O Atto 3 está longe de ser um «negócio da China»: a BYD já deixou claro que não pretende ser catalogada apenas pelo preço.
Depois de um primeiro contacto curto nos Países Baixos - onde o Diogo Teixeira o experimentou pela primeira vez - chegou a minha vez de passar mais tempo com o BYD Atto 3 em estradas nacionais.
Antes de entrarmos no Atto 3 em si, vale a pena olhar para o nome e, sobretudo, para o emblema que este SUV elétrico traz. Durante os dias em que o conduzi, não faltaram pessoas a aproximarem-se para perguntar que carro era e a que marca pertencia.
Apesar de ter chegado há pouco ao mercado europeu, a BYD - sigla de Build Your Dreams - não é propriamente uma estreante: constrói automóveis desde 2003 e, muito antes disso, já se tinha afirmado como fabricante de baterias.
Atualmente, é um dos maiores produtores de baterias e uma referência na construção de veículos elétricos e híbridos plug-in: na primeira metade de 2023, entregou mais de 1,25 milhões de unidades. Um número impressionante.
Depois de consolidar a posição na China - ao ponto de já ter tirado à Volkswagen o lugar cimeiro - a BYD aponta agora à Europa. A meta anunciada passa por, até ao final da década, alcançar 10% de quota no negócio dos modelos 100% elétricos. É uma fasquia elevada, mas ambição é algo que não falta a este gigante chinês.
Atto 3 comanda as tropas
Na linha da frente desta investida europeia está o Atto 3, construído sobre a nova base e-Platform 3.0 e com a bateria Blade (células em lâmina, em vez de cilíndricas). O alvo é claro: um dos segmentos mais disputados do continente, o C-SUV.
No exterior, o desenho é relativamente contido, sobretudo na frente e de perfil. Ainda assim, a assinatura luminosa traseira, bem como as proteções mais musculadas nos para-choques e nas cavas das rodas, acrescentam-lhe um toque de diferenciação.
Mais importante: por fora sente-se uma intenção muito óbvia de agradar ao gosto europeu. Não há excesso de destaque para a marca nem soluções demasiado futuristas ou chamativas, como tantas vezes acontece com construtores que querem impor-se à força. Aqui, a BYD segue um caminho diferente.
Interior mais vistoso
Se a carroçaria do BYD Atto 3 passa mais despercebida, o habitáculo faz o oposto: aposta numa linguagem bem mais arrojada e com personalidade.
Há pormenores de que não sou particularmente fã - como o punho da transmissão de grandes dimensões, os manípulos de abertura/fecho das portas e as saídas de ventilação -, mas também há elementos que merecem destaque. Os bancos são macios e confortáveis e o ecrã central de 15,6” pode rodar entre vertical e horizontal com um simples toque num botão.
Em termos de ergonomia, contudo, ainda existe bastante espaço para melhorar. Os grafismos do painel de instrumentos e o tipo de letra no ecrã central não são dos mais legíveis, o que acaba por afetar a experiência de condução.
Em contrapartida, a perceção de qualidade dos materiais parece acima do habitual na categoria. Mesmo nas zonas onde normalmente encontramos plásticos mais rígidos, aqui surgem, quase sempre, superfícies com toque macio.
Na segunda fila, o espaço também merece elogios: há folga suficiente em comprimento para as pernas e em altura para a cabeça. E, por ser uma plataforma dedicada, o piso é totalmente plano, o que melhora bastante o conforto de quem viaja no lugar central.
Na bagageira, o Atto 3 disponibiliza 440 litros de capacidade, um valor agradável para o segmento. Com os bancos traseiros rebatidos, a capacidade sobe para 1338 litros.
Condução agradável e natural
Ao pegar no volante do Atto 3, a primeira impressão vem da posição de condução, que me pareceu um pouco mais alta do que a de vários rivais. Nota-se também que as regulações do volante não têm amplitude suficiente, o que dificulta encontrar a posição ideal.
Ainda assim, mal o carro começa a rolar, esses detalhes perdem importância, porque há muitos pontos fortes a sobressair. Em cidade ou fora dela, o BYD Atto 3 destaca-se pela suavidade e pela facilidade com que tudo acontece.
No modo Eco, por exemplo, mesmo com pedidos mais bruscos no acelerador, o binário chega às rodas dianteiras de forma progressiva, sem os exageros típicos de muitos elétricos - e com um bom tato no pedal do acelerador.
O pedal do travão também segue essa lógica de naturalidade, mas por uma razão específica: a regeneração é pouco intensa, o que leva a usá-lo mais vezes do que noutros elétricos. Admito que é um comportamento que aprecio, porque torna a condução mais semelhante à de um carro convencional.
Ao alternar entre Normal e Sport, embora as diferenças não sejam enormes nem particularmente evidentes, sente-se que o sistema liberta mais facilmente o potencial do motor elétrico com 150 kW (204 cv) de potência máxima e 310 Nm de binário máximo.
Nesse registo, o Atto 3 atinge 160 km/h de velocidade máxima e cumpre os 0 aos 100 km/h em 7,3s. Parece-me um desempenho honesto e ajustado ao tipo de proposta, especialmente tendo em conta a «loucura» de potência em que muitos elétricos recentes entraram.
Conforto surpreende
Sejamos claros: o BYD Atto 3 não pretende ser um sprinter nem carrega qualquer ambição desportiva, algo que se torna evidente quando entramos numa curva com mais vontade. A direção é muito leve e com pouco tato, o que favorece uma condução fácil e descontraída.
Já no conforto, há um efeito surpresa. Com uma afinação mais suave da suspensão (MacPherson à frente e independente do tipo multilink atrás) e pneus com alguma altura (235/50 R18), o Atto 3 mantém-se sempre confortável. Diria mesmo que consegue ser mais confortável do que a maioria dos seus adversários diretos.
Mas essa comodidade pede o seu preço quando se aumenta o ritmo em estradas mais curvas. A carroçaria inclina mais do que o esperado e a precisão fica um patamar abaixo da que encontramos, por exemplo, no Renault Mégane E-Tech Electric ou no novo Smart #3.
Apto para a cidade
Para quem procura um SUV elétrico com foco urbano, convém saber que o ângulo de viragem é bastante curto, o que torna as manobras mais simples. Há ainda outro ponto a favor: o Atto 3 inclui sensores de estacionamento à frente e atrás e acrescenta uma câmara 360º.
Do lado menos positivo, a visibilidade traseira não é brilhante, em grande parte devido ao vidro traseiro e ao pilar C relativamente largo. Ainda assim, é uma limitação que a câmara traseira ajuda a contornar.
Muito poupado
Durante este ensaio ao BYD Atto 3, acabei por passar a maior parte do tempo em modo Eco, que considero perfeitamente suficiente para a utilização do dia a dia.
Em cidade, num percurso a baixa velocidade e com o ar condicionado desligado, obtive médias de 14,7 kWh/100 km. Em autoestrada, não consegui baixar dos 20,5 kWh/100 km.
Não são valores de referência absoluta no segmento, mas são números interessantes, sobretudo tendo em conta as dimensões e o espaço que o Atto 3 oferece.
Tomando estas médias como base e considerando que o Atto 3 usa uma bateria com 60,48 kWh de capacidade útil, uma conta rápida aponta para uma autonomia real de 411 km em cidade e de 295 km em autoestrada.
Quanto custa?
Em Portugal, o BYD Atto 3 é vendido em dois níveis de equipamento, Comfort e Design, com preços a partir de 41 995 euros e 43 490 euros, respetivamente.
Ainda assim, a marca chinesa - representada no nosso país pela Salvador Caetano - tem campanhas de financiamento que reduzem o preço para desde 38 990 euros.
Não é barato ou, se preferirem, não é um «negócio da China», como muitos provavelmente esperariam.
A própria BYD já comunicou que não quer ser definida pelo preço e que prefere posicionar-se na qualidade e na tecnologia. E, na prática, este Atto 3 corresponde a essa intenção.
Mesmo assim, não dá para ignorar que este SUV elétrico compete num segmento cheio de alternativas fortes e que, em breve, vai receber dois nomes de peso: Renault Scénic E-Tech (desde 40 690 euros) e Peugeot e-3008 (desde 46 150 euros).
E, claro, é impossível contornar o facto de o renovado Tesla Model 3 estar disponível por 39 990 euros - sim, não é um SUV, mas joga num segmento acima e entrega mais performance e autonomia.
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