeonato de Portugal, nunca tendo passado do quarto escalão no futebol sénior em Portugal. Mas o insólito ganha outra dimensão quando esta história se cruza com a do Hearts, um clube que não conquista o campeonato há 65 anos e que, agora, está a ensaiar uma das façanhas mais improváveis do futebol europeu contemporâneo.
Hoje, Cláudio Braga é o rosto maior da equipa que lidera a Liga escocesa e que está a escassos passos de travar uma hegemonia que dura, sem interrupções, desde 1986, nas mãos dos colossos de Glasgow, Celtic e Rangers. O avançado português, recentemente eleito o melhor jogador da época pela Associação de Futebolistas do país, não esconde o espanto perante a dimensão do que está a viver: "Não sei o que é mais incrível. A minha história é pouco comum, mas o que o Hearts está a fazer é mesmo fora do normal. As duas são muito grandes", diz, ao JN.
Do Campeonato de Portugal à Noruega
O percurso dá-lhe razões de sobra para se orgulhar. Na formação, passou por emblemas como Boavista, Paços de Ferreira e Rio Ave, mas no futebol sénior a sua realidade ficou sempre presa ao quarto escalão português. Valadares, Fátima, Ideal, Vila Meã: uma sequência que parecia anunciar um destino fechado. "Não saía da cepa torta", recorda.
Foi nessa altura que decidiu ouvir quem lhe era próximo, seguiu a recomendação dos empresários e, ainda com muitas reservas, aceitou mudar de país. O destino era a Noruega.
"Era um convite para ir treinar à experiência numa equipa da 3.ª Divisão. A princípio, pensei que estavam malucos, mas acabei por ir". E, como tantas vezes se diz, o resto acabou por se transformar em história. "O início foi complicado. Fui para lá no pico do inverno [fevereiro], com um frio horrível, e durante essas três semanas partilhei um quarto que tinha três camas com dois colegas. Na altura, não disse nada para não preocupar ninguém", acrescenta Cláudio Braga.
O primeiro vínculo na Noruega "foi a ganhar o salário mínimo, mais casa e comida", mas o até então pouco conhecido Moss tornou-se a rampa de lançamento que não se adivinhava. Veio um título, a subida de divisão, muitos golos e, depois, a mudança para o Aalesund, que tinha acabado de descer à 2.ª Divisão, onde permaneceu um ano e meio. Aí, finalmente, encontrou um quadro mais profissional.
Graças ao algoritmo
Ainda assim, só nesta época - e já com 25 anos - Cláudio Braga chegou ao nível de uma 1.ª Divisão. Pelo meio entrou em cena o conhecido algoritmo da Jamestown Analytics, empresa de dados criada por Tony Bloom, dono do Hearts, do Brighton (Inglaterra) e do Union St. Gilloise (Bélgica). O sistema fez contas de toda a ordem - "acho que ninguém sabe muito bem como funciona o programa", brinca Cláudio Braga - e foi encontrá-lo ao Norte da Europa. Estava preparada aquela que viria a ser a grande transferência do futebol escocês.
Cláudio Braga no Hearts e a devoção em Tynecastle
Em 41 jogos, o jogador natural de Mafamude - que deu os primeiros toques no Águias de Gaia - assinou 17 golos (14 no campeonato) e somou três assistências. O impacto foi imediato: encantou, convenceu e rapidamente se impôs junto de todos no maior clube de Edimburgo. "Quando vim, sabia que podia e era capaz de fazer coisas boas, mas nunca pensei que fosse correr tão bem", admite Cláudio Braga, que nota, jogo após jogo, uma atenção muito particular por parte dos adeptos.
"Ao fim de poucas jornadas, já tinha um cântico só para mim", conta, a propósito da adaptação da mítica canção dos Queen, "Radio Ga-Ga". No Estádio Tynecastle, o refrão transforma-se num grito emblemático: "All we need is Cláudio Braga [Só precisamos do Cláudio Braga]".
A idolatria ao português também se estende às ruas medievais da capital escocesa, onde já não passa despercebido. E a razão não é pequena: com Cláudio Braga em destaque, o Hearts está a apenas três jogos de acabar com um jejum de 66 anos e voltar a ser campeão da Escócia pela quinta vez.
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